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Bolsista integral do ProUni tem nota mais alta no Enade

Estudo cruzou média dos estudantes e dados socioeconômicos; beneficiados superam os alunos da rede pública e os mais ricos

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Luiz Fernando Toledo e Paulo Saldaña,
O Estado de S. Paulo

02 Novembro 2014 | 03h00

SÃO PAULO - Alunos de faculdades particulares com bolsa integral do Programa Universidade Para Todos (ProUni) conseguem as melhores notas médias no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), avaliação federal com concluintes do ensino superior. Eles têm desempenho superior à média geral, dos estudantes de universidades públicas e também dos alunos mais ricos.

Estudo inédito cruzou as notas nos exames de 2010, 2011 e 2012 de todos os cursos avaliados pelo Enade com os dados dos questionários socioeconômicos. O levantamento foi feito pela Associação Brasileira para o Desenvolvimento do Ensino Superior (Abraes), que representa alguns dos maiores grupos educacionais privados do País - Anima, Estácio, Devry, Laureate e Kroton.

Enquanto a média geral de acertos nas provas ficou em 43,19, a dos estudantes com bolsas integrais foi de 49,35. Os bolsistas superam os alunos das instituições públicas, cuja média é 47,87. Desde 2005, o ProUni tem um acumulado de 1,496 milhão de bolsas. Do total, 70% são integrais - para quem tem renda familiar de até 1,5 salário mínimo por pessoa. Alunos com renda de até três salários podem ter bolsa parcial (50%).

Para minimizar os efeitos do "boicote" ao Enade, a pesquisa considerou apenas o resultado de alunos que não deixaram nenhuma parte inteira da prova em branco. Ao aplicar este filtro, a amostra total foi para 787.470 concluintes - ou 56% do total. Destes, 5,7% - ou 44.868 - eram estudantes com bolsa integral do ProUni.

O estudo também mostrou que embora a renda média dos bolsistas e a escolaridade dos pais seja menor que a dos estudantes de universidades públicas,  o horário de estudo fora de sala é ligeiramente maior - seis horas por dia. Eles também trabalham mais - 40,8% estão sob regime de tempo integral no serviço, em comparação aos 21,2% na rede pública. 

Para o consultor em ensino superior Carlos Monteiro, a tendência é “natural”. “A palavra-chave é comprometimento. Ele já passou pelo Enem e teve uma boa avaliação”, diz. Para ter bolsa, é necessário nota mínima de 450 no Enem. Uma vez bolsista, o aluno deve garantir aproveitamento de 75% no curso. 

A maioria das bolsas do Prouni está concentrada em administração (225.080), direito (141.726) e engenharias (119.360). Este contingente de estudantes representa aproximadamente 10% do total de alunos no ensino superior no País, enquanto o Fies contempla 33,4%. Só no ano de 2012, a isenção fiscal dada pelo governo federal às instituições chegou ao patamar de R$ 503,9 milhões. 

Abaixo da média. No ranking do Enade , bolsistas integrais do ProUni são seguidos por alunos de universidades públicas, bolsistas parciais do ProUni, bolsistas com desconto das próprias instituições e, por último, estudantes que participam do Programa de Financiamento Estudantil (Fies). Abaixo da média, alunos com financiamento tiveram nota 42,25 no exame. 

Para o analista de mercado Alexandre Nonato, o dado é preocupante e pode significar inadimplência no futuro. "Daqui a pouco esse aluno vai precisar pagar o financiamento. Para isso, ele não deve ter só emprego, mas um emprego que lhe dê um nível salarial que consiga chegar ao valor do pagamento", disse. 

Esforço. Na sala de Fabio Souza, de 20 anos, do 3.º ano do curso de Relações Internacionais da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, as maiores médias são sempre dos três bolsistas do ProUni. “Vim de uma família pobre, tenho de me esforçar. Seja para garantir minha bolsa ou para ter um bom emprego”, diz.

Souza sempre estudou em escola estadual de São Paulo. No ensino médio, teve de ir para o noturno porque a escola não oferecia aulas de manhã. “Entrar na faculdade sempre foi algo distante para mim”, conta. “Sinto que estou me preparando e as oportunidades já começaram a aparecer.”

Ex-balconista de supermercado, o estudante Renan Muralho, de 25 anos, está a um mês da formatura em Medicina - o curso foi financiado com o ProUni na Anhembi Morumbi. “Você começa a ter bom desempenho e reconhecimento dos professores e isso apaga qualquer preconceito.”

De vendedor de uma loja de modulados, Widson Nobre, de 28 anos, passou a trabalhar com marketing. Vindo de uma família sem condições financeiras, usou o bom desempenho no Enem para garantir uma vaga com bolsa na Universidade de Salvador (Unifacs). Não só ele, como duas irmãs mais velhas, que se formaram em relações públicas e contabilidade. "Foi uma oportunidade transformadora pra mim. Uma oportunidade de ter uma vida melhor", disse.

Segundo emprego. Enquanto ajudava o filho a se preparar para o vestibular, a aposentada Vera Lúcia de Almeida, de 55 anos, percebeu que também queria entrar em uma universidade. "Trabalhei no banco por quase 30 anos. Queria começar uma nova carreira", contou. Entre uma revisão de exercícios e outra, sentiu que também estava preparada para o Enem. Deu resultado: em 2007, ela conseguiria bolsa integral no curso de gastronomia. "Eu me dediquei muito nas aulas. Queria trabalhar na área social", contou. Na graduação, fez amizades com professores que a indicaram para a ONG em que atua hoje, a Gastromotiva. A instituição capacita jovens alunos de regiões periféricas para entrarem no mercado de trabalho como auxiliar de cozinha. "Deu uma guinada na minha vida. Eu tinha me aposentado muito nova, queria continuar na ativa", relatou.

Bom trabalho. A diretora da Abraes, Elizabeth Guedes, afirma que os dados apontam que o setor privado tem feito bem o seu trabalho. “Os alunos das públicas são de estratos sociais e renda mais elevados. Naturalmente, eles têm resultados melhores”, diz. “A verdadeira inclusão está sendo feita no setor privado.” Cerca de 70% dos estudantes de ensino superior estão na rede particular. 

A consultora em educação Norma Viapiana vê melhoria da qualidade do ensino nas instituições privadas. "Não faltam professores para as disciplinas, não existem greves, o calendário acadêmico e os dias letivos são cumpridos."

O consultor em Educação Roberto Lobo, ex-reitor da Universidade de São Paulo (USP), avalia que o ProUni foi uma boa solução para a inclusão. “As particulares em geral não têm pesquisa e pós-graduação, mas podem ter um ensino bom".

O economista Cláudio de Moura Castro reforça a tese. "A diferença é muito pequena na qualidade  Usando só o Enade, a diferença entre público e privado é pequena. Nas 100 melhores faculdades no Enade, 64 eram privadas". Para o especialista, falta a pesquisa nas instituições privadas para que atinjam o patamar das públicas. “Nós não temos ainda uma tradição de pesquisa nas universidades privadas. Elas têm pouco acesso aos fundos de pesquisa, que são monopolizados pelas universidades de desempenho já consagrado. Isso pune as universidades novas, sejam públicas ou privadas”.

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