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Em site, indígenas ensinam sua história

Em site, indígenas ensinam sua história

Índio Educa publica material didático multimídia sobre histórias, tradições e lutas de povos do Brasil

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Ricardo Rossetto ,
Especial para O Estado

03 Dezembro 2014 | 03h00

Sempre que o índio xucuru Casé Angatu deixa Ilhéus, na Bahia, para oferecer em São Paulo um curso sobre culturas indígenas, ele ouve de algum participante: “Vocês comem pessoas?”. De tão acostumado a ser lembrado pelos estereótipos, Casé ri, disfarça e aproveita a oportunidade para apresentar ao grupo, na frente do Pátio do Colégio, o projeto Índio Educa. No site, indígenas de todo o Brasil produzem material didático multimídia sobre suas histórias, tradições e lutas. 

O Índio Educa surgiu em setembro de 2011, quando a ONG Thydewá venceu um edital que buscava financiar iniciativas de combate ao racismo. Entre centenas de indígenas interessados em participar do projeto, a ONG escolheu seis jovens de diferentes etnias, que estudavam em universidade e tinham domínio das ferramentas digitais. 

Com uma bolsa de estudos no valor de R$ 350 durante os nove primeiros meses, eles ganharam a missão de publicar fotos, vídeos e textos que desconstruíssem conceitos errôneos sobre esses povos e sua história. De lá para cá foram feitas mais de 200 postagens e a audiência do indioeduca.org chegou perto de 2 milhões de visitantes, a maioria de professores e estudantes. “Construímos uma tecnologia educativa que cria uma ponte entre o índio e o não-índio e semeia a valorização da diversidade”, afirma o presidente da Thydewá, Sebastian Gerlic. Segundo o Censo de 2010 do IBGE, a população indígena brasileira é de 896.900 pessoas, que representam 305 etnias e 274 idiomas distintos. 

Nascida no município de Amajari, em Roraima, a índia taurepang Yolly Sabrina Marques de Almeida, de 29 anos, é uma das gestoras do Índio Educa. É ela que identifica as dúvidas nos comentários do site e aciona os colegas para que postem conteúdo relativo ao tema. Yolly também usou a plataforma nos três anos em que deu aulas nos Ensinos Fundamental e Médio na Comunidade do Ouro, onde mais de 80% da população é indígena.

Utilizando o único computador da Escola Municipal Indígena Vovó Joaquina, ela ensinou os alunos a navegar no site e deu como dever de casa a produção de uma matéria sobre algum aspecto da cultura taurepang. “Apesar de em muitas localidades não haver energia nem sinal de celular, sempre há algum aparelho que filma e captura imagens e isso é a nossa janela para o mundo”, diz Yolly, que hoje mora em Boa Vista e estuda Letras na Universidade Estadual de Roraima. “Buscamos nossa dignidade mostrando a realidade.” 

O conteúdo do site também fortalece a aplicação da Lei 11.645/2008, que torna obrigatório o estudo da história indígena nas escolas públicas e particulares. Casé, que é professor de História na Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus, promove minicursos para apresentar aos professores esses materiais didáticos. “O Índio Educa tem papel de sensibilizar as pessoas para uma nova relação com a natureza”, afirma. “Sem isso não há preservação do meio ambiente. A recente seca em São Paulo é um exemplo desse descaso.”

Aluno do 8º período da Faculdade Cásper Líbero, Ricardo Rossetto, de 24 anos, venceu o 9º Prêmio Santander Jovem Jornalista. Por sua reportagem, ele cursará em 2015 um semestre letivo na Universidade de Navarra, na Espanha, com todas as despesas pagas. 

A fase final e a cerimônia de premiação ocorreram na segunda-feira, na sede do banco, com a participação dos diretores de Conteúdo e Desenvolvimento Editorial do Grupo Estado, Ricardo Gandour e Roberto Gazzi, respectivamente, e de Marcos Madureira, vice-presidente executivo de Comunicação, Marketing, Relações Institucionais e Sustentabilidade do Santander Brasil.  Rossetto e os outros cinco universitários finalistas - Leon Domarco Botão (Unimep), Rafaela Tavares Kawasaki (Unitoledo), Natasha Kawanishi Mazzaro (PUC-SP), Juliana Verri Ribeiro (Unitau) e Lucas Gabriel Santiago Rangel (Faat) - receberam laptops e garantiram a publicação de suas matérias. A reportagem do vencedor também está hoje no jornal O Estado de S. Paulo. 

Confira os textos de todos os finalistas: 

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