Em eleição para reitor, USP discute desafios

Renata Cafardo, Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2017 | 05h00

SÃO PAULO - Às vésperas de escolher seu próximo reitor, no dia 30, a Universidade de São Paulo (USP) ainda luta para sair da sua pior crise financeira. O fundo de reserva da instituição representa hoje apenas 5% do valor de dez anos atrás, de acordo com os dados obtidos pelo Estado por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI). O montante – de R$ 97,5 milhões – é o mais baixo da história da USP. Só a folha de pagamento mensal da universidade é de cerca de R$ 380 milhões, quatro vezes mais do que o valor existente no fundo de reserva.

O dinheiro do fundo – que existe para investimentos e despesas emergenciais – minguou nos últimos anos porque teve de ser usado inclusive para pagar professores e funcionários. O quadro de pessoal passou a aumentar ano a ano em 2009, fazendo com que a universidade chegasse a 2014 com 106% de seu orçamento comprometido com a folha de pagamento. 

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O atual reitor Marco Antonio Zago passou então a enxugar. Parou obras, fechou uma das creches, congelou contratações e lançou um plano de demissão voluntária, mas que também consumiu quase R$ 600 milhões das reservas. 

No meio deste ano, o comprometimento do orçamento de cerca de R$ 5 bilhões começou a dar sinais de melhora. Em setembro, 90% desse valor foi usado em pagamento de salários. Apesar de ainda ser um índice alto, o reitor está otimista. A arrecadação do Estado também está aumentando – todo o dinheiro da USP vem de um cota de 5% do ICMS, que foi prejudicado nos últimos anos pela crise econômica do País.

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Nos debates da eleição para reitor, no entanto, os candidatos da oposição fazem questão de deixar claro que a crise na universidade está longe de acabar. Já os concorrentes mais ligados à atual gestão defendem que ela salvou a USP do colapso. 

Discussões. A disputa pela sucessão está fazendo a universidade discutir os efeitos do aperto financeiro e suas possíveis soluções. Participam efetivamente da eleição cerca de 2 mil pessoas, que formam o colégio eleitoral. 

“O novo reitor tem que ter a coragem de mudar as regras da universidade para que ela seja viável”, diz o diretor da Escola Politécnica, José Roberto Castilho Piqueira. Ele se refere às parcerias com a iniciativa privada, como cursos pagos oferecidos para empresas, por exemplo, que são discutidos há anos e enfrentam resistência de vários grupos. Apesar da Poli ser uma das unidades que mais usam o modelo, Piqueira diz que há ainda barreiras burocráticas com origem ideológica.

No ápice da crise, Zago procurou ex-alunos da USP – empresários como Rubens Ometto (Cosan) e Pedro Wongtschowski (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial) – para pedir dinheiro. “Todos disseram ‘sim’, mas não concordaram em colocar dinheiro no orçamento da USP porque a deficiência tinha sido gerada por má gestão”, conta o reitor. O grupo decidiu contratar a consultoria Mckinsey para fazer um diagnóstico e apontar soluções. Entre elas, estavam a criação de um conselho consultivo com pessoas de fora da USP e um fundo patrimonial com dinheiro de doações. O conselho já está funcionando e tem membros como a ex-diretora para educação no Banco Mundial e professora da Fundação Getúlio Vargas, Claudia Costin, e o presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), José Goldemberg. O fundo ainda está em estudo. 

Outra discussão é a necessidade do aumento da assistência aos estudantes de baixa renda diante da aprovação do novo sistema de reserva de vagas. O modelo prevê que, em 2020, 50% dos alunos da USP precisarão ter estudado em escolas públicas. “A sociedade precisa ajudar nessa sustentabilidade estudantil. Nosso grande objetivo atual é buscar fontes alternativas de financiamento”, diz o diretor da Faculdade de Medicina, José Otávio Auler Junior. O reitor acredita que essa obrigação com os cotistas, que inclui pagamento de bolsas, alimentação e moradia, é do governo.

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Atualmente, a USP gasta cerca de R$ 200 milhões anuais com auxílio para estudantes. E há reclamações constantes dos alunos, principalmente dos que moram no conjunto residencial da universidade, o Crusp. Eles denunciam falta de manutenção dos prédios – o que teria ocasionado um incêndio este mês em um dos apartamentos – e reclamam ainda da falta de internet nas unidades.

A reitoria também decidiu fechar, no começo deste ano, uma das duas creches da Cidade Universitária. As crianças foram transferidas para a unidade que ainda está funcionando e novas vagas não foram abertas em 2017. As creches são usadas principalmente por estudantes de baixa renda que têm filhos.

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O aluno de mestrado João Victor de Oliveira, de 31 anos, tenta uma vaga para o filho de 1 ano desde julho. “A creche contribuiria muito para eu poder estudar em período integral.” Zago argumenta que, com a crise financeira, é preciso priorizar atividades de ensino e pesquisa. “Isso é com o (João) Doria, não é pra mim”, diz ele, sobre as creches. 

Pesquisa. Outro reflexo da crise financeira está nos laboratórios da Faculdade de Ciências Farmacêuticas. A diretora da unidade, Primavera Borelli, afirma que a saída de funcionários que aderiram ao plano de demissão voluntária está prejudicando as atividades de pesquisa. “Temos equipamentos em que apenas um técnico muito especializado sabe mexer. Se ele sai, preciso de pelo menos seis meses para treinar um outro.”

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Fora isso, como não se pode contratar novos funcionários, há acúmulo de trabalho. Segundo Primavera, os técnicos que sobraram estão sendo compartilhados por dois ou três laboratórios. “A questão financeira tem que ser equacionada, mas isso não pode significar o desmonte da USP”, diz. 

Consulta eletrônica. A USP fará hoje uma consulta pública sobre as intenções de voto para reitor. Todos os alunos, professores e funcionários da instituição poderão votar, mas a pesquisa não tem valor na eleição. Pela primeira vez, a consulta será feita eletronicamente. No dia 30, poderão votar para os membros do Conselho Universitário, dos conselhos centrais (graduação, pós, pesquisa), das congregações das unidades (representantes de todos os departamentos) e dos conselhos de museus e institutos. A maioria do colégio eleitoral é de docentes. A USP elege uma lista tríplice que é enviada ao governador para que ele escolha o novo reitor.

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Renata Cafardo, Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2017 | 05h00

Vahan Agopyan, atual vice-reitor da USP

O HOMEM DA CONTINUIDADE

Vahan Agopyan, de 65 anos, é vice-reitor da USP e ex-diretor da Escola Politécnica. Tem o apoio do reitor e, portanto, enfrenta resistência dos setores mais à esquerda da universidade. Suas propostas são de continuidade dos apertos financeiros e prioridade para as chamadas atividades-fim da universidade. Quer também fazer convênios com a secretaria da Educação para que os alunos de licenciatura da USP tenham maior inserção nas escolas públicas.

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Ildo Luis Sauer, professor da Poli e ex-diretor da Petrobrás 

REFORMA PELO MERCADO

Ildo Luis Sauer, de 63 anos, é professor titular da Poli e foi diretor de Gás e Energia da Petrobrás, entre 2003 e 2007. Apesar de não estar sendo investigado, o Tribunal de Contas da União decretou a indisponibilidade dos seus bens por suspeita de irregularidades na aquisição da refinaria de Pasadena. Sauer faz oposição à atual gestão. Defende a reforma dos currículos dos cursos com ênfase na empregabilidade e empreendedorismo. 

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Ricardo Ribeiro Terra, professor da FFLCH

O INIMIGO DA BUROCRACIA

Ricardo Ribeiro Terra, de 69 anos, é professor titular de teoria das ciências humanas da FFLCH, especializado em filosofia política alemã. Não está atrelado à gestão atual, mas também não se coloca como oposição. Tem propostas polêmicas como a escolha do reitor e de diretores por meio de um comitê de busca, inclusive fora da universidade. Defende que boa parte dos problemas da USP está na “burocracia incapaz”.

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Maria Arminda do Nascimento, diretora da FFLCH

ELA QUER MAIS DIÁLOGO

Maria Arminda do Nascimento Arruda é a atual diretora da FFLCH. Apesar de ter sido pró-reitora de Cultura e Extensão na gestão de Zago, hoje é a mais clara candidata da oposição. Ela acusa a atual reitoria de falta de diálogo durante o processo de cortes na área financeira. E diz que o governo não cumpre a lei e faz descontos no valor do ICMS que é repassado à USP. Defende que a universidade continue a manter as creches internas e o Hospital Universitário. 

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'Recursos são para ensino de qualidade e pesquisa'

Reitor da USP diz que sucessor não deve colocar dinheiro em programas para jovens de baixa renda, como bolsas, moradia e alimentação

Entrevista com

Marco Antonio Zago, reitor da Universidade de São Paulo (USP)

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2017 | 05h00

SÃO PAULO - Além do aperto financeiro, o reitor da USP, Marco Antonio Zago, deixa o cargo em janeiro com a marca histórica de ter conseguido aprovar um sistema de cotas na instituição. Mas diz que a função da universidade é apenas a de educar. Para ele, seu sucessor não deve colocar dinheiro em programas de permanência estudantil, como bolsas, moradia, alimentação, para os jovens de baixa renda que vão entrar na USP. Estudos mostram que a assistência é crucial para que estudantes pobres não desistam do curso. “Esta é uma responsabilidade social do governo. Tem maneiras de resolver, não precisa passar mais dinheiro para a universidade, o governo pode criar programas de suporte”, disse Zago em entrevista ao Estado. Como exemplo, ele cita o Programa Universidade para Todos (ProUni), que dá bolsas para estudantes em faculdades privadas.

Como você gostaria que a sua gestão fosse lembrada?

Como a gestão que preservou a autonomia da USP. Quando nós entramos, a previsão era que nós não completaríamos o ano de 2016 por falta de recursos. O que você acha que aconteceria se eu fosse ao governador e falasse: não consigo pagar os salários este mês? Ele não ia dizer: “fecha a USP”. Ele ia dizer: “Então acabou a brincadeira. Dá pra mim que eu pago. E o seu orçamento do ano que vem, você vem aqui e nós vamos discutir quanto eu vou te dar”. Acabava o sonho da autonomia. Foi necessário fazer com que as pessoas entendessem progressivamente o tamanho do risco que nós estávamos correndo. Hoje eles ficam falando, não tem dinheiro para hospital, para creche... Claro. Mas conseguimos chegar ao comprometimento da folha de 90% este mês. Eu acho que a questão financeira não é mais preocupação da USP, mas não é que podemos sair queimando dinheiro.

Mas as reservas estão muito baixas.

O Grandino (João Grandino Rodas, ex-reitor) já tinha queimado R$ 1 bilhão das reservas. Queimamos mais R$ 1 bilhão. Este ano, já está em 98% o acumulado do comprometimento da folha porque nos primeiros meses não tinha saído todo mundo do PDV (plano de demissão voluntária), só em abril se estabilizou mais abaixo. Fizemos uma redução de 50% nos gastos com consumo, contratos. Então, sem olhar números, posso dizer que não estamos gastando o total de 100% do orçamento mais. Mas precisamos refazer nosso fundo porque ele que vai servir, primeiro, de tampão para essas oscilações que existem na economia. Não foi só o excesso de gastos, tivemos queda nas arrecadações. Segundo, a universidade tem que ter dinheiro para fazer iniciativas importantes como a que estamos fazendo, o Centro de Inovação (centro interdisciplinar de pesquisa que está sendo construído).

Nesse contexto de crise, a universidade terá dinheiro para ajudar os alunos pobres que entrarão por cotas?

A lógica vai nos dizer que precisa vir de fora. Porque os recursos que a universidade recebe são para desenvolver o ensino de qualidade e a pesquisa. Nós precisamos desses recursos para os prédios, para a manutenção, para manter os laboratórios funcionando, para pagarmos técnicos, professores. Claro, nós sempre tivemos alunos com dificuldades financeiras e fomos criando programas de apoio aos estudantes. Só de alimentação gastamos com estudantes R$ 70 milhões por ano. Neste ano, como a inclusão aumentou, já tínhamos a falta, já está no limite. Não temos recursos para aumentar isso muito mais. 

Qual é a saída para o próximo reitor nesse caso?

Estou convicto que a sociedade é que tem que se encarregar disso. Porque nós vamos fazer nossa função social de educar. Pode ser através de empresários, fundos, mas, na verdade o mais prático que podemos ter resultado imediato é através do governo. Esta é uma responsabilidade social do governo. Tem maneiras de resolver, não precisa passar mais dinheiro para a universidade. O governo pode criar programas de suporte. O governo federal não tem o ProUni? Sustenta estudantes pobres nas universidades privadas. Por que não pode sustentar nas universidades públicas? Ou ter, por exemplo, um Bom Prato (programa do governo estadual que oferece refeições para população de baixa renda) estudantil. Por que nos que temos que pagar para os estudantes comerem?

Por que a USP caiu no ranking Times Higher Education?

Não caiu. São oscilações normais de rankings. A USP está muito bem, a produção científica está crescendo e continuamos a ser a melhor universidade da América Latina.

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Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2017 | 11h23

PASSADO

Renato Lima, ex-aluno da FFLCH e presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

1. O que a USP tem de melhor?

A ideia de uma universidade pública criada para produzir conhecimento e formar lideranças com excelência acadêmica e profissional capazes de influenciarem no modelo de desenvolvimento do País.

2. Qual o maior problema da USP?

Uma universidade ensimesmada, que vive glórias do passado e, com raras e elogiosas exceções, se consome em disputas corporativistas e de posições políticas. 

3. Você é a favor ou não de cotas na USP e por quê?

Sou a favor. Se queremos aliar meritocracia com equidade racial e social, as cotas são um instrumento poderoso de inclusão e transformação da realidade brasileira. Do contrário, não estaríamos falando de mérito, mas de reforço de desigualdades. 

4. Qual deve ser a maior preocupação do novo reitor? 

Diminuir os atritos internos e propor um novo e inclusivo projeto institucional, que seja pautado pela máxima transparência (não só da dimensão financeira) e pela ideia de que a universidade não pode viver isolada da sociedade. A Comunidade USP precisa criar a cultura da prestação de contas do que faz e do que gasta. 

5. Como você vê o futuro da USP?

Incerto. Se a USP olhar corajosamente para si e para a sociedade, tem todas as condições de continuar sendo um dos principais polos de conhecimento acadêmico do País. Mas se continuar olhando apenas para o umbigo, tende a perder protagonismo e ser cada vez mais questionada. Minha torcida é para que a primeira opção seja a escolhida.

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+++ Em eleição para reitor, USP discute desafios

PRESENTE

Stefany Ohara, 19 anos, aluna do primeiro ano do curso de administração da FEA

1. O que a USP tem de melhor?

Na USP, temos muitas oportunidades, podemos estudar no exterior, fazemos contatos. A partir do momento que você entra na USP, muitas portas se abrem, mas você tem que batalhar também para se desenvolver. 

2. Qual o maior problema da USP?

Acho que é a falta de transparência na administração. Poderia ter mais participação dos alunos nas decisões. Os estudantes não têm voz. 

3. Você é a favor ou não de cotas na USP e por quê?

Estudei em escola particular, mas sou a favor das cotas. Não acredito na meritocracia. É muito evidente que quem estudou em escola pública tem uma perda histórica que precisa ser recuperada. 

4. Qual deve ser a maior preocupação do novo reitor? 

Melhorar a transparência e consolidar o sistema de cotas. Elas foram aprovadas e ainda estão começando, mas precisam funcionar bem , os alunos precisam ter apoio.

5. Como você vê o futuro da USP?

Acho que a USP está em declínio e vai depender muito do próximo reitor. Um visão nova pode melhorar muito a situação. 

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FUTURO

Anna Luiza Smith, 18 anos, vestibulanda que concorre a uma vaga em arquitetura

1. O que a USP tem de melhor?

A USP tem todo o seu pretígio, tem um ensino sensacional, reputação no exterior, qualidade de professores. Por isso dá tanta vontade de entrar nela. 

2. Qual o maior problema da USP?

Como mulher, sinto insegurança. Tenho medo de assalto, assédio e todo tipo de ataques a mulheres que já aconteceram na universidade. 

3. Você é a favor ou não de cotas na USP e por quê?

Sou a favor porque sou aluna de escola pública e, agora no cursinho, percebo quanto a gente perde a vida inteira.

4. Qual deve ser a maior preocupação do novo reitor? 

Inclusão. As cotas vão ajudar, mas tem muita gente excluída da USP ainda. A USP é algo muito distante para a maioria dos jovens. 

5. Como você vê o futuro da USP?

Estou otimista. Eu veja a USP mais solidária, mais inclusiva. Acho que a nova geração de alunos vai mudar a USP. 

 

 

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