Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Debate e diversos pontos em aberto

Após a aprovação do novo ensino médio, várias questões ainda precisam ser definidas; encontro discutiu os desafios da reforma

Tulio Kruse, Especial para o Estado

13 Setembro 2017 | 05h00

A reforma não está pronta. Agora, após a aprovação, muitos pontos têm de ser resolvidos para a implementação ser completa. O assunto é complexo e desperta muito interesse, tanto que lotou o auditório do Fórum Estadão - O Novo Ensino Médio, evento que reuniu representantes do Ministério da Educação (MEC), do Conselho Nacional de Educação (CNE) e especialistas. O primeiro painel, aberto pela secretária executiva do MEC, Maria Helena Guimarães de Castro, apresentou as principais mudanças. Participaram Priscila Cruz, presidente do Movimento Todos Pela Educação; Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco; e Ilona Becskeházy, pesquisadora e consultora de políticas educacionais. No segundo painel, foi debatida a implementação da reforma, com Rossieli Soares da Silva, secretário de Educação Básica do MEC; Ana Maria Diniz, presidente do Instituto Península; Eduardo Deschamps, secretário de Estado da Educação de Santa Catarina e presidente do CNE; e Mauro Salles Aguiar, presidente da Associação Brasileira de Escolas Particulares.

Mudança no Enem e no professor

Vestibulares, avaliações nacionais, formação de professores e o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) serão afetados pelas novas regras do ensino básico. Sobre os exames, durante o Fórum Estadão - O Novo Ensino Médio, o MEC esclareceu que só os conteúdos da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) da etapa, que serão obrigatórios para todos os alunos, poderão ser exigidos no Enem após a reforma. Está em estudo um modelo com provas específicas para itinerários formativos no Enem, em caráter opcional.

O formato de avaliação para o ensino superior é uma das principais dúvidas dos alunos. “Como ficaria a competição entre uma pessoa que estudou no ensino médio antes da reforma e está no cursinho e outra que viveu a transição?”, pergunta a aluna Esther Park, do 9.º ano do Colégio Rio Branco, na região central de São Paulo. Perguntas como essa ainda não têm resposta, pois a base curricular da etapa precisa ser aprovada antes.

Mas vestibulares particulares já antecipam mudanças, como lembrou o presidente da Associação Brasileira de Escolas Particulares, Mauro Aguiar, durante o evento no Estado. “Algumas seleções já avaliam as competências socioemocionais, e não só o conteúdo. É uma grande evolução.”

A formação de professores deve ser outro foco de mudança. Além de alterar a base curricular para licenciaturas, o Ministério da Educação (MEC) quer estimular a busca por uma nova pedagogia que o modelo vai exigir. O objetivo é fomentar pesquisas em Educação que ajudem a criar soluções para a área no Brasil.

Parcerias entre escolas de cidades vizinhas

Mais da metade das cidades brasileiras tem só uma escola pública e deve recorrer a cooperações regionais para implementar a reforma do ensino médio. Para ter sucesso, o plano deve ter investimento em transporte escolar, uso de tecnologias e parcerias entre escolas de cidades próximas, segundo representantes do Ministério da Educação (MEC) e de Secretarias Estaduais de Educação. São 2.967 cidades nessa situação, ou 53% do total.

Após a reforma, as escolas de ensino médio só terão a obrigação de criar um dos itinerários formativos, que são a parte flexível do currículo. Os arranjos locais devem servir para oferecer uma variedade maior de itinerários, segundo o governo. Cidades com apenas uma escola especializada em Exatas, por exemplo, poderiam firmar convênios para enviar alunos a unidades especializadas em Ciências Humanas.

“No ensino médio, não dá para pensar na região apenas como municipal”, diz o presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE) e secretário estadual de Educação em Santa Catarina, Eduardo Deschamps. “É preciso que o planejamento seja regional.”

Discutida no Fórum Estadão - O Novo Ensino Médio, essa necessidade de deslocamento é um problema até para estudantes de grandes cidades. É o caso da aluna Camila Harumi, de 16 anos, que acorda antes das 6 horas e leva mais de uma hora até a Escola Estadual Antônio Alves Cruz, na zona oeste de São Paulo. Ela sai da escola após as 16 horas e, na volta, encara ao menos uma hora e meia no transporte público. “É muito desgastante. Eu fico cansada lá dentro, fora de lá. Fico cansada o dia inteiro”, conta Camila.

Infelizmente a solução não é fácil, segundo os especialistas. “Interessa que (a educação) seja para todos, com alta qualidade, e fazer isso não será trivial”, disse o presidente do Instituto Unibanco, Ricardo Henriques, durante o evento no jornal. Para ele, a implementação da reforma será fundamental para não aumentar desigualdades. “A inovação é que você pode fazer um arranjo em que a escola oferece a parte que tem a ver com os conteúdos tradicionais, e a outra parte será oferecida por outra instituição.”

 

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