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Joka Madruga/Futura Press

Confronto entre PM e professores no PR deixa cerca de 200 feridos

Grupo protestava contra ajuste previdenciário; 13 pessoas foram presas e 15 estão feridas em estado grave 

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Julio Cesar Lima ,
Especial para O Estado

29 Abril 2015 | 16h12

Atualizada às 00h24 de 30/04

CURITIBA - Ao menos 213 pessoas ficaram feridas nesta quarta-feira, 29, segundo a prefeitura de Curitiba, após confronto entre PMs e professores da rede estadual do Paraná em greve, na frente da Assembleia Legislativa do Estado. Trata-se de um dos maiores confrontos da história do País envolvendo um grupo de manifestantes e a polícia.

O grupo protestava contra a votação do projeto que autoriza o governador Beto Richa (PSDB) a usar recursos do fundo de pensão ParanaPrevidência como parte das medidas de austeridade e ajuste fiscal. O projeto foi aprovado.

O governador alegou que o confronto foi provocado por black blocs. O Estado também considera um número menor de feridos: 61, incluindo 21 policiais militares. Em fevereiro, professores haviam se mobilizado contra as mudanças no fundo de pensão. A greve foi cancelada quando o projeto teve a tramitação suspensa.

O clima já era tenso na região do Centro Cívico desde o início da semana, com pelo menos 5 mil professores acampados. Nesta quarta, a votação do projeto teve início às 15h e, uma hora depois, quando se informou que a proposta seria votada, a Polícia Militar entrou em confronto com os manifestantes. Houve tiros de bala de borracha e bombas de gás lacrimogêneo.

Segundo o comandante-geral da PM, coronel Cesar Vinícius Kogut, o confronto teria tido início quando um grupo tentou romper a área de isolamento, pulando as cercas.

Fontes ligadas à polícia chegaram a informar que 17 policiais foram presos por se recusar a participar do cerco. Posteriormente, o Estado negou a informação, mas a OAB do Paraná prometeu investigar. “Uma vez confirmada essa informação, tomaremos uma providência em relação ao comando. Existe a possibilidade de impetrar habeas corpus em favor desses soldados”, afirmou José Carlos Cal Garcia, presidente da Comissão de Direitos Humanos.

“Estava tudo calmo, quando (os PMs que faziam o cerco à Assembleia) começaram a descer a rua, a atirar bombas e bater”, disse, com os olhos vermelhos, Donizete Lopes, que vende churrasquinho no local. No CMEI Centro Cívico, crianças passaram mal por causa das bombas. Pais foram chamados às pressas, segundo a prefeitura, para retirar 150 crianças.

Jornalistas. Durante o confronto, o cinegrafista da Band Luiz Carlos de Jesus e o deputado estadual Rasca Rodrigues (PV) foram mordidos por um cão pitbull de um policial. Jesus teve de passar por uma cirurgia. Além dele, Rafael Passos, da CATVE, foi atingido por uma bala de borracha. 

Os fotógrafos Henry Milleo, da Gazeta do Povo, e André Rodrigues, freelancer, também acabaram feridos. Milleo foi atingido em um dos braços e no abdome por estilhaços de uma bomba de efeito moral lançada pela PM contra os professores. Rodrigues foi atingido por balas de borracha, segundo informou o Sindicato dos Jornalistas do Estado do Paraná.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) repudiou a violência no ato, criticou ações anteriores da PM paranaense e o fato de profissionais de imprensa terem ficado feridos. “A Abraji mais uma vez protesta contra o emprego de violência desmedida pela polícia do Paraná e cobra ação dos governantes do Estado para que isso não se perpetue.”

O professor Davi José foi atingido por três balas de borracha e teve de ser atendido em um ambulatório improvisado no subsolo da prefeitura. Ali, equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) participaram dos primeiros socorros e registraram 150 atendimentos. Além disso, 63 feridos foram encaminhados para as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) Matriz e Boa Vista. De acordo com o Samu, 15 pessoas tiveram de ser hospitalizadas com ferimentos graves. 

O prefeito Gustavo Fruet (PDT) lamentou o episódio. “É tragédia anunciada. Há 48 horas alertamos para a reação desproporcional por parte da Polícia Militar e é a hora de Assembleia e Estado recuarem."

Black blocs. “Tem cenas chocantes, ninguém pode ser hipócrita, mas os policiais precisavam se defender (dos black blocs)”, disse Beto Richa. Segundo ele, adeptos da tática violenta se infiltraram no movimento docente e atacaram os soldados que faziam o cerco à Assembleia. Treze deles teriam sido detidos e levados para o 1.º DP. 

Richa ainda disse não haver motivo para paralisação de professores e vê “instrumentalização” por partidos políticos e CUT. “O APP-Sindicato (principal organização de docentes) é um braço sindical do PT e quer o confronto e o desgaste político do governo, porque são meus adversários.”

O tom político também foi dado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Solidarizo-me com os professores, que foram agredidos de forma violenta pela Polícia Militar”, escreveu nas redes sociais. “É inadmissível que o direito de manifestação seja restringido.”

A direção do sindicato dos professores prometeu manter o acampamento na Assembleia durante a madrugada. Segundo a direção do movimento, houve garantias do Ministério Público de que não haverá ações da PM contra a ocupação.

Coordenador do Conselho Nacional de Direitos Humanos, Darci Frigo disse que uma comissão seguirá para o Estado. “Vamos denunciar o governo do Estado e o secretário de Segurança (Fernando Francischini) pelo o que aconteceu aqui, uma verdadeira ameaça aos direitos humanos.” O MP informou que atenderá todas as pessoas feridas no conflito que queiram denunciar violência sofrida.

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