Crise econômica pressiona universidades públicas na Califórnia

Sistema de educação superior criado para gerar inclusão social, sofre com cortes de gastos

Carlos Orsi, do site da Revista Ensino SUperior da Unicamp,

17 Agosto 2012 | 12h45

O sistema público de educação superior do Estado da Califórnia, o mais rico e populoso dos EUA, corre o risco de perder a capacidade de oferecer instrução e, por meio dela, meios de ascensão social aos jovens de baixa renda que o procuram, por conta de cortes orçamentários, informa reportagem publicada pelo Chronicle of Higher Education.

Segundo o Chronicle, a preservação do caráter inclusivo do sistema depende da aprovação de uma proposta de aumento de impostos elaborada pelo governo estadual e submetida a referendo popular. A chamada Proposição 30 será votada no início de novembro, junto com a eleição presidencial que definirá a sucessão do presidente Barack Obama.

Na Califórnia, a educação superior bancada pelo Estado se divide em três “camadas”, numa tentativa de conciliar amplo acesso e critérios de mérito: na base estão os 116 community colleges (“faculdades comunitárias”), que buscam oferecer acesso universal aos formandos do ensino médio e que cumprem função profissionalizante ou de curso preparatório para o acesso às instituições mais avançadas e seletivas. Depois vem o sistema da Universidade Estadual da Califórnia, com 23 instituições, criado para oferecer educação superior em grande escala; e as dez unidades que formam a Universidade da Califórnia, com ênfase em pesquisa científica e pós-graduação.

Em 2010, o sistema público californiano abrigava mais de 2,3 milhões de estudantes, ou mais de 10% de todos os alunos de educação superior dos Estados Unidos. E 90% dos estudantes estavam matriculados na Universidade Estadual ou numa faculdade comunitária. Os cursos comunitários têm um papel estratégico na preparação de jovens de baixa renda para o trabalho e, também, para o acesso às instituições de maior prestígio.

Os efeitos da crise econômica que se prolonga desde 2008 vêm sendo sentidos, principalmente, na base do sistema: nos community colleges, disciplinas que são consideradas pré-requisitos para o acesso às instituições dos degraus superiores do sistema já têm longas filas de espera. Edgar Guzman, um jovem de origem mexicana entrevistado pelo Chronicle, precisa fazer quatro cursos de matemática numa faculdade comunitária para ter acesso à Universidade Estadual, mas não consegue vaga nas disciplinas. “Sou o número 23 da lista de espera”, disse ele.

Professores também ouvidos pelo Chronicle comentaram que, em algumas disc iplinas, formam-se filas de até 50 alunos do lado de fora da sala de aula no primeiro dia do curso.

Os cortes de verba afetam todo o sistema: a Universidade da Califórnia perdeu US$ 1 bilhão de financiamento estadual desde 2008, uma queda de 25%. As faculdades comunitárias perderam US$ 668 milhões no mesmo período, uma queda de 24%. E a Universidade Estadual viu sua dotação cair 30%, perdendo US$ 900 milhões.

As faculdades tentam contornar o problema trazido pelas demandas conflitantes – nunca antes houve tanta procura pela educação superior, ao mesmo tempo em que crescem as pressões por cortes de gastos e os orçamentos tornam-se mais apertados – adotando medidas como a limitação estrita do número de disciplinas em que os estudantes podem se matricular, ou de créditos que podem obter, por período letivo.

Medidas desse tipo, no entanto, acabam aumentando o custo da educação para o aluno, já que ele é forçado a diluir seu currículo ao longo de um número maior de períodos e, assim, a prolongar sua permanência na escola. A limitação é especialmente penosa para os alunos de cursos científicos, já que disciplinas que envolvem trabalho em laboratório muitas vezes trazem um grande número de créditos.

Além disso, os administradores estão apelando para restrições ao acesso. Embora, oficialmente, as faculdades comunitárias com políticas de livre acesso não possam recusar admissão a estudantes qualificados, a limitação do número de turmas disponíveis acaba funcionando como uma barreira. “Há milhares e milhares de estudantes competindo pelas mesmas aulas”, disse um administrador de community college ouvido pelo Chronicle.

A Proposição 30 prevê um aumento temporário do imposto sobre circulação de mercadorias, além de aumentar o imposto de renda para os mais ricos, a fim de fechar o déficit orçamentário do Estado, de US$ 15,7 bilhões. Se a medida não for aprovada, o sistema público de educação superior sofrerá novas restrições orçamentárias. Pesquisa de opinião pública publicada em julho indicava um índice de apoio de 56,2% à medida.

Fonte: http://www.revistaensinosuperior.gr.unicamp.br/noticia.php?id=145

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