'Escola não está composta para atender autistas além da pedagogia'

Para especialista, 'cada caso é um caso' e, por isso, não é possível definir o que é 'melhor', se educação regular ou especial

Entrevista com

Maria Eloisa Famá D'Antino

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

28 Dezembro 2014 | 16h19

Leia entrevista sobre o autismo com a pedagoga e doutora em psicologia escolar e do desenvolvimento humano pela Universidade de São Paulo (USP) Maria Eloisa Famá D'Antinoa.

A rede regular é recomendada para todos os alunos com autismo?

Não existe o que é melhor para todos. Quando se fala em transtorno do espectro do autismo, está falando desde os casos gravíssimos, não verbais, com deficiência mental associada e fala de casos muito leves e até com inteligência preservada. Não dá para falar o que é melhor, escola regular ou especial. Está se falando de um espectro enorme. Esses casos mais graves demandam uma intervenção que vai além da escola.

As escolas estão preparadas para receber estes estudantes?

Me parece que a escola pública hoje não está adequadamente composta para o atendimento que vai para além das questões pedagógicas. Como os alunos podem ser atendidos em uma escola que não têm os recursos necessários, sendo que em muitas vezes o foco é clínico? É necessário ter uma metodologia adequada para trabalhar os comportamentos, desde a capacidade de interação entre pares. Para que o aprendizado formal aconteça, tenho que ter esse desenvolvimento anterior, que demanda atendimento intensivo de muitas horas semanais com a criança.

Existe uma forma de avaliar se o aluno está ou não pronto para a rede regular?

Às vezes, logo pela aparência, já acham que não pode. O que falta é a possibilidade de avaliação objetiva, que explicite realmente a funcionalidade de cada um. Tem aqueles que têm muita esteriotipia mas têm relação social melhor. E há outros que não têm, mas são impossibilitados naquele momento da vida de interagir. Não existe este atendimento na rede pública. Não há serviços públicos de diagnóstico que vejam esta funcionalidade da criança. A escola tem competência de ver condições pedagógicas da criança, mas isso não é suficiente no caso do autismo, porque os comportamentos são muito complexos, muitas vezes incompatível com o espaço escolar. A escola privada também não está totalmente preparada, tanto é que negam matrícula.

Qual adaptação é necessária para que os alunos aprendam?

Enquanto a escola não tiver um projeto pedagógico que contemple a presença de alunos com tantas diferenças e se proponha a trabalhar isto da melhor forma possível, vai ser muito difícil pensar em uma inclusão de qualidade. Cada um põe na conta do outro a responsabilidade. Não é só uma questão da legislação. A criança com autismo precisa ter uma abordagem metodológica muito diferente, intensiva, com um trabalho que o único método que tem evidência científica, a análise aplicada do comportamento. Trabalha-se intensivamente com a família. Não há uma diretriz metodológica na legislação. Tem que ter atendimento, um auxiliar de sala, uma monitoria. Mas não podemos deixar de destacar o esforço pela inclusão. Todas as tentativas têm sido válidas, estamos buscando o caminho, a escola está tentando. Não tem uma receita. Se tivesse alguma, ela seria a partir de um conhecimento muito profundo de cada criança, da funcionalidade de cada um.

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