Assine o Estadão
assine

Educação

SÃO PAULO

Escolas levam 'Aedes' para salas de aula na capital paulista

O mosquito se tornou assunto não apenas na disciplina de biologia, mas também de geografia, matemática, artes e informática

0

Isabela Palhares,
O Estado de S.Paulo

29 Fevereiro 2016 | 08h22

SÃO PAULO - Depois de ter invadido as casas e provocado o medo da transmissão da dengue, zika e chikungunya, o Aedes aegypti entrou nas salas de aula de colégios particulares de São Paulo como tema para projetos multidisciplinares. O mosquito é assunto não só na disciplina de biologia, mas também de geografia, matemática, artes e informática.

No Colégio Santi, no Paraíso, zona sul da capital, o combate ao mosquito é o tema de projetos para todos os alunos do ensino fundamental 2 (6.º ao 9.º ano). "É um tema de extrema importância, que está muito próximo dos alunos, e por isso causa uma curiosidade muito grande. Os alunos estão muito empolgados com os projetos que estão desenvolvendo", disse Stefan Bovolon, professor de ciências naturais.

Cada uma das séries estuda um aspecto relacionado ao mosquito. Os estudantes do 6.º ano, por exemplo, pesquisam como cada país está agindo para combater o Aedes e o vírus da zika. Já os do 8.º ano estudam a ligação do vírus com os casos de microcefalia registrados no Brasil e seu possível impacto nas taxas de natalidade nos próximos anos. "O objetivo do projeto é cruzarmos as disciplinas e fazer com que os alunos pensem o assunto de uma maneira global, tenham uma opinião crítica sobre o que está acontecendo", disse Bovolon.

Os estudantes também saíram às ruas do bairro para informar a população sobre o que aprenderam na escola. "Conversei com alguns vizinhos e eles não sabiam coisas básicas sobre o que poderia ou não ser foco do mosquito, como era a transmissão da doença. É muito legal que eu saiba tudo isso e possa ajudar outras pessoas, dá vontade de estudar assim", contou o aluno do 8.º ano Eric Uhlendorff, de 13 anos. Com o interesse estudantil, o projeto, que deveria durar de três a quatro semanas, deve estender-se até o segundo semestre.

Prática. No Colégio Peretz, na Vila Clementino, também na zona sul, o combate ao mosquito é tema para iniciativas dentro e fora da escola. Os alunos de 6.º ano, por exemplo, montaram uma parede verde com mudas de crotalária, planta que teria capacidade para atrair uma espécie de libélula, predadora natural do Aedes - cuja eficácia ainda não está comprovada .

Já estudantes do 7.º ano estão produzindo vídeos e os do 8.º, panfletos com dicas para combater o mosquito e orientações sobre os sintomas das doenças. Armadilhas para capturar o mosquito também foram espalhadas pela escola.

"Os alunos perceberam que esse problema está muito mais perto deles do que imaginavam, porque alguns achavam que o mosquito só estava presente em bairros afastados. Isso fez com que ficassem mais curiosos em sala de aula, alguns até querem avançar no conteúdo", contou Marcos Muhlpointner, professor e coordenador de ciências naturais da escola.

No Colégio Graphein, em Perdizes, zona oeste, os projetos envolvem os alunos do ensino infantil até o médio. Os pequenos discutem sobre o mosquito em rodas de história. Os alunos do ensino fundamental (do 1.º ao 9.º ano) desenvolvem projetos de conscientização na aula de informática para os pais e a vizinhança. No ensino médio, professores propõem discussões com base em reportagens e pesquisas sobre as doenças transmitidas pelo Aedes.

"No ensino médio, os alunos fizeram gráficos e atividades com os números de bebês com microcefalia. Depois, discutiram como vai ser a qualidade de vida dessas crianças. Queremos que nossos alunos sejam mais críticos, mais cuidadosos", disse Camila D'Amica, coordenadora pedagógica.

No Colégio Santa Maria, Jardim Taquaral, zona sul, o currículo do 6.º ano prevê que os alunos aprendam sobre o ciclo de vida dos seres vivos. Para este ano não houve dúvida: o Aedes é o foco de estudo. "Montamos armadilhas para que eles pudessem ver de perto o mosquito e seu desenvolvimento. Mas eles já o conheciam muito bem, alguns até já tinham tido dengue", explicou Simei de Souza, professor de ciências.

Segundo Souza, a escola tem optado cada vez mais por usar temas do cotidiano estudantil para estimular discussões. "Queremos alunos menos conceituais, mas mais habilidosos", disse.

Mais conteúdo sobre:

Comentários