Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

‘É possível ter mais de uma porta de entrada’

Reitor fala em repensar a Fuvest como acesso único e sinaliza para reforma de currículos

Paulo Saldaña e Roberto Godoy, O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2014 | 03h00

O médico e professor Marco Antonio Zago, de 66 anos, assume a USP tendo pela frente desafios já conhecidos, como a pressão para aumentar a inclusão e a melhoria da relação com as alas mais combativas do movimento estudantil. Zago promete investir no diálogo e considera importante repensar os modos de acesso à universidade. "É possível ter mais de uma porta de entrada", disse ele, em entrevista ao Estado. O 26.º reitor inicia o mandato também com demandas urgentes, como a interdição da USP Leste e o comprometimento de praticamente todo o orçamento de R$ 4 bilhões com pessoal.

 

Com será este ano de aniversário?

Será uma honra comemorar os 80 anos de uma instituição que deriva de um projeto estratégico e político muito bem sucedido. Ao longo do ano, haverá eventos para comemorar a data.

 

Quais os principais desafios?

Primeiro, é reestabelecer o convívio, com respeito à diversidade de ideias. Em segundo lugar, valorizar os nossos cursos de graduação. E, depois, fazer uma gestão financeira em um momento em que temos dificuldades no que diz respeito às finanças.

 

Haverá reforma de currículos?

Espero que a determinação da nova gestão, de que a graduação precisa ser tratada de forma especial, possa promover uma revisão ampla dos currículos e estruturas do cursos. Claro que isso terá de ser feito em cada um dos institutos e faculdades. Mas cabe a nós fornecer os instrumentos para que isso ocorra, a começar com a flexibilização da legislação. Hoje, uma mudança às vezes demora dois anos. Precisamos descentralizar isso.

 

A USP estabeleceu uma meta para que, até 2018, haja 50% de alunos de escola pública, com respeitos a critérios raciais. Como o senhor encara esse compromisso? É factível?

A meta é correta, é bom que a universidade tenha definido. Assim manifesta que, além da sua missão de criar conhecimento e formar profissionais competentes, também existe a missão de modificar a sociedade. A meta é factível, mas não sei se será alcançada apenas com as medidas já tomadas (de bonificação no vestibular). Se percebermos que o ritmo de inclusão está muito lento, teremos de ampliar as estratégias. Poderemos ter outras estratégias, sem abandonar a meta. O acesso à universidade precisa ser revisto.

 

A USP deve repensar a Fuvest como acesso único à graduação?

A universidade precisa pensar nisso. Será que essa é a única maneira de selecionar talentos? Acho que é possível ter mais de uma porta de entrada.

 

Quais seriam?

Temos muito a pensar, mas é uma coisa que tem de vir da universidade.

 

Há gente pensando sobre isso?

Certamente. A USP, ao contrário do que se pensa, é muito progressista.

 

Nesse momento em que o País revê a própria história, como a USP pode colaborar com a Comissão da Verdade e com o resgate da história recente?

A universidade contribui com a comissão. A USP ainda criou sua própria comissão, com pessoas muito respeitadas. A comissão nacional e a da USP se preocupam com injustiças, nomes que foram prejudicados, e fazem um tipo de reparação. Mas a própria universidade foi objeto de muita pressão, muita injustiça como instituição, ao mesmo tempo em que foi foco de resistência e local onde ocorreram atos dos quais não podemos nos orgulhar. Acho que reescrever a história seria importante para resgatar a posição e o papel da universidade e das pessoas naquele período.

 

A USP é a melhor universidade do Brasil em pesquisa, mas há avaliações de que ela deve fazer mais e se aproximar das melhores do mundo. É realista ambicionar estar entre as 10 melhores?

Depende da escala que usamos para apontar os melhores. Pensando nos atuais sistemas de rankings, a USP provavelmente nunca será umas das dez melhores. Porque as instituições no topo são de tamanho médio para pequeno, com grandes orçamentos, focadas na pesquisa. As 12 mais importantes do mundo têm, em média, 17 mil alunos. Nós temos 90 mil. É importante olhar para os rankings, mas não podemos ser escravos deles.

 

Como melhorar o impacto dessas pesquisas no mundo?

Aqui estamos falando de medida de impacto de trabalho da área de ciências, deixando de lado humanidades, artes, áreas em que a USP também tem expressão muito grande e não se mede nesses parâmetros. Na ciência, o elemento mais importante é contratar bem os novos docentes. Se um docente pesquisador for bom, vai ficar 30 anos. Mas, se for ruim, também vai ficar 30 anos.

 

Como o senhor vai tocar o diálogo com o movimento estudantil?

Temos de dialogar com todos, desde que haja respeito e não violência. É certo que o peso das decisões tem de refletir o volume de pessoas envolvidas. Grupos minoritários têm de ser ouvidos, mas não devemos entender que posições mais extremistas refletem a média da comunidade. Quando pequenos grupos assumem posições de impor seus pensamentos, isso lembra a ditadura.

 

A maior expansão da USP foi com a inauguração do câmpus Leste, interditado por problemas ambientais. O senhor vislumbra a solução?

Não há dúvida de que poderemos resolver os problemas. Temos um prazo muito curto e temos de respeitar as exigências da administração pública, fazer licitação. Não temos os privilégios de quem está construindo campo de futebol, porque conta com o regime especial de contratação da Copa. Mas o restante da USP Leste é o mais importante, que é dar à unidade um importante papel dentro da USP, fazer com que ela tenha visibilidade.

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