Clayton de Souza
Clayton de Souza

Coisas que eu queria saber aos 21: José Celso Martinez Correa

O teatrólogo formou-se em 1960 na Faculdade de Direito da USP

29 Janeiro 2013 | 04h18

"Nesses tempos todos os tempos eram livres, mesmo na Faculdade de manhã, já éramos a turma do Oficina, os meninos e meninas da Bigorna nos adorávamos, nos descobrimos como Geração! Dormíamos juntos, com óculos pretos, nas fileiras de trás, bem no alto da arquibancada das salas de aula. Estas tinham mais de 200 pessoas e os Catedráticos nos embalavam sempre com as mesmas sonolentas cantigas-aulas q eles decoravam e repetiam por gerações e gerações.

Essas Cantigas pra dormir viravam “Apostilas”, reproduzindo todas “ipsis litteris” o texto dados nas aulas orais.

Íamos para os Exames virados. Sabíamos q sempre para passar de ano tínhamos q afirmar q “in medium est virtus” (“a virtude está no meio”). Sempre tínhamos q defender a mediocridade de nos posicionar como “extremistas do centro”.

Entre Engenharia, Medicina, Odontologia, o Curso de Direito era o refúgio dos homens e mulheres que não tinham vocação para a carreira acadêmica. Os pais sabiam disso, queriam somente q pelo menos os filhos se formassem na Universidade. E eles tinham razão. Mesmo o curso não sendo lá essas coisas, o encontro entre pessoas de sua geração que acabam estudando aquilo que mais phala às suas libidos é um privilégio a q até hoje poucos brasileiros, injustamente, têm acesso.

Líamos muito. Nem Comunistas nem Capitalistas, éramos existencialistas brasileiros, estudávamos muito uma posição original para o Brasil.

O Teatro em SamPã era ótimo, íamos ver as atrizes Cacilda Becker, Maria della Costa,Tônia Carrero, o Teatro de Arena, as cantoras nas Boites: Isaurinha Garcia, a DIVA DAS DIVAS, Dalva de Oliveira, Maysa,Aracy de Almeida...

Os grandes músicos instrumentistas da bossa nova no João Sebastião Bar, na Baiuca, o jazista Booker Pitman no Cave... Muitos filmes nos Palácios-Cinemas, como o magnífico Ipiranga, na Bienal q trazia todos os filmes soviéticos de Eisenstein, Dziga Vertov e nos cinemas de Arte da 7 de abril, q passavam o grande cinema Europeu. Depois íamos beber Pernod no Paris Bar. Adorávamos a sauna do Hotel Danúbio.

Depois que consegui realizar alguma coisa até o fim (nunca conseguia), escrevi em 40 minutos Vento Forte para um Papagaio Subir aos 21 anos. Desejei dar minha vida ao Teat(r)o.

Quanto aos Tribunais, só gostei dos que vi, onde grandes advogados julgavam personagens: Hamlet – com Sergio Cardoso como a personagem no Banco dos Réus – ou o Monstro Sagrado Henriette Morineau como ré: Rainha Elisabeth da Inglaterra.

Diria aos jovens q sentem dentro de si o chamado do Teat(r)o O mesmo q Cacilda Becker me disse: “Tenha absoluta confiança no seu desejo.” Ela dizia: “O único pecado do ser humano jovem é a falta de confiança em si mesmo, no q lhe phala o desejo, o único pecado q existe.” E cantaria mais uma vez com Cacilda: “Saio quando quero, durmo com quem quero, vida de artista, não há melhor vida q exista.”

 

ONTEM E HOJE: AS MUDANÇAS NAS PAIXÕES E ÍDOLOS DE ZÉ CELSO DESDE OS ANOS 50

Eu lia Sartre e Stanislavski

Eu leio Oswald de Andrade e ‘Eisenstein Ultrateatral’ de Vanessa Teixeira de Oliveira

Eu acreditava que minha vida ia ser dada ao Teatro depois de compor a música e o texto de “Vento Forte pra um Papagaio Subir”

Eu acredito que minha vida está há 54 anos muito bem dada ao Teatro

Meu ídolo era Isaurinha Garcia

Meu ídolo é a Universidade Antropófaga do Oficina Uzyna Uzona

Eu via o Brasil como quem confiava, estudava e lutava para q o Brasil se descolonizasse de vez

Eu vejo o Brasil como um país q tem um Teatro de Exportação Extraordinário

Mais conteúdo sobre:
21 josé celso

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.