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FELIPE RAU/ESTADÃO

Concurso público: de olho em alto salário e estabilidade

Outro atrativo para os candidatos é que a maioria dos concursos não exige formação específica

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Nana Soares,
ESPECIAL PARA O ESTADO

29 Março 2016 | 10h54

Quem não quer ter uma carreira estável? Para muita gente, a solução encontrada para atingir esse objetivo é a carreira pública. Os concursos atraem pelos altos salários e pela promessa de um dia a dia menos exaustivo do que o trabalho no setor privado. Outra vantagem é que muitas vagas, até as concorridas (como os postos na Receita Federal), não exigem uma formação específica, só a conclusão de um curso superior.

Para se ter ideia, no último concurso para auditor da Receita passaram profissionais de áreas tão diversas como Enfermagem, Psicologia, Jornalismo, Economia, Direito, Engenharia, Administração e Contabilidade, estas quatro últimas com uma participação maior entre os aprovados.

A maioria dos concursos é generalista e não exige formação específica, garantem profissionais que acompanham o setor. “E, como a seleção se dá com critérios objetivos, todas as carreiras têm a mesma chance. Mesmo que na prova caiam questões de Direito, os advogados não têm aprovação maior, a distribuição é bem homogênea”, diz Jaime Kwei, coordenador de Marketing da Central de Concursos.

Engenheiro na área fiscal. A simples conclusão do ensino superior habilita uma pessoa a prestar a maioria dos concursos desse nível, segundo o coordenador do Curso Preparatório FMB, Flávio Augusto Monteiro de Barros. Ele afirma que, em concursos da área fiscal, engenheiros costumam se sair melhor. O sucesso nas provas, de acordo com especialistas no assunto, deve-se a um modelo de raciocínio aprendido na faculdade e que é parecido com o usado nos processos seletivos dos concursos. É o que pensa Kaique Knothe, de 27 anos, engenheiro que prestou concurso para a Receita Federal em 2014 e hoje trabalha como auditor fiscal.

Knothe, que nunca tinha pensado em carreira pública na faculdade, estudou em tempo integral para concursos da área fiscal, especialmente o da Receita Federal. De manhã fazia cursinho e à tarde se dedicava às apostilas. Ele diz que a estabilidade foi fator muito atrativo para mudar o foco. “A Receita é um órgão bem estruturado e os salários iniciais para a área eram muito chamativos, além de me oferecer melhor qualidade de vida do que os empregos iniciais de Engenharia.”

Foi menos de um ano entre decidir dar uma guinada na carreira e a aprovação, tempo abaixo da média para os concursos de nível superior. Segundo a equipe da Central de Concursos, os candidatos dedicam em torno de um a dois anos de estudo, antes de ter sucesso.

Knothe diz acreditar que sua formação original fez muita diferença para obter o resultado positivo e tão rápido: “A diferença não foi tanto em termos de conteúdo porque raciocínio lógico é menos de 10% da prova, mas outros valores ajudaram muito. Engenharia é uma faculdade difícil e que leva a aprender numa velocidade maior. Fora que o método de estudar e de fazer prova são parecidos e ajudaram muito após uma intensa preparação”.

A opinião do candidato é compartilhada pelo professor José Aquiles Baesso Grimoni, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP). Em sua visão, os engenheiros conseguem se adaptar rapidamente às diferentes situações de trabalho e aos problemas que aparecem. “São profissionais acostumados a isso. Eles aprendem rápido uma nova realidade, então se criou essa cultura de que os alunos de Engenharia são bons candidatos a concursos.”

Para ele, o raciocínio lógico desses profissionais é, sim, um diferencial. “O setor financeiro é um que emprega bem porque, além do raciocínio lógico e da facilidade do pensamento matemático, o engenheiro é treinado para trabalhar com modelos, então tem uma capacidade muito atrativa de abstração e de fazer previsões.”

Mas isso não quer dizer que precisa ser engenheiro para passar em um concurso. Cada edital e cada prova têm suas especificidades, e entre as matérias comuns estão conteúdos tão diferentes como Língua Portuguesa, Contabilidade, Direito Constitucional e Direito Administrativo. “Algumas carreiras têm muitas matérias afins com as dos concursos, mas não adianta nada ir bem na sua área e mal no resto”, diz Kwei, da Central de Concursos. 

Provas para Direito. Apesar de ser conteúdo obrigatório em provas generalistas, Direito é uma das carreiras com maior oferta de concursos específicos para a área. Também é um campo em que os estudantes pensam desde cedo em carreira pública, como explica Thais Cintia Carnio, professora de Direito Empresarial e de Direito Tributário da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

“Muitos alunos já ingressam no curso pensando na carreira pública, almejando principalmente empregos de promotoria ou magistratura. E vários já prestam concursos para outras áreas como oficial de Justiça, escrivão ou analista do Poder Judiciário ainda durante a graduação. Isso para já poder estar no meio e usar como trampolim para o que vem depois, ou então para migrar para a área jurídica no futuro.”

Segundo Thais, os alunos preparam-se mais intensamente para os concursos a partir da segunda metade da graduação, direcionando as disciplinas para as áreas que pretendem concorrer: aulas de Direito Civil para quem busca a Magistratura, Direito Penal para quem quer trabalhar no Ministério Público, e assim por diante.

Os concursos públicos da área jurídica também com frequência exigem algum tipo de experiência prévia, seja a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) ou experiência profissional (que pode ou não abarcar os estágios durante a graduação). “Acho isso positivo porque a carreira pública é um plano de médio a longo prazo. Ter um pouco de dificuldade para alcançar esse objetivo testa se os alunos realmente querem isso para suas vidas.”

Atuante na área de Direito Tributário, um conhecimento geralmente exigido em concursos públicos, Thais diz acreditar que quem estuda Direito também pode se dar bem em provas não específicas da área. “Por serem ensinados a ler e produzir muito, são pessoas com muito conhecimento de língua portuguesa, fora que é necessário conhecer as normas jurídicas e seu funcionamento para passar nas provas”, afirma. “É como se indiretamente eles se preparassem.”

Novas carreiras. Se Direito tem tradição em concursos públicos, outras carreiras começam a entrar nesse universo, como Tecnologia da Informação (TI). “A demanda para TI está crescendo e encontramos vários concursos específicos. Recentemente, o TRF (Tribunal Regional Federal) abriu concursos só para essa área, por exemplo. É a carreira que vem se destacando, além do Direito”, afirma Kwei.

Já o professor Enock Godoy de Souza, coordenador de cursos de MBA da Fiap e especialista em Gestão Pública, diz que o setor público agora não é o melhor empregador para um profissional de TI. “O governo está diminuindo o número de concursos, já que não pode cortar vagas. Em São Paulo, não temos nenhum importante em vista na área.” O especialista explica que, mesmo os profissionais de TI de empresas privadas que prestam serviços para o setor público, não estão em um bom momento, pois, com a crise, o governo tenta reduzir gastos e contratos.

Para quem quer se mudar, a mobilidade dos concursos atrai. Há várias áreas que podem ser exercidas em qualquer lugar do País

Thais Cintia Carnio, professora de Direito Tributário do Mackenzie

“Mas isso é uma previsão a curto prazo. E a parte de infraestrutura é mais estável. O que tende a diminuir na crise são os investimentos, o desenvolvimento de novos sistemas, mas você precisa manter funcionando o que já existe.”

A previsão a longo prazo é otimista. Souza afirma que a oferta baixa de concursos para TI deve se limitar a esse ano, no máximo 2017. “Em geral, TI é uma área que sente menos as crises, já que, se uma empresa resolve reduzir custos automatizando um processo, é o profissional de TI que vai fazer essa automatização.”

Os profissionais de TI, assim como os de outras áreas, se atraem pela carreira pública por causa da estabilidade e da carga de trabalho geralmente mais tranquila. Segundo os especialistas, jornadas de até 12 horas por dia são comuns para os profissionais da Tecnologia da Informação, dependendo do setor. “O maior problema da maquina pública é ela ser mais burocratizada do que o setor privado e ter problemas ou obstáculos com as mudanças políticas, mas ainda é muito atrativa pela estabilidade e pelo salário inicial.”

Crise econômica. A crise econômica e o mercado desaquecido tornam a carreira pública mais atrativa e concorrida. Só a Central de Concursos registrou aumento de 30% nas matrículas em relação ao ano passado, e a previsão é de que o número continue crescendo.

Os engenheiros engrossam essa porcentagem: eles sentiram fortemente a crise e tentam migrar para o setor público. “Há um ano, o mercado de Engenharia ainda estava superaquecido e o concurso não era tão atrativo, mas o cenário mudou muito”, diz Jaime Kwei, coordenador de Marketing da Central de Concursos.

No caso do Direito, que sempre atrai muitos profissionais para concursos, a professora Thais Cintia Carnio, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, acrescenta outro fator para explicar o aumento da procura por um cargo público: “Temos uma visibilidade grande de algumas carreiras do Direito, por exemplo, com a operação Lava Jato. São áreas belíssimas e que agora chamam mais a atenção.”

Na crise, o medo dos candidatos em geral é de que vagas sejam congeladas, mas quem está no setor garante que não deve ocorrer. “As ofertas de concurso continuam aparecendo, até para vagas de alta remuneração, porque a máquina tem de seguir funcionando. Um ou outro concurso pode demorar mais para sair, mas eles não deixam de existir”, diz Kwei.

O coordenador de Marketing da Central de Concursos se refere à proposta do governo federal de reduzir a abertura de concursos para cortar gastos. A medida do ajuste fiscal ainda precisa ser aprovada e, para Kwei, não deve afetar significativamente a quantidade de vagas. Isso porque, se aprovada, valerá só para o Poder Executivo no nível federal. “Mesmo que interferisse, a preparação é longa. Os candidatos teriam de começar a estudar agora de qualquer modo.” 

Os especialistas são unânimes em dizer que as vagas de carreiras administrativas são as mais abundantes, especialmente no Poder Executivo. E que a necessidade de repor o contingente que se aposenta ou morre é constante. “Houve queda só nos concursos do Poder Executivo da União. Mas continuam a todo vapor nos Estados, nos municípios, em autarquias e em nível federal nos Poderes Legislativo e Judiciário”, diz Barros, coordenador do curso FMB. E, embora a lei eleitoral faça algumas restrições a concursos públicos em ano de eleição, isso também não deve afetar o setor.

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