'Chave para sucesso é autonomia', diz editor de ranking universitário

Para especialista, universidades podem receber financiamentos mistos, assim como já é feito em instituições renomadas pelo mundo

Entrevista com

Phil Baty

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

03 Dezembro 2014 | 18h30

Na segunda edição do ranking The Brics & Emerging Economies -Times Higher Education (THE), que avalia universidades nos países emergentes, a USP ficou entre as 10 melhores instituições, uma posição à frente em relação a 2013. As outras três que aparecem no top 100 - Unesp, Unicamp e UFRJ, no entanto, perderam posições. Leia trechos da entrevista com o editor do ranking, Phil Baty.

As três universidades estaduais enfrentaram quase quatro meses de greve neste ano. Alguns estudantes chegaram a afirmar que isto poderia desencorajar a entrada de novos alunos na instituição. Isto poderia reduzir a posição das universidades no ranking?

Neste ano não haveria relação por causa da data em que os dados foram coletados. Mas seria interessante acompanhar as tabelas dos próximos anos, uma vez que os efeitos destes eventos tiveram a chance de repercutir, e ver se as circunstâncias locais terão efeito geral sobre as instituições. É possível que elas surtam efeito em como a universidade será vista na comunidade acadêmica internacional (afetando nosso indicador de reputação) e também pode haver alguma mudança na qualidade de pesquisa que a universidade está produzindo.

Há uma discussão em São Paulo sobre aumentar o repasse dado às universidades, que é baseado em um porcentual do ICMS. Em crise, a USP já consome 106% de seu orçamento só na folha de pagamento de seus funcionários. Aumentar os gastos gera uma melhoria direta nos índices? Como se dá esta relação em outros países?

As universidades de todo o mundo precisam de altos níveis de financiamento - este é um ingrediente essencial. Se este financiamento parte de mensalidades ou suporte estatal, por meio de entidades filantrópicas ou empreendedoras, isto é menos importante. O fundamental é que o financiamento seja abundante. Algumas das universidades mais bem sucedidas possuem uma mistura saudável de todos estes aspectos, o que também significa que elas não são tão dependentes de apenas uma fonte, o que as torna flexíveis e competitivas.

Então enquanto mensalidades podem ser controversas e causar preocupação para alguns estudantes, no geral (e enquanto forem administradas corretamente e houver mecanismos de proteção para aqueles que não possam pagar esta mensalidade) , elas podem ser parte de uma mistura saudável de recursos que podem realmente ajudar as universidades a se tornarem bem sucedidas.

O que o baixo número de universidades brasileiras no ranking pode indicar?

É uma boa notícia que a USP tenha entrado para o top 10, mas moveu-se apenas em uma posição e outras universidades tiveram pequenos declínios. Isto não significa uma crise e até mostra certa estabilidade, no geral, mas há alguns sinais de alerta.

Talvez o fator mais importante que ajude a universidade a alcançar altos padrões internacionais é atrair os melhores talentos do mundo. Os melhores intelectuais e professores no mundo têm grande demanda, então é frequente que tenham maiores salários e queiram recursos significativos.

Uma razão pela qual as universidades privadas líderes dos EUA tendem a ficar no topo da tabela é a capacidade de oferecer condições de trabalho extremamente atrativas para as “estrelas” globais. Tetos salariais ou salários não competitivos em nível global, podem não só desencorajar estas lideranças, mas também estimular que façam suas carreiras em outro país. A chave é a autonomia institucional - a decisão dos salários e bonificações apropriados deve partir das lideranças da universidade, para assim construir as melhores equipes e instituições mais fortificadas.

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