Divulgação/Estadão
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Coisas que eu queria saber aos 21: Maurício de Sousa

Cartunista e empresário conta que era repórter de polícia, se transformava em personagem, mas já sonhava em criar quadrinhos

O Estado de S. Paulo

09 Dezembro 2014 | 03h00

SÃO PAULO - "A vida era uma dureza aos 21 anos. Quando vim para São Paulo queria trabalhar com desenho, mas não consegui e fui ser outra coisa. Tinha vaga na redação e me tornei repórter policial. Não ganhava muito bem, mas era divertido. Acabei virando personagem de história em quadrinhos. Para ficar melhor posicionado, comprei um chapéu e uma capa de detetive americano e saía por aí fantasiado de policial. Era a maneira de ter uma capa de super-homem, uma roupa de invulnerável. Ficava tímido sem a capa, sem a indumentária, tinha receio de chegar em um delegado, de estar com o bandidão e falar com ele.

Lia muito, o que me ajudava bastante, embora no começo, quando escrevia com meu português de Eça de Queiroz e de Machado de Assis, o pessoal vinha e cortava tudo: ‘Não pode adjetivo. É o que, quando, como, onde e por quê’. Foi um crescimento normal, sem atropelos. Ia assimilando e processando cada aprendizado para não pular etapas. Era uma época de ambições, sonhos, preparos e de esperança.

Desde aquele tempo já sonhava em fazer o que faço hoje: história em quadrinhos e desenhos, e viver disso, mas estava longe ainda. Sabia que seria difícil. Na redação em que trabalhava, eu estudava como atuavam os quadrinistas que mandavam material para o jornal: como vendiam, como se empunham, como era o marketing. Solicitava ao chefe de redação todo o material que chegava para aprender e saber como era isso. Sonhava com muita certeza de que conseguiria.

Às vezes, ilustrava matérias. Quando o fotógrafo não conseguia retratar o rosto de um bandido, fazia o retrato falado ou o local do acidente. Ele fotografava e eu reproduzia. Assim, meus editores viram que eu desenhava. Era o que eu queria.

Eu também lia muito quadrinho americano e tinha meus heróis e desenhistas prediletos. Estudava o estilo de cada um e ia juntando peças, treinando desenhos para ter o meu traço. Depois de quatro anos, comecei a criar a história do Bidu e do Franjinha. No início, o desenho era bem primitivo, mas era o que podia e conseguia fazer. Se não fosse aquele menino de 21 anos, eu não estaria aqui. E se ele não fizesse aquilo que fez, eu não estaria aqui ‘completão’ do jeito que estou agora.

Meus sonhos foram realizados um pouco além da conta, até agradeço. Precisei colocar o pé no freio porque as expectativas eram muito altas e eu estava - e estou - em um País meio difícil. Faltam tecnologia, investimentos, falta isso, falta aquilo. E você tem de ir dançando conforme a música e, afinal de contas, estamos em um País musical. O negócio é aprender a dançar.

Aos jovens de 21, diria para não parar de sonhar, de ter suas metas. Não tire os olhos do foco e acredite no que é seu futuro. Não desista de jeito nenhum, não desanime.” /DEPOIMENTO A GUILHERME SOARES DIAS, ESPECIAL PARA O ESTADO

 

 

 

 

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