Coisas que eu queria saber aos 21: Charles Esche

"Se não consegue imaginar o mundo de uma maneira diferente, você não pode mudá-lo", diz curador da 31ª Bienal de São Paulo

O Estado de S. Paulo

17 Outubro 2014 | 23h00

Sergio Castro/Estadao

 Era 1984, eu morava em Manchester e estava terminando o curso de Estudos Medievais na universidade. Queria entrar para a política, e estava focado basicamente nela e em música. Nós tínhamos uma banda em Manchester e uma parte de mim gostaria de lançar CDs. Mas nos separamos um ano depois. Gostávamos da amizade, e isso era importante, como o cenário musical de Manchester da época, que era forte, com bandas como New Order.

Eu estava muito envolvido na greve dos mineiros do Reino Unido, e a maior parte do tempo era gasta defendendo os direitos deles. Havia muitos protestos e confrontos com a polícia. Você tinha de entender o Estado e a informação que estava recebendo. E é tudo propaganda, essencialmente. Você precisa distinguir a propaganda na qual quer acreditar ou não.

Eu era meio idealista e achava que política era uma maneira de influenciar o mundo. Desisti de tentar fazer a diferença, porque era algo que obviamente eu não conseguia fazer. Hoje as pessoas entram na política para enriquecer. Aos 21 anos, eu comecei a perceber que a arte era um lugar mais interessante para estar, porque na arte você pode imaginar o mundo, enquanto na política você tende a se comprometer com líderes e partidos, e fica mais restrito.

A arte cria a imaginação que pode levar à mudança. É impossível fazer algo que você não imaginou. Quando olhamos para uma obra, o que recebemos de volta é uma mudança de imaginação; é o poder de ver o mundo de uma maneira diferente da que víamos antes de a observarmos. Isso leva ao crescimento pessoal, a um pensamento crítico, a refletir sobre a situação em que você está e não apenas aceitá-la. A arte tem esse papel no processo de mudança social. Nem sempre é suficiente, mas é um componente necessário.

Eu diria ao Charles de 21 anos que fosse mais confiante, que começasse a viajar mais cedo. Tente e faça tudo o que você quiser para aumentar sua perspectiva e encontrar culturas e situações diferentes. E algo que eu aprendi ao longo dos anos é: tudo bem se as pessoas não gostarem de você.”

Depoimento a Ana Gabriela Verotti, especial para o Estado

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.