Marcos Santos/Agência USP
Marcos Santos/Agência USP

Do lado de fora, muitos elogios e algumas cobranças

Formadora de quadros, criadora de uma visão crítica do País, a USP sofre com burocracia e precisa se modernizar, dizem os não uspianos

Gabriel Manzano, O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2014 | 03h00

Avaliada fora de seus longos muros e grades verdes, a Universidade de São Paulo chega aos 80 anos com excelentes notas. Poderiam ser ainda melhores, admite a maioria dos consultados, se o País tivesse uma educação de base adequada. E ela estaria mais perto do topo nos rankings mundiais se tivesse, principalmente nas Humanas, uma produção bilíngue. Seu retrato de octogenária, mostrado a um amplo universo não uspiano, despertou expressões como "um enorme sucesso", "destacado centro de referência", "primeira janela brasileira para o mundo" e até mesmo um "joia da coroa".

Quase todos dão um desconto ao examinar os problemas da instituição. "O que são 80 anos, perto dos quase mil anos de algumas europeias?", compara o ex-ministro da Educação e hoje senador Cristovam Buarque. "Ela se saiu bem, mas imagine o que não faria a mais se o País tivesse uma educação de base eficiente", avalia a presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena Nader, biomédica da Unifesp. Segundo ela, a USP tem feito "um esforço gigantesco" para se modernizar, para integrar no mesmo espírito universitário unidades autônomas como Direito, Medicina e Politécnica.

A "investida europeia" já nos anos 30 é tida como um dos grandes lances de sua história. "Lá atrás, a universidade já entendeu que o essencial era gerar conhecimento, não só transmiti-lo, e foram buscar gente de peso", pondera a presidente da SBPC. Esses professores "oxigenaram o debate e ajudaram a formar os fundadores da Sociologia no País", reconhece Maria Celina d’Araújo, da PUC-Rio. Talvez por isso, a instituição queimou etapas rapidamente. "Nesses breves 80 anos a USP desbancou a multissecular Universidade Autônoma do México", destaca o historiador mineiro-carioca José Murilo de Carvalho. Isso lhe permitiu, diz ele, "desenvolver uma narrativa do Brasil alternativa à dos centros do poder".

Legado. Outro carioca, Luiz Werneck Vianna, homenageia a instituição como "um lugar de resistência ao autoritarismo, no qual os mestres, sem alarde nem partidarismo, repassavam o legado cultural" às novas gerações. Vianna inclui na lista de qualidades a ajuda e proteção que a USP deu a tanta gente - no caso dele, "mal saído de uma temporada nas cadeias da ditadura", pelas mãos de Carlos Estevam Martins e Francisco Weffort. Dos EUA, o cientista político Scott Mainwaring, da Universidade Notre-Dame (de Indiana), revela: "Pessoalmente, me beneficiei muito na USP do contato com seus mestres". Autor de livros sobre a democracia no continente e de palestras no Brasil, Mainwaring afirma que "fora das democracias industrializadas a ciência política da USP é uma das principais do planeta".

A Faculdade de Direito, no Largo de São Francisco, é reverenciada por todo o mundo jurídico. "Como as áreas de Engenharia ou Medicina, ela atravessou décadas fornecendo quadros superiores" ao País, diz o jurista Carlos Ari Sundfeld, formado na PUC paulista e fundador da Direito GV. Em brevíssimos números: de lá saíram 12 presidentes da República e 53 ministros do STF. "Esse oficialismo não a impediu de ser um centro da oposição", pondera Sundfeld. E hoje ela precisa "encarar o desafio de aumentar a qualidade e ter um impacto real no mercado de ideias e formação profissional". Mais compreensivo, o presidente da Ordem dos Advogados paulista, Marcos Costa, diz que ela manteve o nível "apesar da massificação do ensino jurídico no Brasil".

Exatas. No universo das Exatas a instituição também tirou boas notas. Ruy Quadros, titular de Política Científica nas Geociências da Unicamp, saúda suas contribuições "tanto em Exatas e Engenharias como em Biomédicas e Humanas". Ele destaca a Faculdade de Economia e Administração e a Engenharia de Produção da Politécnica, "onde pioneiros como Eduardo Vasconcelos e Afonso Correa Fleury formaram gerações de pesquisadores".

A USP é "uma das poucas experiências bem-sucedidas" no ensino superior do País, diz o médico Rubens Belfort Mattos Jr., da Unifesp, "mas ela teria mais êxito se as instituições públicas não fossem tão engessadas e engessantes". A crítica vai para entidades como Anvisa e Conselho Nacional de Ética em Pesquisa, o Conep, por ele tidos como "centralizadores e burocráticos".

Mas a universidade não foi poupada de cobranças. Ela "perdeu seu charme inovador há algumas décadas, e não foi por causa da ditadura", diz Maria Celina d’Araújo. Cristovam Buarque denuncia o partidarismo que a invadiu e a afasta dos meios empresariais. O sistema de estabilidade dos funcionários dificulta cobranças de qualidade, diz Rubens Mattos Jr. Na mesma toada, o cientista político mineiro Fábio Wanderley Reis adverte: "A recente perda de posições em rankings respeitáveis não permite dormir sobre os louros".

Mais conteúdo sobre:
USP universidade São Paulo 80 anos

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.