Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Como escolher entre MBA e mestrado profissional

Foi-se o tempo em que o foco na carreira acadêmica ou no mercado empresarial bastava para definir a opção pelo curso

Ocimara Balmant, ESPECIAL PARA O ESTADO

11 Dezembro 2016 | 03h00

Até um tempo atrás, a lógica da pós-graduação era bem simples: quem tivesse o objetivo de atuar como pesquisador e seguir carreira acadêmica deveria se inscrever em um programa de mestrado e, depois, prosseguir os estudos de doutorado. Já aquele que preferisse o mercado empresarial tinha como possibilidade um curso de especialização ou um MBA (Master Business Administration), esse último nos casos em que a perspectiva fosse galgar posições de gestão.

Esse pensamento dualista tem mudado rapidamente nos últimos anos, desde que entrou em cena o mestrado profissional, modalidade que une no próprio nome duas instituições que teimavam em não trabalhar juntas: academia e setor produtivo/empresarial. Desde 2009, quando o formato foi regulamentado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), agência do Ministério da Educação (MEC), a oferta tem crescido exponencialmente: em sete anos, são mais de 600 programas espalhados por instituições públicas e privadas do País.

O objetivo é uma transferência mais rápida dos conhecimentos produzidos na universidade para a sociedade, com formas diretas de vinculação da academia com empresas, agências não governamentais e com o próprio governo.

“O curso tem me possibilitado trazer ferramentas muito qualitativas e com peso acadêmico para o mundo corporativo”, diz Alex Greif, de 41 anos, aluno do mestrado profissional em Comportamento do Consumidor da Escola Superior de Publicidade e Propaganda (ESPM). Greif, gerente de mídias digitais da Sky, pesquisa os impactos das redes sociais na percepção de imagem de marca das empresas. “É a teoria da academia e o pragmatismo do mercado unidos para a tomada de decisão.”

A junção desses dois mundos é a síntese dessa modalidade, mas há outras peculiaridades que delimitam o curso e, principalmente, o diferenciam dos tão propagados MBAs, também criados para atender à demanda do mercado.

"O MBA é mais abrangente e direciona o líder empresarial. Já o mestrado é mais profundo e procura formar o executivo com muito conhecimento da aplicação da teoria em uma visão empresarial”, afirma o professor James Wright, coordenador da Fundação Instituto de Administração (FIA) e criador do primeiro MBA e do primeiro mestrado profissional da instituição. 

Com um MBA no currículo, terminado mais de dez anos antes da matrícula no mestrado profissional, Greif sintetiza: “O mestrado me permite ter um olhar muito cirúrgico sob um tema muito específico. Isso não acontece na pós nem no mercado corporativo”.

De acordo com o objetivo. Em miúdos, a pessoa que quer aprimorar o potencial para atingir posições de liderança, como CEO e nível de diretoria, deve escolher um MBA. Já aqueles que desejam se aprofundar em uma determinada temática da empresa podem optar pelo mestrado profissional e se tornar pesquisador, um profissional que vai produzir conhecimento dentro das corporações. 

Com base nesse diagnóstico, orienta Wright, é preciso critério para garimpar os programas de boa qualidade. “No mestrado profissional fica fácil, já no MBA é preciso ficar atento aos que têm padrão internacional.”

A comparação de Wright diz respeito à regulação. Todos os programas de mestrado profissional são regulados pela Capes, que recomenda e avalia os cursos. No portal da agência é possível conferir as notas dos programas e também relatórios detalhados sobre a qualidade do corpo docente, das instalações e da proposta curricular do mestrado.

Já o MBA, como qualquer outro curso lato sensu, não é avaliado por nenhum órgão governamental. Para oferecê-lo, basta que a instituição de ensino superior seja credenciada no MEC. Isso significa que não é preciso autorização ou reconhecimento do curso, e os estudantes não são submetidos a nenhuma prova que avalie a qualidade do programa. 

Sem regulação, uma das formas para checar a qualidade do curso é consultar a Associação Nacional de MBA (Anamba). A instituição criou uma certificação para os MBAs brasileiros com base em padrões adotados internacionalmente pelas universidades: carga horária, corpo docente, processo seletivo, currículo e instalações. A entidade, porém, ainda tem pouco alcance. Hoje, dos mais de 13 mil programas oferecidos no País, apenas 16 são credenciados.

De olho nos rankings. Um deles é o que Elaine Durazzo escolheu após passar uma temporada de sete anos nos Estados Unidos. “Procurei um que constasse nos rankings estrangeiros e decidi pelo MBA Internacional da FIA porque ele aparece na lista do jornal Financial Times”, diz a engenheira, de 44 anos, que optou pela modalidade para se recolocar no mercado. “Percebi que, ao me candidatar para as vagas mais seniores, uma forma de o mercado qualificar era exigir que tivesse MBA. Para posições de alta gestão, era imprescindível. Sem isso eu não conseguia nem entrar no processo.”

Elaine iniciou o MBA em abril de 2014 e dois meses depois já estava empregada, sem dificuldade para conciliar horário de trabalho com as aulas que aconteciam quinzenalmente às sextas-feiras e aos sábados. Agora já está de malas prontas para voltar aos EUA, onde sabe que o certificado do curso será reconhecido. 

A fama de “cupido dos negócios” é tão estabelecida que há até quem diga que o principal diferencial de um curso de MBA é a troca de contatos e, por consequência, o convite para uma mudança de emprego ou para uma parceria em um novo empreendimento. Tanto que cursar um MBA está entre as estratégias mais indicadas por especialistas para essa guinada profissional.

Um panorama muito diferente daquele que se observa nos cursos de mestrado profissional, em que a ênfase no trabalho criterioso e por vezes solitário de pesquisador se sobrepõe a qualquer outra atividade. “Afinal, o aluno é um cientista. Tem o perfil mais prático porque vai aplicar o resultado de sua pesquisa na empresa, mas não deixa de ser um cientista”, afirma o diretor acadêmico de Pós-Graduação da ESPM, Edson Crescitelli.

Foi exatamente o que fez Luis Nascimento, estudante do mestrado profissional em Engenharia de Produção da Faculdade de Engenharia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), do câmpus de Guaratinguetá, interior paulista.

Funcionário de uma montadora de caminhões, ele pesquisou os fatores que influenciam a flexibilidade da produção de veículos comerciais. A proposta de pesquisa, como deve ocorrer nos mestrados profissionais ofertados pelas universidades públicas, foi desenhada em parceria entre a empresa e a universidade, e o processo seletivo foi convencional, com prova, entrevista e análise de projeto.

Durante os dois anos em que desenvolveu sua pesquisa, Nascimento foi acompanhado pelo orientador e por um mentor da empresa.

“A função desse sponsor era adequar a pesquisa à demanda da empresa. Mas o rigor científico e o trabalho de desenvolver em mim a capacidade de pesquisar vieram da academia, do orientador”, conta Nascimento, que defendeu a dissertação em maio, após dois anos de estudo.

A parceria deu tão certo que ele recebeu o Prêmio da Associação Brasileira de Engenharia de Produção (Abepro) de melhor dissertação de mestrado profissional. 

Parceria. Fazer o casamento da empresa com a academia sem que se coloque em xeque o rigor científico é o grande desafio dos mestrados profissionais. A pró-reitora de pós-graduação da Unesp, Lourdes Aparecida Martins dos Santos-Pinto, explica que, no caso das universidades públicas, que não podem cobrar mensalidade, os programas são desenhados de forma que a instituição de ensino forneça a estrutura de laboratórios e o corpo docente e que, por outro lado, as empresas ou outros órgãos governamentais financiem os custos com as pesquisas e as bolsas de estudo. “O curso tem de ser autossustentável”, afirma a pró-reitora.

Atualmente, a Unesp oferece 20 programas de mestrado profissional, todos eles analisados por uma comissão interna que valida uma série de pré-requisitos antes que o curso seja oferecido. Todos eles também são avaliados pela Capes.

“A concepção é a seguinte, em um exemplo simples: existe um ex-aluno que foi trabalhar em uma empresa de aço e, de repente, resolveu produzir aço inoxidável colorido. Apesar de ser caro, ele conhece professores que podem trabalhar em um projeto assim. O problema vem da indústria, e a solução é encontrada na universidade”, afirma Lourdes.

ENTREVISTA

'No Brasil, tudo se tornou MBA’

Marcelo Boschi, pesquisador de educação executiva

Apesar de a proposta ser distinta, o mestrado profissional tem se tornado o destino de um contingente de profissionais que teme pela qualidade dos programas de MBAs. A opinião é de Marcelo Boschi, pesquisador da história da educação executiva no Brasil, que estuda a expansão dos MBAs em sua tese de doutorado.

Quando surgiram no Brasil, há cerca de 30 anos, os programas de MBA eram escassos e se restringiam aos grandes centros. Com o tempo, a modalidade tornou-se sinônimo de status, principalmente no meio empresarial, e a oferta foi ampliada de forma vertiginosa: hoje são mais de 13 mil programas, a maioria deles de qualidade duvidosa. Um cenário que, segundo Boschi, é resultado de um processo simultâneo de banalização e canibalização.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista que o pesquisador concedeu ao Estado:

Como se dá essa migração do MBA para o mestrado profissional?

Ocorrem duas coisas em paralelo: por um lado, a banalização do produto MBA - na medida em que cresceu a oferta de muitos cursos, um número progressivo de pessoas passou a adquirir um certificado de especialista - e, por outro, a expansão do mestrado profissional, que tem processos de entrada mais sofisticados e mais caros e, consequentemente, são muito mais restritos. Quando é lançado um produto mais sofisticado, há uma parte do público que entende valor pelo preço. Um mestrado profissional custa em média R$ 80 mil e um MBA, entre R$ 25 mil e R$ 35 mil. Houve uma banalização e uma canibalização.

Como o sr. percebeu esse processo?

Quando comecei a lecionar, nos anos 1990, eu tinha quase 40 anos e grande parte dos meus alunos de MBA eram mais velhos do que eu. Eram pessoas que haviam se formado em diversas graduações e estavam revendo seus diplomas com base em uma formação em business. Havia uma demanda reprimida. Hoje, eu olho para a sala de aula e vejo muitos jovens. Há uma demanda do mercado para que o jovem recém-formado ingresse numa pós-graduação e, como os critérios para chamar uma pós de MBA são pífios, tudo se tornou MBA. O nome ajuda a vender. 

Tem o apelo do networking...

Exato. A questão é que networking não é justificativa acadêmica aqui nem em lugar nenhum. No entanto, no Brasil, fazer MBA tem várias vantagens, mas não necessariamente os ganhos intelectuais, acadêmicos e gerenciais que deveriam ocorrer. A capacidade de reflexão e de entender o mundo está muito além do que os programas propõem. É daí que surgem as perguntas que busco responder em minha tese: nos MBAs do Brasil, o que se ensina, para quem se ensina e por que se ensina? Salvo algumas exceções, a utilidade comercial é obvia. É só olhar nos números. Qual MBA no Brasil exige uma prova de ingresso?

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