Competição de elite

Os dez colégios da região mais bem colocados no ranking do Enem 2008 estão entre os 20 melhores de toda a cidade

Lucas Frasão, Especial para o Estado,

15 Outubro 2009 | 13h15

Nascido em Seul, na Coreia do Sul, Ji Lee, de 38 anos, é diretor mundial de criação do Google Creative Lab, cujo escritório fica a algumas quadras de sua casa, no coração de Manhattan. Mas mesmo depois de cursar a Parsons, escola famosa de design de Nova York, e de chegar ao seu cobiçado cargo no Google, Lee ainda lembra bem do quanto teve de estudar para concluir o ensino médio no tradicional Colégio Bandeirantes, no Paraíso. "É um colégio moderno, de nível acadêmico altíssimo", diz o executivo, cujos pais ainda moram em São Paulo.   Lee orgulha-se de ter saído do Bandeirantes sem repetir de ano, mas acha que o nível de cobrança era exagerado. "Eu não gostava das duas semanas infernais de prova. Era muita pressão. Sofria tanto com isso que ainda tenho pesadelos de vez em quando", diz.   A rigidez e a qualificação dos professores fazem parte da receita que tornou o Bandeirantes uma das escolas paulistanas com melhor índice de aprovação de alunos em vestibulares concorridos. Um padrão de competitividade que é, de certa maneira, comum às escolas da zona sul. Os 10 colégios da região mais bem colocados no ranking do Enem 2008 estão entre os 20 melhores de toda a cidade.   O Bandeirantes foi o 2º colocado da capital no Enem. O campeão do ranking também fica na zona sul: é o Vértice, do Campo Belo. "O Vértice tem um método de ensino eficiente, direcionado para o vestibular, nada alternativo. Mas eles também não deixavam de trabalhar a responsabilidade social dos alunos", define a engenheira de alimentos Renata Andrade, de 27 anos. Ela diz ter aprendido no colégio a ser organizada e concentrada, qualidades que põe em prática hoje quando precisa se atualizar profissionalmente na Vogler, empresa de importação e exportação de alimentos. "O colégio determinou praticamente tudo na minha vida. Atribuo a ele a minha segurança e senso de responsabilidade", diz Renata, formada na Escola de Engenharia Mauá, onde depois também fez pós-graduação. Ela só não gostava do espaço de lazer do Vértice. "Era muito pequeno."   DETERMINAÇÃO Nicole Julie Fobe, de 19, aluna do 2º ano de Direito na USP, tem lembranças parecidas com as de Renata de sua passagem pelo Colégio Stockler, no Brooklin. Nicole concluiu lá parte do ensino médio, transferida do Porto Seguro, no Morumbi. Entrou em 38º lugar na USP, sem fazer cursinho pré-vestibular. "No Stockler, eles têm uma visão de que ou você passa no vestibular, ou passa no vestibular. Não tem escolha. Quem gosta de artes e direitos humanos, por exemplo, tem de estudar em outro colégio. Não no Stockler."   Nicole admite ter sido um pouco radical antes do vestibular. Costumava estudar nos fins de semana e nas férias. Às vezes, acordava de madrugada para se preparar melhor para as provas. "A cobrança é alta e a taxa de repetência, considerável. Mas acho que, no fim, valeu a pena. Eles me transformaram em uma pessoa muito determinada", diz a universitária, que já começou seu projeto de iniciação científica na USP e à tarde faz estágio com um professor da Fundação Getúlio Vargas em pesquisas sobre Direito e Economia.   Como Nicole, Laura Camargo, de 19, passou no vestibular para Economia da USP sem fazer cursinho. Ela também menciona a disciplina rígida como uma das características do Colégio Móbile, na Vila Nova Conceição. "Se você chegasse 5 minutos atrasado para a aula, o professor não deixava entrar na sala. Achava isso um exagero", diz. "Mas eles também tentam desenvolver a formação cultural dos alunos."   Na vida profissional, o primeiro aspecto que o diretor para o Brasil da Emirates Airlines, Ralf Aasmaan, de 43, destaca de sua passagem pelo Colégio Humboldt, em Interlagos, é o ensino bilíngue. Aasmaan usa muito o alemão aprendido no Humboldt em suas viagens a trabalho pelo mundo. Mas, num plano mais pessoal, ele é um defensor entusiasmado da disciplina. "Hoje eu me considero uma pessoa segura, pé no chão, muito por causa da influência do colégio", afirma Aasmaan, que matriculou o filho no Humboldt.   O executivo do mercado financeiro Marcelo Leite, de 35 anos, também considera a passagem pelo Colégio Etapa, na Vila Mariana, decisiva para sua carreira. Diretor de Pesquisas em Ações do Banco Credit Suisse, ele só estudou no Etapa porque ganhou uma bolsa após vencer, ainda criança, uma Olimpíada de Matemática. "Os professores na escola eram muito experientes", diz Leite, formado em Engenharia no Instituto Tecnológico de Aeronáutica. "O Etapa era exigente e estimulava o aluno a buscar excelência."   ESCOTEIRO Em algumas escolas de elite da zona sul, a rigidez não se limita à preparação para o vestibular. O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, de 54 anos, estudou em um dos colégios mais tradicionais de São Paulo, o Santo Américo, no Morumbi, quando ele ainda funcionava em regime de semi-internato e só aceitava garotos. A escola tinha sido fundada por padres beneditinos havia pouco mais de 10 anos na época em que Skaf entrou lá, em 1965. O empresário ficou no Santo Américo até concluir o ensino médio, em 1973, e acompanhou o crescimento da escola. "A relação com o colégio foi intensa.   O estilo de ensino complementava a educação que recebi de meus pais. Sempre com bom exemplo, respeito e união da família. Até hoje, não abro mão desses princípios." Skaf foi durante anos o presidente do clube de sua classe. "Também lembro muito do grupo escoteiro. Tive a oportunidade, muito jovem, de viajar e acampar no interior de São Paulo. Sem conforto, dormindo em barraca e sempre em contato com a natureza." Identificado com a escola, Skaf casou-se na igreja do Santo Américo e matriculou lá os cinco filhos. "Sempre que passo na frente fico emocionado."   Outro colégio de formação religiosa que está entre os melhores da zona sul no Enem é o Arquidiocesano Marista, na Vila Mariana, 16º colocado no ranking paulistano. Nascido em 1974, o apresentador do programa de televisão CQC Marco Luque estudou no Arquidiocesano até repetir a 1ª série do ensino médio, em 1989. "O som da sirene anunciando o fim do recreio parecia a de um campo de concentração", diz Luque. "Era obrigatório fazer esporte e tinha sempre a chamada oral do irmão Leão, que entrava nas salas de surpresa e fazia a gente responder a tabuada."   Luque não lembra só da ênfase na disciplina. Sua primeira experiência "artística" ocorreu no Arqui. Na 3ª série, ele tinha o apoio da professora Mafalda, que reservava 10 minutos da aula para que fizesse imitações para a classe. "Eu fazia o Zé Bonitinho, o Jerry Lewis, o Sérgio Malandro. Era quase um show de comédia."   ITAMARATY Na contramão dos ex-alunos de outras escolas da zona sul, o advogado Eduardo Alcebíades Lopes, de 27 anos, se formou em 1999 em um colégio que não incentivava a competição entre os alunos, o Santa Maria, no Jardim Marajoara. "A escola tinha uma visão humanista muito forte. Eram refratários quanto à competitividade e isso me incomodava um pouco. Mas hoje concordo com essa posição", afirma Lopes, aprovado em 2008 no concurso do Instituto Rio Branco, do Itamaraty, um dos mais difíceis do País.   O advogado diz que a viagem de formatura é uma das lembranças mais vivas que guarda dos tempos de colégio. Ele e os colegas foram ao Vale do Jequitinhonha, região mais pobre de Minas, participar de um trabalho voluntário com crianças de comunidades carentes e depois seguiram para a Chapada Diamantina, na Bahia. "Aquela viagem me mostrou a importância de respeitar as pessoas e as diferenças. Meus pais também sempre me educaram nesse sentido."   Bruno Costa de Paula, de 33 anos, se formou no Augusto Laranja, em Moema, e atualmente trabalha como diretor de Cálculo de Capital do Banco Santander em Madri, na Espanha. Também guarda da escola a lembrança de uma formação humanista forte. "Acho que desenvolvi um certo padrão de inteligência emocional como herança da educação que tive lá."   Outro aspecto que Bruno destaca da passagem pelo Augusto Laranja é o das relações pessoais. Mesmo morando em outro país, ele mantém até hoje um contato estreito com os colegas de classe. "Conheci meus melhores amigos na pré-escola e no primário."

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