Céu de brigadeiro no mercado aéreo do País

Carreiras de engenharia aeronáutica e espacial vivem momento de pleno emprego

Lilian Primi, O Estado de S. Paulo

13 Dezembro 2010 | 11h10

Se encontrar engenheiros está difícil, para o setor aéreo é impossível. O Brasil forma pouco mais de 70 engenheiros aeronáuticos por ano,  mas precisa de 150. E também de outros 120 especializados em engenharia espacial, para atender à demanda do Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE).

 

A engenharia aeronáutica compete com a eletrônica pelo posto de elite das engenharias. Com o crescimento da indústria espacial no Brasil, surge uma classe que será a elite dessa elite, os engenheiros aeroespaciais. Em 2005, segundo estudos feitos pela Agência Espacial Brasileira, eles eram 3,1 mil, “absolutamente insuficientes” segundo a avaliação da época.

 

Profissionais de alto desempenho, eram formados em extensões da graduação de engenharia aeronáutica, até pouco tempo exclusivamente oferecida pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) e pela Universidade de São Paulo (USP) de São Carlos. A demanda gerada pelo PNAE levou à criação, no ano passado,  do primeiro curso de graduação em engenharia aeroespacial, no ITA, coordenado pelo tenente-coronel André Pierre Mattei. “A primeira turma, com  dez alunos, veio das outras engenharias. Este ano teremos o primeiro vestibular”, conta.

 

Além disso, a engenharia aeronáutica da USP de São Carlos está criando uma especialização em aeroespacial e há mais duas universidades investindo na  área. “Hoje, existem cursos na Universidade Federal de Minas Gerais e na Universidade de Brasília. São graduações em engenharia aeronáutica, mas eles também  estão construindo foguetinhos, o que significa que estão entrando na área espacial”, diz Mattei.

 

Mestres. O número reduzido de vagas não é devido à falta de interesse dos estudantes. “Não temos professores  capacitados, nem vagas no alojamento. Existem planos de médio e longo prazo para ampliar essa estrutura, mas isso implica em investimentos”, afirma Mattei.  Além disso, o coordenador diz que há um grande número de professores e pesquisadores próximos da aposentadoria compulsória, no ITA e no Centro Técnico  Aeroespacial (CTA).

 

A falta de professores também ocorre de forma grave na USP. “Temos uma vaga para professor de aviônica (voltada para os equipamentos de bordo) aberta há seis anos e uma dificuldade crescente em manter o estudante na academia, o que levaria à formação de novos professores”, conta o  coordenador do curso de engenharia aeronáutica de São Carlos, Fernando Martini Catalano. Segundo ele, o maior problema é o salário. “Enquanto  as bolsas de mestrado e doutorado não passam de R$ 2 mil mensais, o mercado paga salários de R$ 4 mil a R$ 7 mil para engenheiros aeronáuticos. Fica difícil  segurá-los aqui.”

 

Vaga garantida. As carreiras de engenharia, seja na indústria espacial ou aeronáutica, oferecem pleno emprego. “Todo mundo  sai empregado daqui, mesmo nas demais engenharias. Quem se forma pelo ITA só não consegue emprego se chutar o entrevistador”, brinca Mattei. O mesmo ocorre  na USP. Também não há evasão nos dois cursos.

 

Para tentar mudar esse quadro, as duas instituições procuram parcerias com a indústria, em projetos de construção de aeronaves, satélites ou foguetes  com o envolvimento dos alunos. “Temos um projeto em parceria com a Embraer, por exemplo, para o curso de doutorado. O aluno ajuda a desenvolver o produto e  no final da pós, é contratado pela empresa”, conta Catalano.

 

No ITA, os alunos da graduação em aeroespacial estão construindo dois satélites, o Itasat, com 100 quilos e encomenda de uma agência de fomento, e um  satélite universitário. “É um satélite para estudo. Os alunos constroem durante três anos e a ideia é lançá-lo depois, com ajuda dos lançadores do Brasil ou estrangeiro”, explica Mattei.

 

E a indústria procura a academia para formar a sua mão de obra. “Temos no ITA o mestrado profissional, que é um curso feito por encomenda e bancado por uma indústria específica, criado para tentar suprir o mercado”, conta Mattei.

 

Talentos sofrem pressão de fora

 

Estágios. Luiz Guilherme Correa se formou pela USP e fez estágio na Airbus, na Alemanha

 

Um engenheiro aeronáutico pode trabalhar na indústria aérea (fabricação de aeronaves e equipamentos, manutenção, nas companhias aéreas e na Agência Nacional de Aviação Civil - Anac), mas também em qualquer área em que haja aplicações críticas e com altos requisitos de confiabilidade. Por exemplo, em usina hidrelétrica e nuclear ou na medicina de alta precisão, usina nuclear. Luiz Guilherme Correa, 22 anos, acabou de se formar, na USP. Depois de um estágio de um ano na Airbus, em Bremen, na Alemanha, decidiu voltar ao Brasil. “Foi muito interessante. Achei que teria dificuldade, mas me surpreendi. Comparado com os estagiários locais, não tive dificuldade nenhuma.” Agora, ele vai participar de um projeto de pesquisa com a Embraer para desenvolver uma aeronave silenciosa.

 

Mudança. Entz vai trabalhar na Airbus em Toulouse, França

 

A boa formação dos engenheiros aeronáuticos brasileiros tem provocado uma evasão de talentos. Ricardo Entz, 23 anos e recém formado pela USP, está se mudando para Toulouse, na França, para participar de um projeto de pesquisa da Airbus. “Participei de um programa de estágio na empresa e fui convidado para fazer o doutorado lá”, conta. O curso vai levar três anos e ele ainda não sabe o que vai fazer quando terminar. “Vai depender das oportunidades que surgirem”, diz. Para desespero do professor Fernando Martini Catalano, da USP, que conta com outros dois alunos para compor seu quadro de pesquisa.

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