Rafael Arbex/Estadão
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Ensino em outro idioma na infância estimula o cérebro

Benefícios para crianças vão além de conseguir se comunicar com mais gente. Há vantagens neurológicas e cognitivas; e o aluno aprende a ler na primeira língua e aplica o conhecimento para dominar a segunda

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2017 | 16h45

SÃO PAULO - A administradora Cristina Gazel ficou surpresa quando ouviu o filho de apenas 1 ano se despedir do porteiro da escola dizendo “bye bye”. Vitor ainda falava poucas palavras em português, mas, no segundo dia de aula na Builders, na zona oeste de São Paulo, já ouvia quase tudo em inglês no colégio.

Nos últimos 20 anos, o número de escolas bilíngues no Estado de São Paulo passou de 20 para 100, sendo a maior concentração de matrículas na educação infantil (até 4 anos). Para especialistas e coordenadores desses colégios, o aumento na procura se deve ao avanço de pesquisas que mostram os benefícios neurológicos e cognitivos do ensino bilíngue na primeira infância.

Estudos recentes em vários países mostraram que o benefício do bilinguismo vai além da comunicação e que esse estímulo tem efeito no cérebro, melhorando habilidades não relacionadas à linguagem. Essas descobertas têm feito com que governos estimulem a expansão de turmas bilíngues em escolas públicas por entender que podem melhorar o desempenho escolar. É o caso dos Estados americanos de Oregon, Carolina do Norte, Delaware, Utah e Washington.

No Brasil ainda não há uma legislação que defina a carga horária para a escola ser considerada bilíngue. Essas unidades seguem as diretrizes curriculares do Ministério da Educação (MEC), diferentemente das escolas internacionais, e ao mesmo tempo oferecem uma carga horária alta de aulas em outro idioma, seja inglês (a maioria) ou outra língua. Para a Organização das Escolas Bilíngues (Oebi), a carga horária mínima deve ser de 75% na educação infantil, 35% no fundamental e 25% no médio.

Pesquisas. As pesquisas trazem uma nova visão, já que há algumas décadas acreditava-se que ensinar uma segunda língua para crianças pequenas seria uma interferência que atrapalharia o desenvolvimento acadêmico e intelectual. Os estudos mostram que o ensino bilíngue causa mesmo uma interferência no cérebro, mas benéfica. Uma pesquisa do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, verificou que as crianças bilíngues tinham maior controle inibitório, habilidade usada para focar quando há estímulos conflitantes.

Já um levantamento da George Mason University, na Virgínia, Estados Unidos, verificou melhor desempenho dos bilíngues em outras disciplinas, além do inglês, o que pode estar atrelado à melhor capacidade de concentração.

Cristina diz que matriculou o filho Vitor, agora com 12 anos, na Builders sem saber desses benefícios. “Não escolhi a escola por ser bilíngue, mas porque tinha gostado do ambiente e do projeto pedagógico. O bilinguismo acabou sendo bônus.” Os filhos menores, Gustavo e Olivia, de 10 e 8 anos, também estudam lá.

Os três entraram na escola com 1 ano de idade. Cristina conta que aos 5 anos já estavam alfabetizados em português e curiosos para ler em inglês. “Amigos me perguntavam se meus filhos não confundiam as línguas. Não aconteceu, foi um processo natural.”

Antonieta Megale, coordenadora da pós-graduação em Educação Bilíngue do Instituto Singularidades, diz que a alfabetização em duas línguas não confunde porque é um processo único. De acordo com ela, o aluno aprende a ler no primeiro idioma e aplica o conhecimento para ler no segundo. “Entre o inglês e o português, muito aprendizado é transferível. Por exemplo, a psicomotricidade, a junção entre letras e sílabas.” Segundo Antonieta, ao aprender as duas línguas ao mesmo tempo a criança faz involuntariamente comparações entre elas, o que a leva a compreender melhor a estrutura dos idiomas.

Ana Célia Campos, diretora da Builders e presidente da Oebi, diz que as pesquisas ajudaram a comprovar o que os colégios observavam na prática. Na Builders, quando a criança entra com 1 ano de idade, 80% a 90% do tempo a língua falada é em inglês para que se habitue e adquira vocabulário. “O português está garantido em casa. Fazemos essa imersão para que aprenda as duas línguas simultaneamente”, explica. 

O processo de alfabetização é realizado em português, mas, segundo Ana Célia, as crianças acabam transferindo o conhecimento para o inglês e já começam a tentar a ler em outra língua. 

Uma das escolas bilíngues mais antigas de São Paulo, a Stance Dual, na região central da capital, foi fundada há 26 anos, quando, segundo a diretora Eliana Rahmilevitz, ainda havia desinformação sobre a proposta. “Algumas pessoas diziam que a criança escolarizada em duas línguas teria o aprendizado do idioma materno prejudicado ou desenvolvimento neurológico pior.”

Eliana explica que o colégio prepara as crianças para ler e entender o mundo e não só na escola. “Por isso, alfabetizamos em português. Assim os alunos relacionam o aprendizado com seu contexto. Depois, transferem o conhecimento para conseguir ler em inglês ou em outra língua.”

Proximidade. Amélia Falazar, diretora do Colégio Miguel de Cervantes, na zona sul de São Paulo, explica que as crianças desde os 4 anos têm contato com a língua espanhola já que em todas as aulas ficam duas professoras, cada uma falando em um idioma. A alfabetização é feita em português, mas aos 7 anos os alunos começam a ler e escrever em espanhol.

“São línguas similares e, para evitar uma confusão na ortografia e semântica, optamos pela alfabetização no português. Tivemos um grupo experimental com a alfabetização no espanhol, mas percebemos que dificultava o processo."

Já no Colégio Humboldt, também na zona sul da capital, com ensino bilíngue em alemão, a alfabetização é simultânea nos dois idiomas, segundo a coordenadora Rebeca Boldrin. Na sala de aula, o alfabeto é representado de um lado com o som das letras em português e no outro em alemão.

“Nosso modelo propõe dar o mesmo valor às duas línguas. Não tem um jeito certo ou errado de se comunicar, não chamamos a atenção quando as crianças falam em português e isso faz com que o processo seja mais prazeroso para elas.”

Para Norma Sandra Ferreira, coordenadora associada do curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é preciso cuidado com a abordagem e o estímulo usados pelos colégios. “Muitos pais põem o filho em escolas bilíngues por entender que vai ter um inglês melhor na vida adulta e que isso vai destacá-lo no mercado de trabalho. Esse aprendizado não pode tirar o espaço de brincadeira e aprender livre das crianças.”

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Isabela Palhares*, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2017 | 16h35

KABALE - No fundo da sala de aula com paredes de barro, desenhos coloridos feitos pelos alunos têm escrito ao lado o nome dos objetos em inglês, idioma oficial de Uganda, e Luganda, a língua mais falada no país do leste da África. Alfabetizar as crianças na língua materna faz parte de uma nova estratégia testada em Uganda para melhorar o desempenho acadêmico e reduzir as taxas de abandono escolar.

Apesar de ter praticamente universalizado o acesso à educação primária (dos 6 aos 12 anos), com 96% das crianças nessa faixa etária matriculadas, apenas 67% delas conseguem completar essa etapa do ensino e apenas 25% se matriculam para a educação secundária (dos 13 aos 17 anos). Além de fatores como pobreza e trabalho infantil, pesquisadores indicaram que a dificuldade na alfabetização seria um dos motivos para os alunos não conseguirem acompanhar os demais anos escolares – 31% repetem o 1.º ano no país.

A escola rural no distrito de Kabale, no sul de Uganda, é uma das 3,6 mil unidades do país que fazem parte do projeto experimental. Esse teve início em 2013, para alfabetizar as crianças em sua língua materna e só depois ensinar o inglês. Com 87 crianças entre 6 e 12 anos, a escola é um dos modelos de sucesso no país.

“Essas crianças não tinham nenhum contato com o inglês, porque seus pais não sabem o idioma já que nunca foram para a escola. Como nós iríamos ensiná-los a ler e a escrever numa língua que não conhecem? Os alunos ficavam retraídos, com vergonha por não aprender e perdiam o interesse nos estudos”, conta Monika Muhunuza, dirigente do Ministério da Educação no distrito.

Naturalidade. Nas escolas que fazem parte do programa de ensino bilíngue, as crianças no 1.º ano têm contato com o inglês por estimulação oral e começam a ser alfabetizadas na língua materna. Nos anos seguintes, o inglês é reforçado gradativamente até, que no 4.º ano, é usado exclusivamente em sala de aula. “A ideia é que aprendam brincando, o inglês é introduzido nas brincadeiras e músicas para que criem um laço afetivo também com esse idioma.”

Rehemah Nabacwa, especialista em educação infantil da USAID – ONG que formulou e capacitou professores para o programa bilíngue, com o apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) – explica que no início havia um receio de que as famílias teriam resistência em aceitar a alfabetização em outra língua que não fosse o inglês. “Para os pais, o principal motivo de a criança frequentar a escola é aprender o inglês, já que falar o idioma é um dos requisitos para se conseguir um emprego que não seja na agricultura. Por isso, foi muito importante envolver e explicar às famílias essa nova estratégia.”

“Levamos para as comunidades cartões com desenhos de objetos de um lado e seu nome no idioma local, do outro. Os pais se divertiam até mais que as crianças porque nunca tinham visto como era a escrita de utensílios que usavam todos os dias, como uma enxada ou uma panela”, lembra Rehemah.

A ONG monitora os resultados do programa comparando o desempenho dos alunos dessas escolas com o de unidades que mantêm a metodologia antiga. Em três anos, os dados mostraram que, ao fim do 4.º ano, 43 % daqueles que aprenderam a ler primeiro em Luganda conseguiam dominar mais de 60 palavras por minuto em inglês, enquanto apenas 16% das crianças que aprendem no método monolíngue atingem esse ritmo.

Além de lerem mais rápido, as crianças também conseguem compreender melhor o conteúdo do que estão lendo quando são alfabetizadas primeiro em sua língua materna. A pesquisa mostrou que o grupo que sofreu intervenção, no fim do 4.º ano, conseguia responder 27% das perguntas de interpretação de um texto em inglês – nas demais, só 14% conseguiam responder.

Apesar da melhora no desempenho, especialistas que atuam no país ainda estão preocupados com o baixo nível de interpretação dos estudantes. Divya Lata, especialista em desenvolvimento infantil do Unicef em Uganda, explica que as condições socioeconômicas têm forte influência no desempenho escolar.

Das 20 milhões de crianças que vivem em Uganda – 60% da população do país –, 8 milhões vivem em situação de pobreza, sendo 2 milhões delas mal nutridas, de acordo com dados de 2016 do Unicef. Além disso, estima-se que 93% das crianças que moram em áreas rurais trabalhem em comércios ou na agricultura de subsistência. “Como a pobreza ainda é muito acentuada, as crianças são prejudicadas já na primeira infância e isso atrapalha seu desenvolvimento escolar”, diz Divya.

Valorização. Monika explica que outra tarefa das escolas é envolver as famílias na educação dos filhos para que entendam a importância dos estudos na vida deles. “Convidamos os pais para vir sempre à escola e, assim, se familiarizar com o ambiente. Também cobramos uma taxa mensal de 37 mil shillings (cerca de R$ 37) ou pedimos para que doem lenha e alimentos. Assim, eles sentem que estão investindo no ensino e vão pensar duas vezes antes de tirar a criança da sala de aula.”

Outra estratégia, segundo Monika, é valorizar as conquistas escolares das crianças. No fim da aula de uma turma de 1.º ano, em uma sala com chão de terra batida e sem energia elétrica, 35 crianças se espremem em quatro bancos. Elas esperam ser chamadas pela professora para ir à frente da sala e recitar o alfabeto ou contar em inglês. Ao final, os alunos cantam e dançam ao som de uma música que diz “parabéns, você é tão legal, você é tão inteligente”.

*A repórter viajou a convite do International Center for Journalists (ICFJ)

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Luiz Chantre*, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2017 | 16h45

Quando decidimos aprender qualquer coisa é preciso ter em mente que aprender requer esforço e depende muito da disciplina e da força de vontade do aluno. Então, quando a decisão é de aprender um idioma, é fundamental participar ativamente de todo processo, com dedicação, persistência e coragem.

Entre os desafios na aprendizagem do inglês está o de vencer a timidez ou a falta de segurança. Se a pessoa tem medo de errar, de tentar falar e escrever no idioma novo, geralmente, é porque não se sente acolhida no curso. Às vezes, o medo do aluno é de ser ridicularizado. É preciso mudar esse status quo, pois o erro é amigo do aprendizado. Desde pequenos, nosso cerebelo corrige o equilíbrio; ao darmos os primeiros passos, caímos, sentamos, levantamos e repetimos isso até não cometermos mais os mesmos erros.

Por isso é necessário encorajar o aluno a não ter receio de errar. Quanto mais se erra, tentando o novo, mais circuitos neuronais são disparados; e, quando se consegue corrigir um erro, o aprendizado é recompensador. O professor tem de ser treinado para saber como reagir ao erro. Se ele demonstra “linguagem corporal” agressiva, negativa, ameaçadora ou reprovadora, transmite uma mensagem de que o erro não é bom e deveria ser evitado. É preciso reagir com positividade e incentivar o aluno a tentar novamente e treinar a forma correta.

Agora, vale ressaltar que a aprendizagem do inglês com relação à escrita é mais difícil do que a fala porque o cérebro já tem em seu arcabouço de memória um conjunto de símbolos, que ele aprendeu e associou às sonoridades da língua materna. Embora a escrita possa ser mais difícil do que a fala, ainda há uma dificuldade imensa dos alunos brasileiros com a pronúncia. Há fonemas em inglês que não existem em português e que, como o aluno nunca ouviu, poderá ter dificuldade em reproduzir o som. Um exemplo: o th – think (pensar).

Aconselha-se atenção às aulas, dedicação ao estudo, usar música, livros e vídeos e levar o idioma para o dia a dia. O que se faz em inglês pode ser mais importante do que a aula em si, pois o aprendizado depende muito mais do aluno do que de onde estuda.

Muitos alunos abandonam os cursos nos níveis intermediários. Nestes níveis, o ganho que o aluno tem versus o esforço que precisa fazer para melhorar parece injusto. O aluno deve pôr minimetas para perceber que o aprendizado pode ser tangível e sentir o que chamamos sense of achievement (sensação de dever cumprido). Muitos alunos desistem dos cursos por falta de recursos financeiros, falta de tempo para se dedicar, estresse pela cobrança de resultados. Raramente, percebemos, desistem por não “conseguirem” aprender o idioma.

*supervisor de Instrução do Berlitz Brasil e pós-graduado em Neurociência Aplicada à Educação pela Santa Casa de São Paulo

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