FABIO MOTTA/ESTADÃO
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Com pós, esporte abandona o improviso para ganhar eficiência

Profissionalização e capacitação são as novas palavras de ordem para atender a um mercado cheio de oportunidades no País

Ana Carolina Neira, Especial para o Estado

26 Janeiro 2016 | 03h00

A realização da Copa do Mundo no Brasil, em 2014, e dos Jogos Olímpicos no Rio, neste ano, estão provocando uma mudança expressiva em um segmento ainda pouco explorado no País: o setor de esportes. Carente de profissionalização, mas com demanda de profissionais capacitados, o mercado agora exige menos improviso e mais eficiência. Não à toa, os cursos de pós-graduação na área de gestão esportiva estão atraindo a atenção de profissionais do esporte e de quem sempre nutriu curiosidade pelo setor. 

Responsáveis por uma formação bastante abrangente, que vai do marketing esportivo ao gerenciamento de arenas de futebol, os cursos garantem mais do que aprimoramento. Eles também estão focados no desenvolvimento de novas habilidades.

personal trainer Rafael Meirelles, de 30 anos, dá aulas em uma academia na zona sul do Rio. Como profissional, sentia falta de algo a mais no seu dia a dia quando decidiu cursar a pós-graduação em Gestão e Marketing Esportivo do Ibmec/RJ, há cerca de um ano. “Foi na pós que eu descobri coisas como planejamento estratégico e gestão de marcas, que eu não tinha visto quando cursei a faculdade de Educação Física.”

A formação na área de gestão esportiva trouxe novas possibilidades para Meirelles. “Fui me descobrindo dentro do curso. Hoje penso que os grandes eventos são boas oportunidades de trabalho, especialmente a área de planejamento. Ele (o curso) serve tanto para o educador físico quanto para o administrador.”

Para ele, a importância dessa pós está na profissionalização do setor e nas demandas que surgem com essas mudanças. “Aqui nós temos uma formação abrangente, que ainda falta no mercado. As disciplinas, como estratégia empresarial voltada ao esporte, por exemplo, são aplicáveis de várias maneiras. Tivemos aulas com um professor membro do Comitê Olímpico Brasileiro, discutimos casos reais em sala de aula.”

Além dos eventos. O criador e coordenador da pós-graduação em Gestão e Marketing Esportivo do Ibmec/RJ, Sylvio Maia, atua há mais de 20 anos na área. Para Maia, o Brasil vive a sua década de ouro da gestão esportiva. “Vimos que este curso era muito pertinente, ainda mais em uma cidade como o Rio, prestes a receber a Olimpíada.”

Os eventos de grande porte, além de fomentar o mercado antes e durante sua realização, são uma espécie de celeiro de oportunidades até mesmo quando acabam. “Olha a quantidade de arenas construídas, elas precisarão de gestores e esse é apenas um exemplo.”

Para quem acredita que o campo de atuação dos gestores esportivos é limitado, Maia faz uma ressalva. “A história não acaba aí, até porque virão outros eventos para o País. Com aulas de planejamento comercial, políticas públicas do esporte e marketing, o profissional qualificado consegue entender a indústria do esporte com uma visão empreendedora.”

Empregabilidade. Em tempos de desemprego, o gerenciamento esportivo desponta como alternativa de grande potencial para profissionais ou até mesmo para quem deseja empreender. “Nosso foco é fazer com que as pessoas saiam do curso maduras para buscar seu próprio negócio. Há dez anos era impensável criar cursos só para a área esportiva, mas hoje é necessário.”

De acordo com o coordenador, o curso não garante empregabilidade, mas a abrangência das disciplinas e o networking colaboram para a formação dos estudantes e ampliam o número de oportunidades. “Empresas de marketing esportivo absorvem muita mão de obra, assim como os grandes complexos de treinamento esportivo.” 

Embora não seja garantia de emprego, Maia relembra que na época da Copa, um professor levou mais da metade da turma para trabalhar com ele. “Essa busca por pessoas para cargos de gerência é um movimento normal nas escolas de gestão.”

Desde o ano passado, o coordenador observou um aumento de 18% na procura pelo curso, que forma cerca de 60 alunos por ano.

“Uma parte da turma é formada por profissionais de educação física em busca de aprimoramento e a outra por pessoas que desejam migrar de área.”

Dificuldades. Como todo setor, esse tem seus gargalos. O educador físico Samuel Aguilar, de 36 anos, enfrenta o mais representativo deles. O professor cursou a pós-graduação em Administração e Marketing Esportivo da Estácio de Sá, em São Paulo. Apesar da formação, ele trabalha na área de contabilidade. 

Aguilar, como outros profissionais, ainda não está seguro para arriscar uma mudança definitiva e migrar para o mundo esportivo. “Minha vontade é administrar uma academia ou clube. Mas é complicado trocar o certo pelo duvidoso.” 

Segundo ele, outros colegas passam pela mesma dificuldade. “Até há pessoas trabalhando com esportes, mas conseguir entrar pode ser difícil.”

Turismo. Eventos de grandes dimensões, como uma Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, influenciam diretamente no setor de turismo. A procura por capacitação na área é semelhante aos cursos de pós-graduação em gestão esportiva. O perfil dos profissionais também, afirma Davi Poit, professor da disciplina de Eventos Esportivos no curso de pós-graduação em Planejamento e Organização de Eventos da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap).

“Em comum, todos os alunos possuem a percepção de que uma formação acadêmica sólida é essencial para sua sobrevivência profissional. Há aqueles que aproveitam o curso para uma recolocação e outros que querem empreender na área abrindo agências, microempresas, assessorias e afins.”

A complexidade e abrangência dos grandes eventos exigem profissionais bem preparados, dentro e fora da sala de aula. “Eles (os eventos) requerem gente de alto gabarito para as mais diversas áreas, junto ao padrão imposto pela Federação Internacional de Futebol (Fifa) e pelo Comitê Olímpico Internacional (COI). As áreas de eventos, hotelaria e turismo são catapultadas com essas competições.”

O professor também afirma que as oportunidades de trabalho são variadas, deixando de lado a ideia de que apenas os hotéis e agentes de turismo conseguem destaque. “Há opções no mercado corporativo, de luxo, nas indústrias, clubes esportivos, governo. Tudo depende de um bom projeto, criatividade e empreendedorismo.”

Segundo Poit, a realização da Olimpíada neste ano deve impulsionar o setor. “Historicamente há uma elevação nas taxas de turismo nas cidades-sede. Isso acontece por causa da publicidade em torno desses lugares, da melhoria de aeroportos, mobilidade urbana e ampliação das opções de hospedagem.”

Entrevista: Focar na qualidade vai manter mercado em alta

Para Fábio Wolff, professor do MBA de Marketing Esportivo da Trevisan Escola de Negócios, maior desafio do segmento é formar profissionais mais eficientes

A Copa do Mundo e a Olimpíada são responsáveis por impulsionar o segmento esportivo no País. No entanto, para manter o mercado aquecido e a procura por profissionais da área em alta, é fundamental valorizar a qualidade, explica Fábio Wolff, professor do MBA de Marketing Esportivo da Trevisan Escola de Negócios e dono da agência Wolff Sports & Marketing.

Como você vê o mercado nacional de gestão esportiva?

Ele está mais profissionalizado, mas aquém do ideal. O modelo mais avançado é o dos Estados Unidos. Aqui, infelizmente, podemos dizer que a área ainda é semiprofissional. Os americanos chegam a investir 10% do bolo publicitário em esporte, por exemplo, uma cultura que não temos no Brasil.

Quais são as maiores fragilidades do País nesta área? 

Este é um mercado que carece de profissionais especializados. Falta mão de obra qualificada aqui. Quem faz cursos na área de gestão está se profissionalizando. E quanto mais rápido isso acontece, mais o mercado se desenvolve e absorve profissionais. Assim também cria-se um ambiente melhor para o exercício da profissão. Todo mundo deseja trabalhar num mercado profissionalizado e com potencial.

A Copa do Mundo e a Olimpíada colaboram para o setor crescer?

Sem dúvidas. Com esses eventos tivemos estádios construídos e remodelados. Investimentos propiciam oportunidades e abrem possibilidades para o mercado. Esperamos que aconteça no Rio o mesmo que ocorreu em Barcelona após os Jogos Olímpicos de 1992, onde o legado deixado beneficiou tanto o turismo quanto o segmento esportivo. Vale lembrar que em 2019 teremos a Copa América no Brasil. Embora esses eventos aqueçam o mercado, eles duram pouco tempo. Assim, a gestão esportiva é a grande responsável por manter a demanda interna após a passagem das competições.

Existem bons exemplos de gestão esportiva no Brasil? 

Sim. A Arena Corinthians é um deles. A média de público do local vem crescendo. Mas ela só cresce porque trata-se de um estádio bem gerenciado. Além da estrutura, quando há serviços como lojas e restaurantes em um lugar assim, estão oferecendo outro tipo de atendimento ao cliente. E tudo isso exige uma boa gestão. O Campeonato Brasileiro é outro exemplo. Ele atraiu muitas pessoas aos estádios, mais do que em anos anteriores. Isso significa que o torcedor tem recebido um serviço melhor quando vai assistir a uma partida. Espero que com bons profissionais nesta área a gente consiga utilizar os espaços destinados aos Jogos Olímpicos de maneira adequada após o evento. Mas, por enquanto, isso ainda é uma interrogação.

Depoimento: ‘Consegui abrir minha empresa’

Everton Coelho Goulart, pós-graduado em Marketing Esportivo na Estácio de Sá

“Eu sou formado em Educação Física. Por dez anos trabalhei na área de administração de clubes esportivos. Mesmo atuando no campo de minha formação, sentia necessidade de me aperfeiçoar, de evoluir profissionalmente. Pesquisei cursos que atendiam às minhas demandas e fiquei com muita vontade de fazer uma pós-graduação em Administração e Marketing Esportivo. Como eu já trabalhava com grandes eventos, concluí que este era o curso era ideal. 

E em 2012, finalmente, comecei os estudos. Não foi fácil. Por questões pessoais precisei trancar minha matrícula por um ano. Mas nunca pensei em desistir. Eu sabia que seria muito importante para minha carreira. 

No meu dia a dia, trabalho com várias vertentes do esporte. Tem prática escolar, ginástica, atividades para a terceira idade, formação de atletas profissionais, realização de eventos. Também acompanho de perto atletas de várias áreas, como luta olímpica e natação. 

Sempre achei fundamental ter conhecimento em diversos seguimentos para ser um profissional completo. Essa forma de pensar me ajudou, principalmente nos últimos anos. Além de crescer profissionalmente, ampliar base técnica e teórica, pude aplicar o que aprendi em aula no trabalho e na realização de um sonho.

Durante a Copa do Mundo, pude testar o que estava aprendendo em ações relacionadas ao evento dentro do meu trabalho. Nesse ano, com certeza, também farei algo relacionado à Olimpíada. Isso pode se dar de várias formas, como usar o tema em, por exemplo, atividades escolares com crianças e adolescentes, com programas e serviços. 

A pós-graduação também me abriu os olhos para ver que existiam oportunidades para montar meu próprio negócio. Além do meu trabalho, tenho uma empresa de consultoria que atua dentro de condomínios em São Paulo, oferecendo serviços de personal trainer aos moradores. 

Quando penso nisso tudo percebo como o curso me ajudou. Foi por meio dele que ganhei uma base muito boa, principalmente na parte administrativa. A parte prática eu já tinha conhecimento, mas hoje me sinto preparado para fazer mais coisas por causa dessa formação abrangente. 

Estou satisfeito com o meu trabalho. Mas sei que no futuro posso ter minha própria franquia na área esportiva, pois aprendi a desenvolver uma visão mais ampla da parte administrativa e empreendedora. 

A pós-graduação também colaborou muito na organização do meu trabalho. Além de repertório teórico, ganhei uma base técnica muito boa. Acredito que um curso desse tipo ajuda bastante quem trabalha na administração do esporte. Para mim, essa pós foi essencial para criar e melhorar meus métodos de trabalho, assim como a maneira como gerencio o meu trabalho e a empresa. Sem dúvidas, o curso de Administração e Marketing Esportivo complementou muito bem a minha formação. Estou bem satisfeito com os resultados. E é por isso que eu recomendo aos colegas da mesma área.”

SERVIÇO

Ibmec

Curso: Pós-Graduação CBA Gestão e Marketing Esportivo

Duração: 12 ou 18 meses (depende do período) 

Vagas: Não divulgado 

Inscrição: Aberta até 25/3

Seleção: Análise de currículo e entrevista 

Custo: Não divulgado 

Início das aulas: 28/3

Site: ibmec.br

Estácio de Sá

Curso: Pós-Graduação em Administração e Marketing Esportivo

Duração: 18 meses

Vagas: 50 

Inscrição: Sob consulta (taxa de R$ 120) 

Seleção: Análise de currículo 

Custo: 19 parcelas de R$ 289, ou 24 parcelas de R$ 250 

Início das aulas: Sob consulta 

Site: posestacio.com.br

Faap

Curso: Pós-Graduação em Planejamento e Organização de Eventos

Duração: 18 meses 

Vagas: 40 

Inscrição: Aberta até 29/2

Seleção: Análise de currículo, carta de interesse e entrevista (em alguns casos)

Custo: R$ 21 mil (ou 18 parcelas de R$ 1.297,05 ou 24 parcelas de R$ 1.005,08) 

Início das aulas: 8/3

Site: pos.faap.br

Senac

Curso: Pós-Graduação em Gestão do Esporte

Duração: 18 meses 

Vagas: 20 

Inscrição: Aberta até 29/2 (taxa de R$ 50) 

Seleção: Entrevista 

Custo: 20 parcelas de R$ 450

Início das aulas: 17/3

Site: sp.senac.br

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