Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Doutorado: para chegar ao mais alto grau acadêmico

Antes basicamente restrita a profissionais que pretendiam seguir carreira em universidades, formação agora ganha espaço nas empresas

Cristiane Marangon, Especial para o Estado

08 Dezembro 2015 | 03h00

Melhor remuneração, mais conhecimento, satisfação pessoal. O que motiva alguém a procurar um curso de doutorado? Considerado o maior grau acadêmico no qual um estudante pode chegar, essa etapa é conhecida no Brasil como a última da pós-graduação stricto sensu. “O aluno, já familiarizado com as técnicas e os métodos da pesquisa científica, nesse estágio, tem como desafio propor e desenvolver um projeto de pesquisa teórica que contribua de maneira relevante com o seu campo de estudo”, explica Edmilson Alves de Moraes, coordenador da pós-graduação stricto sensu em Administração da FEI, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. 

Se antes os doutores estavam confinados à vida acadêmica, hoje eles ganham espaço em grandes empresas, que valorizam esse tipo de formação. “Entende-se que o doutorado forma profissionais mais críticos e questionadores que não se conformam com a maneira tradicional de se atuar, mas buscam inovar nas suas decisões”, analisa Moraes. “Tudo isso eleva a possibilidade de evoluir na carreira.”

O engenheiro Paulo Cesar Calabria, de 58 anos, gerente de programas e projetos de serviços de tecnologia da informação, enxergou na sua área de atuação a necessidade de atualização. Por isso, procurou o doutorado voltado para Administração de Empresas com ênfase em inovação e gestão de Ciência e Tecnologia. Formado há um ano, ele reconhece que o curso contribuiu com o desenvolvimento de seu pensamento crítico e analítico. “Tenho hoje um papel muito mais ativo na empresa, com maior conhecimento e capacidade de resolução de problemas.” 

Para Larissa Meiglin, supervisora de Assessoria de Carreira da Catho em São Paulo, o primeiro passo é definir se o viés do doutorado será mais teórico ou focado no mundo organizacional. “Para as empresas, ter um profissional com esse tipo de qualificação é importante. No entanto, seus estudos precisam estar alinhados com a realidade da corporação”, conta. “Essa clareza é fundamental, inclusive, na hora de escolher a universidade em que desenvolverá a tese, pois se a instituição não tiver o mesmo perfil, o estudante terá dificuldades com sua pesquisa.” 

Além do salário. O processo oferece inúmeros desafios. A professora Mercedes Canha Crescitelli, assessora da pró-reitoria de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), destaca o tempo de dedicação que um estudante de doutorado deve dispor. “O aluno quase não frequenta a sala de aula, pois há poucas disciplinas. No entanto, há muitas atividades programadas obrigatórias, como congressos e seminários”, diz. “É necessário dedicar de 20 a 30 horas por semana aos estudos, tudo no prazo de 48 meses (em geral).” 

Calabria reconhece a dificuldade que teve para conciliar a agenda de executivo em empresa multinacional, cheia de compromissos, com a demanda de tempo para dedicação aos estudos e ao trabalho de pesquisa da tese. No entanto, todo o esforço valeu a pena. “Assim que conclui o doutorado, senti que um novo profissional nascia, com várias possibilidades de atuação. Pretendo seguir meus estudos com um pós-doc no exterior.” 

Extensão de pesquisa. O pós-doc é o apelido do pós-doutorado. Não se trata de mais um curso e sim de uma extensão da pesquisa iniciada no doutorado. Aqui também cabe destacar outras possibilidades de cursar o doutorado: pleno no exterior e sanduíche. No primeiro, o estudante faz o curso completo no exterior (máximo de quatro anos) e, no doutorado sanduíche, ele já está matriculado em um curso no Brasil, mas cursa um período (geralmente, de 12 meses) em uma universidade fora do país. Nesses casos, a universidade brasileira considera os créditos cursados fora e o estudante, ao retornar, se titula defendendo sua tese. 

A coach Lella Sá, especialista em trabalho com significado, de São Paulo, defende que a decisão de cursar um doutorado seja um meio e não um fim. “É fundamental que o estudante entenda esse momento como motivo de satisfação pessoal e felicidade”, afirma. “Quando a motivação é de outra natureza, como alcançar estabilidade financeira ou agradar a família, há grandes riscos de se estagnar e isso gerar frustração profissional.” 

Lella também recomenda que o candidato tenha clareza sobre como ele irá transformar em sabedoria o conhecimento que adquirir. Essa é justamente a expectativa de Meiriene Cavalcante Barbosa, consultora do Ministério da Educação, na secretaria de educação continuada, alfabetização, diversidade e inclusão (Secadi). Ainda aguardando o resultado de seu processo seletivo feito na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ela espera que a pesquisa que pretende desenvolver no doutorado possa contribuir com o aperfeiçoamento de políticas públicas no que diz respeito ao atendimento educacional especializado. “Acredito no ganho social que meus estudos acadêmicos podem oferecer.”

Capes. No Brasil, do total de programas de pós-graduação stricto sensu oferecidos por instituições de ensino superior pública e privada (4.030), quase a metade (2.023) é de cursos de mestrado e doutorado e 71 são destinados exclusivamente ao doutorado.

Todos eles passam por uma avaliação rigorosa feita pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que atribui notas que vão de 1 a 7 - se o curso receber 1 ou 2, é reprovado. Dessa maneira, antes de um estudante fechar a escolha de um curso de doutorado, vale acessar o site da Capes, na parte de cursos recomendados (nota 3 em diante) e checar se

o de interesse está autorizado a funcionar no Brasil. A página para consulta é www.capes.gov.br/cursos-

recomendados.

Os que possuem notas 6 e 7 são considerados de nível de excelência. A avaliação é feita a cada quatro anos, sendo que última avaliação ocorreu em 2013. A Capes também ajuda com cotas de bolsas de estudo para todos os cursos recomendados. As bolsas são distribuídas por meio de seleção do próprio programa de pós-graduação. Ao ser selecionado, o programa envia os dados do estudante a Capes, que faz o pagamento direto na conta do bolsista. Cabe ressaltar que o número de bolsas das cotas varia de acordo com a nota do curso.

Doutorado direto. Percorrer a trajetória tradicional, que resulta na obtenção do título de doutor, leva quase uma década: de quatro a cinco anos de graduação, cerca de dois anos de mestrado e mais quatro anos de doutorado. Mas é possível adiantar o processo com o doutorado direto.

O estudante sai da graduação para o doutorado. “Basta que ele tenha maturidade e a certeza sobre seguir a carreira acadêmica”, afirma o Adenilso Simão, coordenador do programa de pós-graduação em Ciências de Computação e Matemática Computacional, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos. 

Vale destacar que o aluno que faz essa opção abre mão de ter o título de mestre após dois ou três anos, o que pode ser interessante para prestar concursos públicos. O doutorado direto demora de quatro a cinco anos e só após a sua conclusão será possível participar de processos seletivos na academia. 

Os aspirantes a esse formato, em geral, fazem uma boa iniciação científica. É o caso de Tiago Nazaré, de 23 anos, que cursou Ciências de Computação no ICMC e fez duas iniciações científicas durante a graduação. Além disso, participou de uma iniciativa que possibilita aos graduandos que estão no último ano do curso assistir às aulas de pós-graduação. Essa opção contribui para que eles avancem mais rápido.

Quando Tiago se formou, já tinha cursado praticamente todas as disciplinas exigidas no mestrado. Seu orientador recomendou, então, que o estudante tentasse ingressar no mestrado e também no doutorado direto. Deu certo: foi aprovado no doutorado direto e recomenda a escolha, especialmente para aqueles que já conhecem um pouco da área de pesquisa sobre a qual pretendem se debruçar.

SERVIÇO

Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP - São Carlos

Curso: pós-graduação em Computação e Matemática Computacional (Doutorado Direto)

Duração: Conclusão no prazo máximo de 68 meses

Vagas: 10

Inscrição: Setembro de 2016

Seleção: Análise da formação acadêmica, prova classificatória de conhecimentos gerais em Ciências de Computação, Matemática Computacional ou Estatística, aplicada ou indicada pelo Programa, análise de Curriculum Lattes, análise de formulários de recomendação, encaminhamento e justificativa do potencial orientador e adequação do perfil acadêmico do candidato à linha de pesquisa e ao projeto

Custo: Gratuito

Início das aulas: Março de 2017

Site: icmc.usp.br

Centro Universitário FEI

Curso: Doutorado em Administração

Duração: Mínimo de dois anos e máximo de quatro anos

Vagas: 10 por ano

Inscrição: Até 29/1/2016

Seleção: Análise da documentação, análise do resultado do Teste Anpad, análise lógica de artigo (fornecido ao candidato para a atividade ser realizada na FEI) e entrevista

Custo: R$ 1.625

Início das aulas: Março de 2016

Site: fei.edu.br

Universidade Estácio de Sá

Curso: pós-graduação Stricto Sensu em Direito

Duração: 48 meses

Vagas: Em média, são 10

Inscrição: Até 22/1/2016

Seleção: Prova escrita, prova de idioma e entrevista

Custo: 36 parcelas de R$ 2700,38 (valor para o primeiro semestre de 2016)

Início das aulas: Março e agosto

Site: portal.estacio.br

PUC-SP

Curso: Doutorado em Língua Portuguesa

Duração: Mínimo de três anos e máximo de quatro anos

Vagas: 12 (no primeiro semestre de 2016)

Inscrição: Aberta apenas para o segundo semestre de 2016 (até abril de 2016)

Seleção: Exame de Língua Portuguesa (com base em bibliografia indicada), análise da documentação  apresentada, exame de proficiência em duas línguas estrangeiras e entrevista (conforme edital do primeiro semestre de 2016)

Custo: Não divulgado

Início das aulas: Fevereiro

Site: pucsp.br 

Curso: Doutorado em Direito

Duração: Mínimo de três anos e máximo de quatro anos

Vagas: 40 (no primeiro semestre de 2016)

Inscrição: Já fechada para o primeiro semestre de 2016

Seleção: Exame de proficiência em duas línguas estrangeiras, prova de conhecimentos jurídicos,  entrevista e análise da documentação (conforme edital do primeiro semestre de 2016)

Custo: Não divulgado

Início das aulas: Fevereiro

Site: pucsp.br

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