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Amanda Perobelli/Estadão

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Cursos de pós-graduação levam criatividade à Engenharia

Em cada área de atuação, profissionais têm o desafio de fazer diferente e buscar soluções inovadoras

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Júlia Marques

28 Março 2017 | 03h00

Do canteiro de obras ao hospital. Os espaços que requisitam engenheiros são diversos. Em todas as áreas, porém, o desafio é o mesmo: fazer diferente. Nos cursos de pós-graduação, profissionais descobrem o valor de práticas inovadoras e aprendem a propor soluções criativas em meio à recessão.

“Um profissional que passa cinco anos sem estudar fica obsoleto na maioria das áreas. Temos de formar pessoas que vão empreender, o que significa não só abrir empresas, mas melhorar e buscar soluções”, defende Vanderli de Oliveira, presidente da Associação Brasileira de Educação em Engenharia (Abenge).

Para especialistas, formações em Empreendedorismo e Inovação preenchem a lacuna de graduações ainda tradicionais. “Nossas escolas formam pessoas para buscar emprego”, diz Oliveira. Mesmo profissionais em cargos de liderança não abrem mão de especializações que ofereçam ferramentas mais atuais, como a análise de dados na web. Com o crescimento das cidades e a necessidade de adequação a exigências legais, áreas de mobilidade, saneamento básico, resíduos sólidos e energias renováveis constituem outros filões de trabalho para o engenheiro.

A escolha de uma pós pelo que dita o mercado, no entanto, deve ser refletida, segundo especialistas. É interessante que o profissional se pergunte que competências quer desenvolver com a especialização e tome cuidado com tendências passageiras. “O mercado azeda mais rápido do que leite. Uma especialização leva dois anos. O que vai acontecer em dois anos? Não sei”, pondera Mario Sergio Salerno, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).

O Estado selecionou áreas promissoras, segundo especialistas, para engenheiros. Os cursos de pós-graduação lato sensu - alguns com estreia de turmas neste ano - têm foco na prática profissional e recebem alunos de várias áreas.

DE JALECO, O PLANEJAMENTO ATÉ DE CIRURGIAS

Quando se formou em Engenharia de Produção, Alexsandra Figueredo, de 40 anos, não poderia imaginar que voltaria à sala de aula para estudar Anatomia e Fisiologia. Após se especializar em Engenharia Clínica, a profissional passou a coordenar toda a parte de equipamentos dentro de um hospital no ABC paulista e participa até do planejamento de cirurgias.

“Eu sabia o que os equipamentos faziam, mas não para que serviam e a importância de certos componentes.” Já no primeiro mês de curso no Hospital Israelita Albert Einstein, ela conheceu as normas e requisitos de segurança e criou um manual de gestão de tecnologias para o hospital onde trabalha. “Percebi que eu não tinha condições de assumir o que assumo hoje sem conhecimento.”

Formações em Engenharia Clínica e Hospitalar abrem as portas para um campo de trabalho promissor e carente de especialistas. “São aproximadamente 8 mil hospitais no Brasil e não temos talvez nem mil profissionais na área. O campo da Saúde cresce continuamente e não falta emprego. Recebemos alunos do País todo”, conta o coordenador da pós no Einstein, Antonio Gibertoni.

Para evitar desperdício de recursos, os alunos aprendem sobre manutenção preventiva. “Um equipamento de raio X adequadamente especificado atende a população por no mínimo 10, 15 anos”, afirma Gibertoni. Também absorvem conhecimentos para conseguir conversar com a equipe médica. “Já impedi a continuidade de um procedimento cirúrgico porque sabia que o equipamento não era correto. Com o curso, o médico passa a confiar mais em você”, diz Alexsandra.

Para o professor Reinaldo Lopes, coordenador do curso de Engenharia e Manutenção Hospitalar no Centro Universitário FEI, a especialização dá subsídios para o engenheiro conhecer as especificidades de gerenciar um hospital. “Temos aulas sobre tratamento de efluentes, destinação do lixo e gases medicinais, além do cuidado com infecção hospitalar.” 

INOVAR EM BUSCA DE SOLUÇÕES E OPORTUNIDADES

Inovação e empreendedorismo também se aprende na escola. Em tempos de crise econômica, cursos de pós-graduação que ajudem os profissionais da Engenharia a buscar saídas criativas - dentro da empresa onde trabalham ou em um novo negócio - se fortalecem.

Com a economia desaquecida, pessoas que perderam seus postos de trabalho acabam se aventurando em novos negócios, sem bagagem de conhecimento, “no peito e na raça”, como define o professor Edson Coutinho, coordenador do curso de Empreendedorismo do Centro Universitário FEI.

Recém-lançada, a pós - que já tem engenheiros inscritos para este ano - discutirá temas como análise financeira de negócios e manutenção de clientes. “Vinte horas ainda são reservadas a experiências. Empreendedores vão contar em que pontos acertaram e erraram, para ser uma referência do que fazer e do que não fazer”, explica Coutinho.

Na Faculdade de Informática e Administração Paulista (Fiap), o MBA em Business Innovation, que também abre a primeira turma neste ano, promete um novo olhar sobre o tema. “O líder de inovação não pode apenas saber falar de tecnologia. Precisa saber como gerar novos negócios, como usar tecnologia na área cognitiva e criar redes de relacionamento dentro e fora da empresa”, explica Guilherme Pereira, coordenador da pós.

Com disciplinas como Design Thinking - em que se aprende o passo a passo para soluções inovadoras - e uma boa dose de conhecimentos sobre liderança criativa, Pereira espera que o profissional saia do curso entendendo o próprio papel na mudança de uma empresa. “Ele ganha todas as ferramentas que precisa para transformar um negócio. É quase um cinturão do Batman.”

Parte das aulas são visitas a centros de referência em inovação e o trabalho de conclusão de curso está longe de ser uma monografia. “Todos os alunos têm de fazer uma startup, seja para resolver problemas internos da empresa ou aproveitar o mercado fora.”

Estudantes interessados em ir um pouco mais longe ainda podem fazer uma extensão de cinco dias no Vale do Silício, nos Estados Unidos, ou em outros polos de inovação pelo mundo. 

NO CANTEIRO DE OBRAS, UMA VISÃO INTEGRADA

Em um país em desenvolvimento como o Brasil, o que não faltam são desafios de infraestrutura urbana. Seja na área de mobilidade, em drenagem ou em saneamento básico, o campo é vasto para o engenheiro. De acordo com especialistas, no entanto, poucos são os que conseguem conectar os problemas para propor soluções sistêmicas. 

“Especialista em cada item você encontra, mas as empresas procuram profissionais com visão mais integrada. A falta de integração pode levar até a custos maiores, como de retrabalho em obras”, defende Edson Melanda, coordenador do curso de Projeto e Gestão de Infraestrutura Urbana da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

A pós procura oferecer uma visão panorâmica, com disciplinas como Transporte Público Urbano, Uso e Ocupação do Solo e Drenagem de Águas Pluviais. Além do conhecimento mais tradicional, o curso leva inovação tecnológica para as aulas, como o uso de drones em obras de infraestrutura.

Para o engenheiro civil William Gomes, de 29 anos, que trabalha na fiscalização de obras dentro de Centros de Detenção Provisória (CDPs), a abrangência do curso na UFSCar o ajudou a compreender o espaço como um todo. “O CDP é um minibairro. Trabalho com várias disciplinas diferentes em uma obra. Tem de ter uma noção de tudo.”

Diversidade. Para contemplar a gama de desafios, até noções de Direito Urbanístico entram na grade do curso de Planejamento e Gestão de Cidades, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). “Conhecimentos básicos dessas questões são essenciais porque são os meios de mudar a dinâmica das cidades”, conta o coordenador Miguel Bucalem.

Os alunos analisam exemplos de cidades brasileiras e experiências no exterior e são estimulados a intercambiar conhecimentos. “As disciplinas se apoiam em trabalhos em grupo e os alunos devem buscar a diversidade na turma”, conta o coordenador da pós, que atrai engenheiros, arquitetos, advogados e já recebeu até um médico. 

MEIO AMBIENTE É PRÉ-REQUISITO

Conhecimentos sobre Meio Ambiente deixaram de ser acessórios para se tornarem pré-requisitos na formação dos engenheiros. Cursos de especialização em Gestão Ambiental e de Energia, por exemplo, atraem profissionais interessados em adequar processos às exigências da legislação e de uso racional dos recursos. “Hoje poder gerar energia usando o telhado do galpão de uma fábrica, por exemplo, é uma alternativa muito importante. Precisamos ter um profissional para atender à necessidade desse mercado”, explica o professor do Mackenzie Agostinho Celso Pascalicchio.

A instituição abre neste ano as primeiras turmas para a pós em Engenharia e Gestão de Energia, com disciplinas sobre fontes renováveis, políticas energéticas e eficiência. “O curso acompanha evoluções técnicas e alternativas renováveis na Europa e nos Estados Unidos. Avaliamos as fontes de geração e vamos até a comercialização de energia.” Para Pascalicchio, as ferramentas da especialização podem ajudar os alunos até a empreender e inovar. “É uma capacitação para formar um novo empresário, um empreendedor que pode analisar as tecnologias e escolher.”

Para Miguel Al Makul Junior, de 54 anos, conhecimentos sobre meio ambiente se tornaram oportunidade de negócio. O engenheiro civil, que presta serviço como autônomo, buscou se especializar com a pós-graduação em Gestão Ambiental no Senac. “Avaliação de passivos ambientais, a parte de água e esgoto e estudos para regularização me chamaram a atenção para o que eu poderia acrescentar ao meu cliente que solicitava um trabalho de Engenharia Civil.” No curso do Senac, os alunos fazem estudos de casos e visitas técnicas a instituições e empresas da área ambiental. 

DADOS PARA SE TORNAR UM LÍDER

No topo da hierarquia de empresas, não é raro encontrar engenheiros. A habilidade analítica, comum a estes profissionais, os coloca na frente para assumir postos gerenciais. Mas não é suficiente. Atrás de qualificação para exercer cargos de liderança, os engenheiros buscam formações com conhecimentos de economia e planejamento e já se aventuram na imensidão de dados disponíveis na web.

“No mundo das redes sociais, da internet das coisas, tudo gera dados. As empresas vão precisar de profissionais que façam a análise estratégica. O cientista de dados é capaz de fazer as perguntas corretas para extrair conclusões significativas”, explica Dirceu Matheus Junior, coordenador do curso de pós-graduação Big Data Analytics no Mackenzie. De acordo com ele, o curso capacita o estudante para transformar dados brutos em insights no trabalho.

Aplicação prática. Além de aulas teóricas, os alunos colocam a mão na massa e mesmo quem não é íntimo da tecnologia consegue acompanhar. Segundo o professor, as turmas reúnem profissionais de áreas diversas - além de engenheiros, o curso atrai estatísticos e especialistas em Tecnologia da Informação, por exemplo -, o que contribui para o intercâmbio de habilidades entre os estudantes.

Saber interpretar indicadores econômicos e liderar uma equipe também são habilidades importantes para aqueles que querem se dar bem em um posto de comando em uma companhia. No caso da engenheira química Natalia Laurenti, de 30 anos, lacunas na sua formação a fizeram buscar uma pós-graduação depois de assumir um cargo gerencial dentro de uma empresa automobilística.

“Uma área que eu queria preencher era a parte de Finanças e Investimentos. Outro ‘gap’ era Economia e Planejamento Estratégico”, conta Natalia, que está concluindo o MBA Executivo em Administração para Engenheiros no Instituto Mauá de Tecnologia. De acordo com Evandro Tenca, coordenador do curso, é comum que engenheiros sejam requisitados para funções de comando e liderança em empresas. “Mas ele precisa entender não só da parte técnica. O curso dá uma visão abrangente de Negócios.”

Para simular problemas reais, os estudantes participam ainda de um jogo em que são desafiados a escolher os melhores rumos de uma empresa. “Quebra paradigmas. Você sai da posição de colaborador para tomar decisão, se coloca no lugar do gestor”, conta a engenheira química. Os alunos também desenvolvem planos estratégicos de uma empresa real e podem sair do curso com projetos para aplicar nas organizações onde trabalham ou na abertura de novos negócios. 

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Camila Tardeli

28 Março 2017 | 03h00

“Comecei a pós em Big Data em outubro (de 2016, no Mackenzie). Já concluímos duas matérias no ano passado. É a minha segunda pós-graduação. Me formei em Engenharia de Produção e fiz uma pós em Gestão Empresarial. Hoje trabalho em um fundo de Previdência e Saúde.

Vejo grandes volumes de dados passarem em nossas mãos, temos mais de 46 mil clientes. Atuo na gestão de comunicação e otimização de processos. A demanda em Saúde é muito grande, e o custo disso é muito alto. Logo, fazer uma série de cruzamentos e análise de dados é bem interessante. Estou me aventurando e conhecendo essa parte de Big Data. Hoje, com a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), que prevê hospitais e clínicas especializadas em macrorregiões e microrregiões, a gente conseguiria fazer a leitura dessas bases com mais efetividade e proporcionar para os clientes um bom serviço com o mínimo custo. Eu não deixaria dez cardiologistas em uma região e um só pediatra, por exemplo. Dependendo da análise da demanda versus o que temos para oferecer, conseguiríamos fazer esse tipo de melhoria.

Por ler sobre novos interesses de mercado, aliei alguma coisa de que gostasse muito, que é tecnologia, com algo que pudesse aproveitar na minha vida profissional. Antigamente a gente usava muito pouco das ferramentas de gestão. Há um tempo atrás, não existiam engenheiros em banco ou empresa do mercado financeiro.

Desde o início da faculdade, é o que comentam: nossa missão como engenheiro é achar um caminho menos crítico. Um caminho menos crítico de eficiência operacional, de aproveitar as competências corretas. Com essas ferramentas e com a tecnologia, é possível acelerar esses processos e fazer da melhor forma, com menos recursos, e ser mais assertivo. A receita do bolo é a mesma, mas com a tecnologia você pode aproximar, chegar mais rápido. Com a análise de dados, a tecnologia começa a trabalhar para você. Estabelecendo um processo automatizado, aquilo se faz sozinho, e você tem condições de pensar fora da caixa.

Das duas matérias que concluí, uma foi muito em relação à gestão, de como usar os conceitos de Big Data, a aplicabilidade no dia a dia. A outra foi de pincelada sobre todo o curso. Neste semestre, teremos algumas aulas bem de laboratório, que vão promover a questão de linguagem e desenvolvimento, para que a gente tenha alguma vivência. Eu, por exemplo, não tenho vivência nenhuma, então para mim vai ser bem interessante.” 

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'Na época de crise deve se investir em engenharia', diz especialista

Para José Roberto Cardoso, professor titular da Escola Politécnica da USP, especializações podem ajudar engenheiros a propor soluções

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Júlia Marques

28 Março 2017 | 03h00

Apesar da situação econômica do País, profissionais de engenharia com especialização não só saem na frente, como podem ajudar a propor alternativas para a recuperação. Isso é o que defende José Roberto Cardoso, professor titular da Escola Politécnica da USP.  "Quanto mais engenheiro você tem, mais inovação aparece, mais criatividade e, consequentemente, a economia melhora", diz. Leia a seguir trechos da entrevista ao Estado

Como a especialização pode ajudar o engenheiro a garantir uma melhor posição no mercado?

A pós-graduação deixou de ser algo elitista e passou a ser uma obrigação de alguém que se forma em Engenharia. A graduação não é mais suficiente para dar todas as competências que o engenheiro necessita para enfrentar os desafios do mercado. De qualquer forma, independente de qual a pós, se é mais profissional ou acadêmica, o que é importante é que ele faça. Não há como deixar de encarar o desafio após a formatura. Em qualquer análise curricular, se algum engenheiro não tem a pós, seguramente ele está em desvantagem muito grande em relação àquele que já completou.

No contexto de crise, o mercado tem condições de recompensar o engenheiro que se especializou?

O profissional não pode mais se preocupar em ter uma formação em função da situação econômica. A situação econômica é passageira. Não é o problema da economia que afeta a engenharia, deveria ser o inverso. Atualmente, se a economia está ruim, o mercado para o engenheiro fica ruim e ninguém faz engenharia, escolhe outra profissão. Os países em grande desenvolvimento fizeram justamente o inverso: quando estavam com a economia ruim investiram pesadamente na formação de jovens em engenharia. Quanto mais engenheiro você tem, mais inovação aparece, mais criatividade e, consequentemente, a economia melhora. Justamente na época de crise deve se investir em engenharia. 

Formações na área de empreendedorismo e inovação são interessantes nesse momento?

Esse é o foco principal. No passado, os engenheiros procuravam pós na área de administração. Agora não é mais assim. O engenheiro se forma, tem uma formação, na maioria das escolas, clássica, e na pós ele tem que procurar de fato algo que toque na inovação, no empreendedorismo, na criatividade, na liderança. A Administração deixou de ser de fato aquele caminho que a maioria dos engenheiros procurava. Inovação e empreendedorismo vão crescer ainda mais.

Conhecimentos na área de tecnologia são importantes?

Alguns requisitos que são exigidos para realização do projeto o engenheiro tem facilidade de adquirir. Um deles é justamente conhecimentos de TI (Tecnologia da Informação). Todos os engenheiros precisam ter uma formação profunda de TI. Não é só saber mexer com Excel e Word. A parte de banco de dados é fundamental, Big Data, que está avançando sensivelmente, e, agora, a internet das coisas. Esse é um dos grandes desafios que o engenheiro vai enfrentar.

Como o sr. vê a questão de especializações na área de infraestrutura? É uma área em alta?

Transporte é a grande deficiência do nosso País. Isso decorre do fato de que não existem ou são poucos os cursos de Engenharia de Transportes. Então é necessário uma pós-graduação nessa área. Esse leque abriu tanto que a mobilidade agora é tudo. Um corredor de ônibus atualmente é muito automatizado. 

O sr. poderia elencar áreas que estão em alta no momento?

No que se refere a cursos de especialização, temos um crescimento muito grande da área de energia. Com energias alternativas, há uma procura muito grande nessa área. Há uma procura grande também na área de mobilidade e a parte de TI, relativa a Big Data e a internet das coisas. Esse leque absorve a maior parte dos engenheiros que estão fazendo uma especialização. E não posso deixar de colocar a parte de inovação e empreendedorismo que ainda é o grande atrativo.

Observamos o crescimento grande de cursos de pós na área ambiental. Isso ainda é uma tendência ou esse conhecimento já está sendo incorporado na graduação?

É exatamente o que está acontecendo. Os cursos agora absorveram as questões ambientais, de modo que cursos de especialização em Engenharia Ambiental são poucos. Acho que não há como deixar de se preocupar na questão ambiental qualquer que seja a profissão. Sempre essa questão é tocada. No entanto, existem questões muito especializadas da engenharia ambiental que ainda têm apelo grande, como a questão de tratamento de resíduos sólidos, que é um problema ainda não resolvido no âmbito das cidades. Existe um mercado razoável nessa área.

Tem áreas da engenharia em baixa hoje?

A área da Engenharia Elétrica. Na década de 70 havia uma procura muito grande e isso agora não ocorre. Os cursos de telecomunicações agora são poucos, estão com procura baixíssima porque as telecomunicações mudaram muito. Houve, por outro lado, um avanço muito grande da Engenharia de Minas, de Petróleo. A Civil, a Mecânica e a Química estão muito bem solidificadas, continuam muito procuradas. O núcleo duro da Engenharia, onde a procura é grande, se concentra nessas áreas.

Especificamente sobre a Engenharia Civil, como esse profissional pode se diferenciar?

Ele tem que ser empreendedor. Os engenheiros no Brasil são formados para procurar um emprego. Não se formam engenheiros para ele criar seu emprego. Temos que formar um engenheiro empreendedor, inovador, para que ele saia da escola e fale: "que empresa vou abrir? Que negócio vou fazer?" E mesmo estando dentro da empresa, que ele seja alguém criativo, inovador, que force a empresa a sair do dia a dia e pensar coisas novas. O engenheiro civil que não tem o perfil de mobilidade dentro da profissão se isola. 

Quais os cuidados o engenheiro deve ter ao buscar uma especialização?

Ele tem de buscar um curso de especialização que dê a ele habilidades que o mercado exige e não se aprende na escola. Por exemplo, a inovação. A escola não ensina a ser inovador, empreendedor. Alguém que saiba se comunicar bem porque se não souber não consegue trabalhar. É fundamental que ele tenha uma formação boa em trabalho em equipe, que tenha formação em língua estrangeira consolidada em nível conversacional. Que tenha formação sobre cadeia de suprimentos, economia, história. São essas as competências que o mercado julga que estão faltando aos nossos engenheiros. Essas são as que ele tem de buscar em um curso de especialização. Um curso que trata só a questão tecnológica é complicado. Tem de dar para ele problemas que o estimule a praticar competências para encarar o mercado de trabalho. Existem vários engenheiros brilhantes que, quando você pede a eles para fazer uma apresentação e colocar suas ideias, não conseguem. 

 

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