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Coisas que eu queria saber aos 21: Oscar Vilhena Vieira

Diretor da Direito GV conheceu Egito, Itália, Iugoslávia, Turquia e Israel

Estadão.edu

12 Dezembro 2011 | 22h12

"Em janeiro de 1987, aos 21 anos de idade, desembarquei na Praça da Liberdade (Tahrir), coração do Cairo, no meio da madrugada. A mochila pesada e o bolso vazio. Lá não havia revolução. Apenas alguns militares zanzavam e fumavam com seus uniformes rotos e armas que me pareciam antigas.

 

Na época não me dei conta do que verdadeiramente guardavam. Vinha de uma pequena jornada na Itália, Iugoslávia e Turquia e seguiria para Israel. Aos 21 anos queria estar fora de lugar. Ser estrangeiro. Ter a possibilidade de me reinventar.

 

Constituinte. De volta ao Brasil, embora aqui também não houvesse revolução, vivíamos um dos momentos mais vibrantes de nossa história política, especialmente para um aluno de Direito, que, com tantos outros, fora às ruas pelo fim da ditadura. Era o início de um processo constituinte que canalizou as principais forças políticas reprimidas durante o regime militar.

 

A sociedade brasileira parecia também querer se reinventar, mostrando uma enorme pluralidade e vitalidade. A Constituição de 1988 foi a resultante do momento de maior intensidade de nossa democracia nestes 500 anos, determinando o marco institucional a partir do qual o Brasil passaria a se articular nas décadas seguintes.

 

Hoje tenho a convicção que minhas escolhas profissionais e acadêmicas estão intimamente relacionadas ao impacto desses eventos sobre meus 21 anos. Na Faculdade de Direito da PUC-SP, sob a orientação de minha mais querida professora, Leda Pereira da Motta, realizei dois projetos de iniciação científica, que tinham como tema a eficácia da Constituição e dos Direitos Fundamentais.

 

Clássicos. Da graduação parti, diretamente, para o mestrado em Ciência Política na USP, onde aprendi que o fim do regime militar não seria necessariamente o início da democracia e do Estado de Direito. Na FFLCH li os clássicos, tomei contato com o pensamento crítico, mergulhei no pensamento político brasileiro.

Com esta bússola, passei a me localizar com maior segurança. Depois do mestrado prossegui meus estudos na Universidade de Columbia, em Nova York, onde elaborei minha tese de doutoramento.

 

Naquele momento tive a certeza de que jamais sairia da universidade. Mas que apenas seria possível permanecer nela se fosse possível conjugar a pesquisa e a docência com uma atuação profissional e política voltada à reforma das instituições e ao aprofundamento do Estado de Direito.

 

Ao lado de inúmeros amigos que fiz aos 21 anos, pude participar da criação de iniciativas e organizações como a Conectas Direitos Humanos, o Instituto Pro Bono de Advocacia Solidária e a própria Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas, que hoje se concentra em formar uma nova geração de juristas que dê conta dos desafios brasileiros no século 21.

 

Sem medo. Em todas essas esferas tenho tido o privilégio de continuar dialogando diariamente com muitos outros jovens de 21 anos que, quando me perguntam o rumo a tomar, sempre respondo: sejam radicalmente fieis aos seus sonhos, buscando construir uma vida que verdadeiramente valha à pena. E se eventualmente algo não der certo, jamais tenham medo de se reinventar."

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