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Amanda Perobelli/Estadão

Como ser um especialista em outras línguas

Cursos abordam linguagem, metodologias e técnicas didáticas e permitem atuar como professor de idioma

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Luciana Alvarez ,
Especial para O Estado

21 Fevereiro 2017 | 03h00

Para ensinar bem uma língua, seja o português ou uma estrangeira, é necessário muito mais do que o domínio do idioma. Entender os processos de aquisição da linguagem, conhecer metodologias e conseguir aplicar diversas técnicas didáticas produzem grande diferença no resultado final do trabalho, ou seja, no quanto o aluno aprende. As especializações em Letras atraem profissionais em busca dessas habilidades. 

Formada em Desenho Industrial, Letícia Mayumi Yamamoto Abe, de 28 anos, faz hoje uma especialização na Faculdade Cultura Inglesa para se tornar uma professora de inglês melhor. Ela sempre gostou e sentia facilidade em aprender idiomas: em casa teve formação bilíngue – português e japonês – e na adolescência começou a se dedicar ao inglês. Mas seu foco profissional só se voltou ao ensino do idioma após um intercâmbio de dois anos no Canadá. 

“Recebi uma proposta de estágio na área de Desenho Industrial no Canadá, mas para conseguir o visto teria de estudar. Como meu nível de inglês já era muito bom, a escola me sugeriu fazer um curso de capacitação para professores”, conta. Foi a partir daí que Letícia percebeu sua nova vocação e também novas oportunidades de trabalho. “Voltei para o Brasil em 2014 e logo recebi um convite para dar aulas. Desde essa época, a demanda só tem crescido. Mas, no dia a dia, senti que ainda me faltavam conhecimentos acadêmicos”, diz, sobre os motivos que a levaram à especialização. 

Letícia, que dá aulas particulares para diversas idades e também atua numa escola de idiomas para crianças, sente que mesmo antes de terminar a especialização já está fazendo um trabalho melhor. “A pós está me ajudando a trazer questões da língua de um jeito interessante para a sala de aula. Também me faz identificar certas dificuldades dos alunos e lidar com elas de outra forma. Enriquece minha prática e me deixa preparada para todos os perfis de alunos.” O curso da Cultura é modular. Letícia já fez seis dos dez módulos e deve terminar os demais até o fim do ano. 

Coordenadora do curso de especialização da Cultura Inglesa, Lizika Goldschleger diz que Letícia tem um dos perfis mais comuns dos alunos desse tipo de curso: professores de idioma com formações diversas que buscam aprimorar suas aulas. “Para quem busca lecionar em cursos livres, a pós-graduação é mais rápida e mais dinâmica do que uma licenciatura, por isso se torna mais interessante”, afirma. Mas há demanda também de professores licenciados que desejam se atualizar. “Muitas vezes, um professor que atua em colégio não tem com quem trocar ideias, porque é o único a trabalhar com a língua inglesa. E um bom professor não pode ficar parado, tem de estudar, discutir, refletir.” 

Para quem tem interesse em ser professor de idiomas desde o início da carreira, Lizika afirma que a licenciatura ainda é o melhor caminho. “Como o nome diz, a licenciatura é uma licença do MEC (Ministério da Educação), uma exigência legal, para você poder dar aulas na educação básica. É uma opção a mais de trabalho que fica aberta”, explica. 

Assuntos estudados. Um aluno de licenciatura vai cursar disciplinas sobre didática, pedagogia, psicologia da educação e também sobre o sistema de ensino e a legislação brasileira na área de Educação. Na pós-graduação, que pode ser feita por licenciados ou profissionais de formações diversas, a parte de leis não costuma entrar. No curso, a abordagem teórica a respeito de metodologias e didática costuma incluir só vertentes mais modernas. 

Outro ponto essencial das boas especializações em Letras, sejam de língua estrangeira ou de português, é o aprofundamento linguístico, segundo o coordenador da pós-graduação em Português, Língua e Literatura da Universidade Metodista de São Paulo, Silvio Pereira Silva. “Há módulos de didática e abordagens metodológicas, mas também gramática avançada, fonética, fonologia e estudos culturais.”

As ofertas de especializações mais comuns são em inglês, espanhol e português. Inglês e espanhol recebem profissionais de Letras, e também com formações diversas, mas todos têm em comum o desejo de exercer a docência. A proficiência no idioma é o principal pré-requisito para a matrícula. “Se não tiver domínio do idioma, não acompanha as aulas”, diz o coordenador.

No curso de português, conta Silva, são frequentes alunos sem intenção de comandar uma sala de aula. “Além do professor, recebemos profissionais da Comunicação, administradores em busca de ampliar a bagagem cultural. Mas todos vão estudar disciplinas de didática e metodologia.” 

Esse foi o caso do jornalista Danilo Morelli, de 28 anos, que entrou na especialização em Português da Universidade Presbiteriana Mackenzie assim que terminou a faculdade. “Eu era jogador de futebol e fui para o Jornalismo para cobrir esportes. Na faculdade, comecei a me interessar por outras coisas, como cinema e literatura. Fui para a pós-graduação para ampliar minha bagagem e capacidade intelectual.” 

O jornalista diz que a pós-graduação não lhe serviu para conseguir um aumento ou emprego melhor, mas não se arrepende. “Quase todos os meus colegas eram professores que buscavam crescer na carreira. Eu buscava só aprender mais a cada dia, extrair o máximo de conhecimento possível.” 

Lato ou stricto sensu. Por lei, qualquer profissional com diploma de ensino superior pode dar aulas no ensino superior. Na prática, porém, para conseguirem conceitos melhores nas avaliações externas, as faculdades dificilmente contratam professores que não sejam, no mínimo, especialistas.

Se o foco do profissional é ser professor de ensino superior, o melhor caminho é mesmo partir para um mestrado, recomenda a coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Letras do Mackenzie, Ana Lúcia Trevisan. “A demanda é maior para mestres e doutores. Além disso, com o título do stricto sensu, o salário é um pouco maior.” 

Ana Lúcia explica que o mestrado é mais aprofundado do que a pós-graduação e tem maior ênfase em pesquisa. “A especialização é voltada para a prática docente, ou seja, o objetivo principal é trabalhar os conteúdos teóricos. Por exemplo, os alunos podem estudar como um certo tema complexo de Literatura pode ser abordado com o segmento do fundamental 2.”

DEPOIMENTO: ‘Escrevo de modo mais claro agora’

Rafael Fernandes Pedroso, assistente acadêmico

“Estou terminando minha especialização em Português - Língua e Literatura pela Universidade Metodista. Pretendo fazer um mestrado na sequência e seguir na carreira acadêmica. A graduação eu conclui em 2014: fiz bacharelado e licenciatura em português e espanhol.

Quando eu ainda estava na faculdade, além do estágio na educação básica, dei aulas de espanhol numa escola de idiomas. Nessa escola, como na maioria, eles não exigiam nenhum curso superior, o que conta mesmo são as provas de proficiência na língua estrangeira.

Não descarto a hipótese de voltar à educação básica, é um trabalho muito gratificante, mas meu foco agora é o ensino superior. Com o certificado de especialista, já pretendo me candidatar a ser professor de faculdade. 

Hoje trabalho com um programa de inclusão para cursos de EAD. Faço a transcrição de teleaulas para estudantes surdos. Mas a transcrição nunca é literal e, por isso, fazer a especialização melhorou a qualidade do meu trabalho. Ao aprofundar meus conhecimentos da língua, consigo encontrar formas mais claras de escrever, além de pensar sobre questões de metodologia e didática.” 

Escrita criativa e idiomas como ferramenta

A vontade de aperfeiçoar o domínio de um idioma estrangeiro, ou mesmo do português, não é uma exclusividade de professores ou profissionais de Letras. Com um crescente número de pessoas com formações e objetivos diversos à procura de estudar línguas, novas opções vêm surgindo no mercado de pós-graduação. 

A Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) lança neste semestre a especialização em Escrita Criativa. Rodrigo Petronio, coordenador do curso, diz que a decisão de montar esse programa deve-se a um aumento consistente do número de pessoas interessadas em melhorar a comunicação escrita. “Faz tempo que dou oficinas e cursos livres de escrita criativa. Tem aluno que faz várias vezes o curso, para se manter praticando.”

Em Escrita Criativa, o perfil do aluno promete ser mais heterogêneo do que numa pós-graduação tradicional em Português e Literatura. “Tem muita gente do Direito, da Psicologia, das Humanidades e da Comunicação, como publicitários e jornalistas. O que eles têm em comum é que são pessoas que querem escrever bem - e muitas vezes já escrevem bem, mas fizeram carreira em outra área e não se desenvolveram nisso”, diz Petronio, que é escritor e filósofo.

Segundo o coordenador, a pós-graduação será um espaço para refletir e praticar a escrita em várias formas e plataformas. “A grade não é ligada exclusivamente à formação de escritores. É algo transversal, aborda plataformas digitais e até linguagens não verbais.” 

Mas, se há muitos interessados em escrever melhor, há aqueles cujo desafio é ler melhor em idiomas estrangeiros. É caso de Marta Maria Wanderley, professora da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), que durante seu doutorado se deparou com textos importantes apenas em língua estrangeira. “Faço doutorado em Educação e preciso ler textos acadêmicos em inglês e francês com propriedade.” Para dar conta das leituras, fez no semestre passado duas extensões universitárias, cursos instrumentais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) voltados à leitura de textos acadêmicos, de 40 horas cada. 

Marta é da Educação, mas em todas as áreas, quando alguém entra numa pós-graduação, vários textos de referência não se encontram traduzidos para o português. Dependendo do campo de conhecimento, existem línguas mais importantes. E o estudante precisa ter compreensão das principais teorias do mundo para se desenvolver. 

“Os cursos responderam às minhas expectativas. Posso garantir que funcionam. Aprendi estratégias de leitura essenciais, conceitos de linguística que ajudam a compreender qualquer idioma. Depois, há exercícios diários para o aluno pôr em prática as teorias”, explica. “Hoje a minha compreensão é bem mais fácil.”

Apesar de serem cursos rápidos, não significa que sejam pouco exigentes. Segundo Marta, também é importante continuar exercitando os aprendizados depois da conclusão. “O francês, eu nunca tinha estudado antes, não tinha conhecimento prévio nenhum. Às vezes, ainda me falta vocabulário, mas, graças às estratégias aprendidas no curso, hoje consigo ler.” 

A PUC-SP também tem cursos específicos para leituras acadêmicas em espanhol e italiano, além da extensão Alemão para Juristas - Leitura de Textos Jurídicos. “A Alemanha é uma referência importante na área de Direito e Filosofia. Como há um interesse crescente, já estamos estudando a possibilidade de montar um curso de alemão voltado para textos filosóficos”, afirma Maximina Freire, coordenadora da escola de línguas da universidade. 

Todos os cursos de extensão são rápidos, duram entre 30 e 40 horas. “Eles exploram estratégias de leitura e habilitam o aluno na leitura sobre temas específicos. Aproveitam o conhecimento prévio do aluno na área, associam ao que ele sabe da língua, de forma que ele possa desenvolver e dominar essa habilidade.”

Maximina alerta que a intenção é desenvolver especificamente a habilidade de leitura. Portanto, o estudante não vai sair falando ou entendendo a língua oral. “É para compreender textos acadêmicos, não é uma formação completa. O aluno não vai aprender a se comunicar na língua.” 

SERVIÇO

Universidade Metodista de São Paulo

Curso: Especialização em Língua Inglesa

Duração: 18 meses (384 horas/aula)

Início das aulas: 13 de março

Custo: R$ 478 por mês

Site: portal.metodista.br/lato

Universidade Presbiteriana Mackenzie

Curso: Especialização em Língua Portuguesa e Literatura

Duração: 4 módulos (432 horas/aula)

Início das aulas: Agosto - matrículas podem ser feitas a partir de maio

Custo: Não informado

Site: up.mackenzie.br/upm

Fundação Armando Álvares Penteado (Faap)

Curso: Especialização em Escrita Criativa

Duração: 2 anos (432 horas/aula)

Início das aulas: Março

Custo: R$ 23.850

Site: pos.faap.br

Faculdade Cultura Inglesa

Curso: Especialização

Estratégias e Metodologias do Ensino e do Uso do Inglês

Duração: 10 módulos (mínimo de 18 meses e máximo de 30 meses)

Início das aulas: 6 de março

Custo: R$ 1.805 por módulo

Site: faculdadeculturainglesa.com.br

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)

Curso: Extensão Alemão para Juristas: Leitura de Textos Jurídicos

Duração: 40 horas

Início das aulas: 8 de maio

Custo: cinco parcelas de R$ 540

Site: pucsp.br/pos-graduacao/especializacao-e-mba

Curso: Extensão Francês para Fins Específicos: Leitura de Textos Acadêmicos

Duração: 40 horas (EAD)

Início das aulas: 17 de abril

Custo: cinco parcelas de R$ 540

Site: pucsp.br/pos-graduacao/especializacao-e-mba

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