Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Ensino superior a distância avança e valores caem

Portaria do MEC que facilita criação de polos já mobiliza mercado; mudanças serão mais sentidas nas cidades pequenas

Luciana Alvarez, Especial para o Estado

11 Julho 2017 | 03h00

Flávia Minard estava procurando emprego, ajudava a cuidar do pai com mal de Alzheimer, e ainda tinha as responsabilidades de ser mãe de uma criança pequena quando começou sua graduação em Gestão de Recursos Humanos, em 2014. Conciliar tudo isso é foi possível porque optou pelo ensino a distância, em um polo da Unopar perto de onde mora, em Sete Lagoas, cidade de 230 mil habitantes na região metropolitana de Belo Horizonte, Minas.

“Já fazia 13 anos que eu não estudava. A volta foi bem complicada, mas meu tutor ajudou muito”, conta Flávia, hoje com 34 anos. A dificuldade logo passou a ser encarada como oportunidade. “O EAD me fez ver que minha educação depende de mim, me fez explorar minhas capacidades”, explica. Com o diploma na mão, Flávia conseguiu um bom emprego e decidiu seguir na vida acadêmica. Hoje é aluna de um MBA, também na modalidade EAD na Unopar. “Nos horários vagos estou sempre estudando. Às vezes, sei que vou para algum lugar sem internet, então imprimo as atividades para levar comigo.”

Segundo o Censo da Educação Superior, do Ministério da Educação, havia 189 graduações a distância em 2005. Dez anos depois, mostra o censo mais recente, esse total saltou para 1473 - alta de quase 680%. 

A possibilidade de cursar uma graduação perto de casa deve chegar a mais pessoas como Flávia já neste ano, graças a uma portaria do MEC que permitirá às instituições de ensino privado com notas satisfatórias nas avaliações do governo abrirem mais polos de ensino a distância por ano sem necessidade de autorização prévia. 

A abertura vai depender do Conceito Institucional, uma medida de qualidade do ministério que varia de 1 a 5, sendo as notas superiores a 3 consideradas satisfatórias. Para grupos com nota 3, a portaria permite abertura de até 50 polos por ano. No caso das notas 4, esse limite sobe para 150. Quem tem nota 5 pode abrir até 250 polos em um ano. A portaria também permite que as bibliotecas e laboratórios sejam apenas virtuais - anteriormente, cada polo precisava ter essa infraestrutura física. 

A portaria foi publicada no fim do mês passado e já causou impactos. “Em 48 horas tivemos queda nas mensalidade, porque já vivíamos em um cenário de superoferta e a medida vai aumentar ainda mais. É uma regra básica de economia. Mas caiu também porque as instituições antigas no mercado já amortizaram seus investimentos e conseguem reduzir preços”, diz João Vianney, consultor em EAD da Hoper Educacional, que pesquisa a área.

“O MEC desburocratizou o processo de abertura de polos, privilegiando quem já demonstrou qualidade. A instituição vai levantar a demanda - e o tempo será apenas o necessário para montar a estrutura e abrir o polo”, afirma Sólon Caldas, diretor executivo da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), para quem a medida é extremamente positiva para o País, pois ajudará a aumentar o número de matrículas no ensino superior.

“O País precisa expandir. Temos a meta do Plano Nacional de Educação (PNE) para cumprir e só 18% de matrícula”, diz. O PNE é uma lei que estabelece 20 metas para a educação até 2024. A meta 12, especificamente, prevê que 33% dos jovens de 18 a 24 anos estejam matriculados no ensino superior; em 2015, a taxa era de 18,1%.

Neste semestre. A expansão da oferta em EAD deve começar a ser sentida neste semestre. “Este ano, vamos abrir cerca de 100 polos. São locais para os quais já tínhamos processos encaminhados - estavam parados desde 2013. Devemos abrir mais 200 polos em 2018, sobretudo em Estados onde ainda não estamos, no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, em cidades de 100 mil habitantes”, diz Carlos Fernando de Araujo Júnior, pró-reitor de EAD do grupo Cruzeiro do Sul. Além de crescer em total de polos, passará a ofertar cursos que ainda não tinha em seu cardápio EAD, como Nutrição, Arquitetura e Licenciatura em Educação Inclusiva. 

Jovem e no interior. O perfil do aluno do EAD tem se aproximado cada vez mais com o perfil do presencial, e o contexto atual pode atrair ainda mais alunos jovens. “A redução na oferta de programas públicos de financiamento estudantil está trazendo uma demanda crescente pelos cursos EAD, já que são mais acessíveis”, afirma o vice-presidente acadêmico do grupo Kroton, Mário Ghio.

Ao facilitar a abertura de polos, a portaria do MEC traz um impacto sobretudo para cidades pequenas. A Kroton, por exemplo, diz ter um “plano robusto de expansão”, com novas praças já mapeadas. “O Brasil tem ainda muitas cidades de tamanho médio e pequeno, longe dos grandes centros urbanos, sem nenhuma oferta de ensino superior. Nestas cidades podemos iniciar com o portfólio clássico e complementar com os cursos de saúde e engenharias ao longo prazo”, diz Ghio.

Ainda assim, o EAD encontra demanda também entre o público mais velho, e nas grandes cidades. “Sou o vovô da sala”, diverte-se Joary Carlos Antunes, de 58 anos, que cursa Análise de Sistemas em EAD na Cruzeiro do Sul. Antunes trabalha no setor de vendas e já tinha começado duas faculdades, sem conseguir levar adiante. “Se estava em um cliente no fim da tarde do outro lado da cidade, perdia as aulas. O formato EAD veio para solucionar o problema.”

Autonomia. “Libertador” é o termo ainda que Flávio Murilo de Gouvêa, diretor acadêmico de EAD do grupo Estácio usa para se referir à metodologia, que tem base na internet. “O modelo promove emancipação. O aluno adquire autonomia para aprender coisas novas. Isso é importante porque ao fim do ciclo universitário ele terá a necessidade de continuar aprendendo”, afirma.

Engenharias e Saúde online vão ganhar estímulo

Ao permitir que as bibliotecas e laboratórios sejam virtuais, as áreas de Saúde e Engenharia também devem ter mais oferta em EAD. “Há simuladores muito bons, que permitem fazer experiências químicas ou físicas, por exemplo”, diz Gouvêa. Ele lembra que até na prática profissional as tecnologia virtuais já estão se sobressaindo, portanto não haveria motivo para exigir certas estruturas físicas. “Se for hoje a um hospital, o exame entra direto no sistema, não tem mais o papel, o físico.”

Mas cursos com perfil prático exigem cuidados especiais ao serem oferecidos a distância, como no caso da Educação Física. “Temos uma grande quantidade de aulas práticas, que acontecem nos laboratórios, ginásios e academias dos polos”, explica coordenador do curso da Unip, Bergson Peres. “Temos de acompanhar o mercado, responder à demanda que existe, mas da melhor forma possível.” Cursos na área de saúde em EAD ainda são muito recentes, mas o exemplo da Unip mostra que não faltam interessados. "Não esperava tanta procura. Em três semanas, as matrículas pularam de 300 para 3.500”, diz sobre o curso, lançado este ano. 

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‘Nas grandes cidades, haverá pulverização de cursos nos bairros’

João Vianney, consultor em EAD da Hoper Educacional, explica impacto da portaria do MEC sobre ensino a distância

Entrevista com

João Vianney, consultor em EAD

Luciana Alvarez, Especial para O Estado

11 Julho 2017 | 03h00

Segundo o consultor de instituições de ensino superior João Vianney, cidades menores, com menos de 100 mil habitantes, devem ganhar polos. Nas grandes cidades, o movimento será de “pulverização”, com unidades pequenas espalhadas pelos bairros.

Além do preço, o que mais muda para os estudantes?

Veremos a chegada do EAD em cidade antes não atendidas, ficando cada vez mais próximas do consumidor. Quando chega um polo de EAD, há oferta de 30, 35 cursos de uma só vez. Isso é uma revolução para a cidade. Esse aspecto é muito positivo, a rede vai ganhar capilaridade pelo País.

As cidade maiores vão sentir algum impacto?

As 300 maiores cidades do Brasil já têm oferta de EAD, mas poderá haver mais concorrência. Nas grandes metrópoles, que já estão ocupadas, o fenômeno será o de pulverização, com pontos de atendimento em novos locais. Algo semelhante ao que aconteceu com os mercados: houve um período em que se abriam unidades imensas em locais de fácil acesso. E hoje o movimento é de abertura de pequenas lojas, espalhadas pelos bairros. 

Teremos cursos inovadores?

Provavelmente não. Se uma faculdade lança um curso novo presencial, ela pode montar o programa, escolher professores da casa, usar sua infraestrutura e, se tiver 30 matriculados, já é um sucesso. No EAD, montar um curso novo custa entre R$ 600 mil e R$ 1 milhão. Para compensar, são necessários cerca de 1.500 alunos. É muito arriscado lançar algo novo. Por isso o catálogo do EAD é conservador, com graduações já consagradas.

Com o aumento da concorrência, a qualidade será um diferencial maior?

Infelizmente a qualidade ainda conta pouco na prática. A cabeça do aluno ainda é muito utilitária, o que conta é o mais conveniente. O primeiro critério é o preço, se cabe no bolso. Então ele avalia se tem o curso que ele quer e se o local é próximo. Só depois ele vai comparar as instituições. Hoje, a gente estima que só 5% dos alunos do ensino superior escolheram o curso com base em critérios de qualidade.

Com o crescimento do EAD, o preconceito está diminuindo?

Talvez, mas ele ainda existe forte, apesar de as evidências serem favoráveis ao EAD. O desempenho do aluno de ensino a distância é muito bom, seja no Enade (avaliação do ensino superior), seja nos concursos públicos. 

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