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Crise põe autonomia da USP em xeque

Avaliação é de especialistas em ensino, incluindo ex-reitor; para eles, mudar governança é mais eficaz do que pedir verbas ao Estado

Victor Vieira, O Estado de S. Paulo

03 Outubro 2014 | 03h00

SÃO PAULO - A atual crise da Universidade de São Paulo (USP) pode colocar em xeque a autonomia administrativa e financeira da instituição, conquistada há 25 anos. Esse é o alerta de especialistas, que consideram mais importante renovar as estratégias de gestão do que pedir verbas extras ao governo do Estado. Outro desafio nos próximos anos será atender às demandas sociais sem ceder a pressões políticas.

A má fase das universidades estaduais foi o tema do seminário “Reflexões sobre a crise na USP”, realizado nesta quinta-feira, 2, e organizado pelo Núcleo de Pesquisas de Políticas Públicas (NUPPs) e pelo Grupo de Pesquisa Qualidade da Democracia do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. “A autonomia está em risco”, lamentou o ex-reitor da universidade, José Goldemberg. Desde 1989, as três universidades estaduais paulistas recebem uma cota fixa da arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e têm liberdade para gerir esses recursos. “Antes, os reitores eram pedintes”, lembrou.

O modelo foi importante para o desenvolvimento das instituições nos últimos anos, segundo o ex-reitor, apesar de decisões que atenderam a anseios políticos externos e internos. “Não tinha de criar um monte de pequenas faculdades”, criticou. Sobre a sindicância que investiga o aumento de gastos na última gestão, de João Grandino Rodas, Goldemberg cobrou punições exemplares para os responsáveis. 

“Autonomia não é sinônimo de independência”, ponderou o diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Carlos Henrique Brito Cruz. “Um caminho possível é repactuar o que a sociedade espera das universidades.” Seria importante, para ele, consolidar um plano diretor para o ensino superior público paulista, como aconteceu na Califórnia, nos Estados Unidos, na década de 1960.

Na opinião de Elizabeth Balbachevsky, professora da USP que estuda políticas de ensino superior, pedir mais verbas ao governo estadual por causa da crise não é a melhor saída. “Todas as vezes que nós entramos em crise nossa solução é passar a conta para o contribuinte paulista”, afirmou. Segundo ela, é necessário abrir mais espaço de representação de interesses externos, com conselhos de apoio à gestão, e maior divulgação dos trabalhos da universidade, principalmente nas áreas de pesquisa e extensão. 

Reforma. Eunice Durham, cientista social da USP, defende maior racionalidade na tomada de decisões dentro da universidade, com diminuição do tamanho dos conselhos deliberativos. Outro problema, para ela, é o alto número de funcionários da universidade, mas sem a qualificação técnica necessária. “Não estão preparados para exercer as funções modernas.”

Eunice também criticou o cenário de relacionamento entre a comunidade universitária e os sindicatos. “A última greve foi só de uma minoria”, reclamou, em referência à paralisação de professores e funcionários por reajuste salarial, entre maio e setembro. Para ela, a dificuldade de dialogar com os dirigentes universitários também é um dos fatores que dificultam o debate democrático na USP.

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