Comunicação e educação contra a barbárie

Perversão maior que o conteúdo dos vídeos do Estado Islâmico é o conhecimento aplicado por quem os fez

Alexandre Le Voci Sayad, O Estado de S. Paulo

04 Março 2015 | 15h30

Fuzilamentos, degolações, imolações, decapitações. As imagens de execuções cometidas pelo Estado Islâmico transbordam covardia, violência, mal estar – sem corte na internet ou editadas no horário nobre da televisão. 

Perversão maior que o conteúdo dos vídeos é o conhecimento aplicado por quem os fez. Repare: tudo é extremamente bem cuidado na filmagem. Cenários (um deserto maravilhoso, num plano ora aberto, ora fechado – o que sugere o uso de mais de uma câmera), figurinos (executados de laranja, executores de preto, covardemente com os rostos cobertos), fotografia (luz permite que se repare nos detalhes) e sobretudo a edição. Não são amadores – o som é “microfonado” e limpo,  e as imagens captadas em HD. 

A propaganda nazista, considerando época e contexto histórico, não ficava muito atrás.

Como uma formação plena, laica e universal-  proposta pelo conceito ocidental de escola - pode lidar com desafios como esse, expostos diariamente a estudantes que os procurem assistir? Não há como lutar com garfos e colheres contra quem tem armamento pesado – seja ideologicamente ou na prática.  Contra a barbárie, a melhor arma pode ser uma comunicação autêntica e de qualidade feita pelos estudante com apoio da escola. 

É atenta a essa questão que a Unesco tem trabalhado em uma rede mundial para estimular e debater a produção de comunicação no espaço escolar. Produzindo  uma comunicação de qualidade é possível identificar os códigos, léxico e conteúdos capazes de sustentar uma ideologia – ou uma insanidade. 

O termo MIL (Media Information Literacy), utilizado em escala global pela organização, mistura dois conceitos que deveriam andar mais próximos – o da “alfabetização para a mídia” ou “educomunicação” e o da “alfabetização para a informação”, oriunda das ciências da Biblioteconomia. Se lembrarmos que o algoritmo por trás do Facebook é responsável pela publicação do que mais um bilhão de pessoas lêem diariamente fica mais evidente essa proximidade de campos.

Em dezembro, na Cidade do México, uma aliança entre a Unesco, Universidade Autônoma do México e Universidade Autônoma de Barcelona realizou um amplo Fórum de debates e o lançamento do capítulo latino-americano da rede de MIL.  A carta do México, com as conclusões do evento, será divulgada em breve.  

Uma escola, seja ela pública ou privada,  que se diz atenta à formação para a autonomia do estudante não pode deixar de fora de seu espectro a comunicação, como habilidade necessária ou como alfabetização na leitura do mundo contemporâneo. 

O Estado Islâmico dá uma lição na mídia de massa: no mundo de hoje, não há mais espaço para “glamurizarmos” nossa incompetência em comunicar, justificada por falta de recursos. Todos somos produtores de conteúdo e forma – insignificantes, brilhantes ou mesmo desumanos.

* ALEXANDRE LE VOCI SAYAD É JORNALISTA E EDUCADOR. É FUNDADOR DO MEL (MEDIA EDUCATION LAB)  E AUTOR DO LIVRO IDADE MÍDIA: A COMUNICAÇÃO REINVENTADA NA ESCOLA, PUBLICADO PELA EDITORA ALEPH.

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