Diversidade curricular cria acolhida

Trabalhar projetos que expõem várias culturas estabelece o clima de diálogo

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

19 Março 2017 | 05h00

Em comum entre as escolas da rede pública de São Paulo que fazem um bom trabalho de acolhida está a valorização das diferenças culturais – o entendimento de que a condição do imigrante, longe de ser defeito, pode enriquecer a vida escolar, dos alunos aos professores e funcionários.

“Deve-se criar um clima de diálogo entre os estudantes de diferentes nacionalidades, para que um não se sinta estrangeiro diante do outro”, diz a educadora Adriana de Carvalho, ex-coordenadora do núcleo étnico-racial da Secretaria Municipal de Educação. Ela pesquisa boas práticas de integração na rede para seu doutorado e já concluiu que escolas com histórico de combate ao racismo ou homofobia, por exemplo, têm meio caminho andado para acolher o imigrante. “Quando já há uma cultura de respeito à diversidade, basta incluir nos projetos desenvolvidos o eixo da migração e do combate à xenofobia, e os alunos entendem sem problemas.”

Um bom exemplo da rede é o da Escola Municipal João Domingues Sampaio, na Vila Maria, zona norte de São Paulo. Dos 750 estudantes, 135 (18% do total) são imigrantes, a maioria da Bolívia – de onde vêm a maior parte dos alunos estrangeiros nas redes municipal e estadual. A escola desenvolve dois projetos de contraturno que tratam de imigração e estimula professores a falar do assunto nas aulas. “No ano passado, todas as séries tiveram como trabalho final de alguma disciplina a temática do refúgio. Todas as turmas falarem disso cria uma cultura geral, institucional, de respeito e combate à xenofobia”, diz a coordenadora pedagógica, Elisângela Janoni.

Um dos projetos da escola prevê leituras de textos em português e em espanhol, pelos alunos, em todas as salas. “Ajuda a acostumar o ouvido ao idioma que se escuta no pátio, nas panelinhas dos intervalos. A ideia é ajudar a romper os grupinhos”, explica a professora de geografia Maria Cristina Novaes, responsável pelos projetos. O outro programa é o Diversidades, cujo ponto central é passar adiante o saber que os alunos trazem de casa de forma divertida: música, culinária (a “pedagogia do estômago”), cinema e teatro, por meio dos diferentes costumes.

Participar do Diversidades – projeto apresentado em cursos de formação como exemplo para replicação na rede – estimulou a estudante boliviana Karen Cruz Mercado, de 12 anos, a querer mergulhar em sua própria cultura e dividir com os colegas. “Uma das atividades do projeto era visitar a aldeia de índios lá em Parelheiros (extremo sul de São Paulo). Foi tão legal conhecer a cultura deles, e o jeito que eles apresentaram, que eu quis fazer o mesmo com a minha”, explica a aluna. Por conta própria, ela preparou uma apresentação sobre as cidades de seus pais, La Paz e Sucre, e bateu de sala em sala, explicando suas origens.

A dentista boliviana Verônica Yujra, criadora do Si, Yo Puedo, coletivo que promove educação e orientação profissional a imigrantes, ressalta a importância de falar dos direitos da população migrante desde a infância. “Falar de migração e refúgio é falar de humanidade. No ambiente em que se chama, pejorativamente, um estudante de ‘Bolívia’, chama-se um outro de ‘Bahia’, ou de ‘Paraíba’. Tratar disso é combater os preconceitos de maneira geral”, diz a ativista, que visitou a escola na Vila Maria no ano passado.

O colégio também promove encontros entre professores e coordenadores pedagógicos sobre como lidar com a leva de imigrantes. Trocas como essas são importantes em um momento de estresse na rede por causa do aumento no número desses alunos, afirma a psicóloga Sylvia Dantas, do Instituto de Estudos Avançados da USP. “É preciso levar em conta que o momento é de angústia também para as instituições e professores, que têm de adquirir conhecimento sobre os impactos que o deslocamento gera, os estranhamentos entre os grupos, as dificuldades linguísticas. As conversas entre os profissionais são essenciais, em um momento que pede aprendizado”, diz. “Quando o professor troca o olhar de desconforto pelo de compreensão, a criança percebe, pois ela acaba de se mudar, está muito sensível à forma como olham para ela. E então o olhar do professor passa a acalmá-la. O professor também se acalma com isso, e o clima emocional se torna outro. Na sala de aula toda, passa a ser de acolhida.”

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