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Dom Odilo defende veto a Foucault na PUC e nega censura

Cardeal reage a crítica e afirma que o pensador francês não negaria ao Conselho Superior o direito de ter um pensamento próprio

Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo

30 Junho 2015 | 03h00

SÃO PAULO - Dois meses após recusar a criação de uma cátedra para o filósofo Michel Foucault, o cardeal d. Odilo Scherer, grão-chanceler da Pontifícia Universidade Católica (PUC), disse, em carta aberta publicada nesta segunda-feira, 29, que algumas decisões precisam ser tomadas, "mesmo quando não agradam a todos".

"Reconheço e sei bem que é próprio da universidade colocar tudo em discussão, no afã de encontrar e expressar a verdade. Mas quando se trata de tomar decisões, alguém precisa tomá-las, mesmo quando elas não agradam a todos.  Assim acontece na PUC", disse Scherer em resposta a críticas recebidas da filósofa Marilena Chauí, que, em carta aberta, disse que a decisão de rejeitar a cátedra seria um "gesto de censura e intolerância".

A cátedra universitária é uma instância acadêmica destinada a fomentar o debate em torno de algum pensador ou teórico e para a preservação e atualização de seu trabalho. Foucault é conhecido por suas críticas às instituições sociais, entre elas a Igreja Católica. Além disso, era homossexual e foi uma das primeiras figuras públicas francesas a morrer por complicações da aids. A cátedra foi proposta à universidade em 2011, quando a PUC recebeu uma doação de áudios de aulas do filósofo no Collège de France, entre 1971 e 1984.

Em abril, o Conselho Superior da Fundação São Paulo, mantenedora da universidade recusou a cátedra motivada pelo fato de as ideias de Foucault não estarem em consonância com os princípios católicos, segundo representantes da Associação de Professores da PUC (Apropuc). O Conselho Superior é formado pela reitora Ana Cintra, cinco bispos auxiliares da Arquidiocese de São Paulo e d. Odilo Scherer. Até esta segunda, ninguém do conselho havia se pronunciado sobre a decisão.

"Se é verdade que ele (Foucault) foi um baluarte na luta contra 'verdades cristalizadas', por certo não se importaria se alguém discordasse também dele.  Será que ele negaria aos responsáveis pela decisão da Mantenedora da PUC-SP o direito de terem um pensamento próprio e de serem coerentes, em suas decisões, com as convicções que esposam? Provavelmente não. Mesmo não concordando com eles", diz ainda a carta de Scherer. 

O cardeal disse ainda que a decisão "quase unânime" do Conselho Superior não demonstra qualquer "fato de censura ou intolerância contra atividades de pesquiso e ensino". Além disso, diz que a decisão não proibiu a cátedra, mas indeferiu o pedido de sua criação. 

O Conselho Universitário, que tem representantes dos professores, alunos e funcionários, entrou com um recurso contra a decisão do Conselho Superior. Na última quarta-feira, 24, Scherer publicou uma carta em que diz ainda avaliar o recurso.

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