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Sérgio Castro|Estadão

A imigração na sala de aula

São Paulo

Autista, não: imigrante

Crianças ainda em adaptação são tratadas por escolas de São Paulo como casos de saúde mental

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Vitor Hugo Brandalise

19 Março 2017 | 05h00

A menina síria H., de 11 anos, vivia em São Paulo havia quatro meses quando recebeu da professora um papel cheio de palavras que ainda não entendia – "dislexia", "déficit de atenção" e "deficiência de aprendizagem", vocabulário que àquela altura nem ela e nem os pais, recém-chegados ao Brasil por causa da guerra em seu país, conseguiam decifrar. O documento indicava procurar uma unidade de saúde para avaliação psicológica. A mãe entendeu essa última palavra e se preocupou. Em casa H. era falante e risonha, queria ser bailarina e havia sido alfabetizada, anos antes, em árabe. O que mudou ao chegar ao Brasil?

Na escola municipal em que estudava, no centro, H. – que quase não frequentou aulas nos dois anos anteriores, no campo de refugiados de Zaatari, na Jordânia – era uma criança que sentava bem na frente, calada, quase alheia às lições. Anotava um pouco em árabe, um pouco em inglês, e sabia falar "sim" e "tá bom" em português. Respondia desse jeito a todo pedido da professora, mas as provas ela deixava em branco. Tirou nota zero em três testes, e isso resultou no papel que levou aos pais. Só bem depois entendeu que "incapacidade de obedecer ordens diretas" foi uma das impressões que deixou em sua primeira professora no País.

Na Unidade Básica de Saúde mais próxima, o caso de H. não foi novidade. Era 2015 e vigorava a "chuva de papeizinhos", nas palavras de quem trabalha na UBS, referindo-se à quantidade incomum de pedidos de avaliação psicológica a imigrantes - uma situação que se intensificou com o aumento do fluxo migratório ao País. Nos últimos cinco anos, o número de estudantes estrangeiros aumentou 71% na rede municipal (de 2.419 alunos matriculados em 2012 para 4.136 alunos em 2016) e 20% na estadual (de 4.513 em 2012 para 5.429 no ano passado). Já a formação de professores e funcionários das escolas não teve o mesmo incremento.

O encaminhamento equivocado de crianças para avaliação psicológica não é ruim pelo atendimento dado, mas pelo estigma que pode causar. "Deixa, ela não entende" e "ela é bobinha" foram algumas frases que H. ouviu da professora e de colegas. "Era muito difícil, eu ficava com raiva, mas não falava, porque não sabia como falar o que estava sentindo", conta H., hoje perto de completar 13 anos, na quitinete em que vive com os pais e dois irmãos, no Bom Retiro. O susto e a sensação de isolamento da criança eram agravados pelas diferenças culturais. "Os meninos ficavam em cima de mim, zoando... eu quase nunca tinha falado com meninos antes. Lá na Síria não podia meninos e meninas juntos na escola. Eu tinha muita vergonha."

Antes de chegar a São Paulo, no início de 2015, H. viu a casa onde nasceu, em Damasco, reduzida a escombros ("até a piscina") após um bombardeio; acariciou os dedos quebrados dos pés de seu pai, preso político, torturado numa cadeia; e não tira da cabeça os pássaros que agonizavam caídos no chão – tentava salvá-los ("eu dava água"), mas morriam sempre em suas mãos. Antes de encontrar novo lar no Brasil, viveu numa tenda em Zaatari. Como disse a agente de saúde que a acompanhou após os problemas na escola, as experiências de guerra tornam H. uma criança "resiliente". Mesmo assim, as dificuldades na escola foram tantas que ela desistiu de estudar.

Abandonou a quinta série no meio do ano letivo. Sentada à mesa da sala da quitinete, comendo um doce de abóbora feito pela mãe, a menina interrompe um sorriso e relembra: "Fiquei triste, não conseguia fazer a lição de casa, nem escrever, nem falar direito e achei que não ia saber nunca", conta. "Mas falei 'não sou burra, eu só não sei a língua!' Vou aprender, porque ninguém nasce ensinado tudo. Só porque eu sou quietinha acham que eu tenho que ir num médico? Aí eu falei: vou fazer tudo o que posso e eles vão fechar essa boca". H. passou o resto do ano estudando português em uma ONG – "se preparando" para voltar à escola, dizia, o que mais tarde ocorreu.

Em bairros com maior presença de imigrantes, como Glicério, Bom Retiro, Sé e República, no centro, e Mooca, Brás e Guaianases, na zona leste, a enxurrada de papéis se tornou rotina nas UBSs. Na unidade da Sé, um mutirão em 2013 analisou 35 casos de estrangeiros encaminhados para avaliação psicológica ao longo de seis meses – nenhum tinha problemas de saúde mental. Na República, nessa mesma época, o número de encaminhamentos era de pelo menos 2 por semana – o que levou os profissionais da unidade a fazerem uma "blitz" nas quatro escolas que mais enviavam os pedidos, o que minimizou o problema.

"Ao apontar a criança e dizer que o problema é ela, aí sim pode surgir um atraso", diz a psicóloga e professora da USP Sylvia Dantas, coordenadora de um grupo de pesquisa de psicologia intercultural. "Para evitar a patologização do imigrante, é preciso conhecer o contexto das famílias. Por quais situações passaram antes de chegar ao Brasil? Por que a criança é calada na escola? Em casa ela interage? É crucial que a escola se aproxime da família para entender essas questões."

Ainda não há levantamento da quantidade de pedidos de avaliação psicológica de imigrantes por parte das escolas, mas há indícios do problema. Uma funcionária da Secretaria Municipal de Educação, a pesquisadora Ana Paula Ignácio, notou um número alto de solicitações na zona leste e foi a campo. Deparou-se com uma escola em que 18 dos 30 imigrantes matriculados, ou seja, 60%, foram encaminhados com suspeitas de autismo e déficit de aprendizagem. Entre os alunos brasileiros da área, a taxa caia para 30% – incidência também alta, mas a metade do registrado para alunos de outro país. Nos dois grupos, o mesmo número de pedidos pertinentes: entre 1 e 2 crianças necessitavam, de fato, acompanhamento psicológico. "Essa criança vive um duplo estigma: o do deficiente e o do estrangeiro. E isso em um momento importante, o da escola, porta de entrada para integração não só da criança, mas da família toda à sociedade brasileira", diz Ana Paula, que atualmente pesquisa o tema para seu mestrado na PUC-SP.

Governo. A Secretaria e ex-funcionários admitem o problema. "A escola reflete a sociedade e pode ser bastante xenófoba. Nas formações de professores, escutamos que 'os alunos de tal país são todos autistas', que a escola está 'infestada', ou que são 'invasores'. Por isso a importância de investir na formação", diz a educadora Adriana de Carvalho, que coordenou o núcleo étnico-racial da pasta na gestão passada.

O treinamento para lidar com esses alunos começou em 2014 e há buracos. Dos cerca de 60 mil professores da rede municipal, apenas 33 mil foram formados. Entre os servidores, somente 209, entre 82 mil, passaram pela capacitação, segundo o Centro de Referência e Acolhida para Migrantes, ligado à Prefeitura. "Algumas escolas, especialmente na região central, foram sensibilizadas e os encaminhamentos diminuíram. Mas ainda falta muita capacitação, especialmente na periferia, em bairros em que programas de saúde da família são tímidos, pois são esses trabalhos, das UBSs, que chamam a atenção da Educação para problemas em um local", explica Adriana. A Prefeitura afirmou que vai "intensificar" a formação de funcionários.

Em janeiro de 2016, depois de seis meses de "preparo", a menina síria H. voltou à mesma escola, para repetir a quinta série. Já sabia bem mais do que "sim" e "tá bom". Fez amigos entre os 35 colegas brasileiros e gostou da nova professora, que tinha outro olhar. "Ela ficava do lado nas provas e traduzia o que eu não entendia com um celular", conta a menina. O resultado veio no fim do ano: H. foi aprovada (nota 89) para a sexta série, que começou no mês passado. A menina fala um português bonito e com sotaque próprio, dá aulas de dança do ventre e estuda na varanda de casa. O caderno, rosa e com um desenho da Sarah Kay, é hoje quase todo escrito em português, com letras bem redondas. Na primeira folha, bandeiras da Síria e do Brasil, e duas frases: "Somos um só" e "Eu amo brigadeiro".

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'É uma angústia para toda a família'

Obstáculo do idioma leva escolas encaminharem crianças a instituições de educação especial; para mãe, faltou paciência e contato com a família

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Vitor Hugo Brandalise

19 Março 2017 | 05h00

O menino de 7 anos escondeu-se embaixo da carteira na sala de aula, em uma escola estadual da zona norte, e não quis mais sair. A professora ordenava, os colegas riam, todos os olhos nele. A situação repetiu-se algumas vezes, e a UBS do bairro recebeu um pedido: avaliar R., congolês que vivia em São Paulo havia um ano, por “sinais sugestivos de autismo”.

O pedido chegou à agente comunitária de saúde da área, que estranhou. Ela conhecia o menino, o havia “subornado” com pipoca doce em uma campanha de vacinação, e não notou nada incomum. “Fui à casa dele e o vi correndo e brincando no quintal”, conta a agente, que não quer se identificar por atuar na área. “A escola dizia que ele não obedecia ordens, então pedi à mãe que dissesse, em lingala, para ele ficar parado, ou escovar os dentes, e ele obedecia. Era só o idioma mesmo. E ele ficava embaixo da mesa por vergonha de não entender a professora.”

Com o menino G., de 11 anos, também congolês, foi parecido: faltou paciência e contato com a família. Um dia a mãe foi convocada à escola municipal do filho. Havia um documento para ela, que não entendeu na hora, mas na UBS traduziram: falava em “caso psiquiátrico” e “QI rebaixado”. A mãe entrou em pânico: sabia que o filho tinha problemas na dentição e algum estrabismo, mas disso ela já tratava. “Ele não era alfabetizado em nenhuma língua, por isso não escrevia nada, apesar da idade. Mas não era doente”, conta a mãe, na sala de casa, em Sapopemba, zona leste. “Foi um sofrimento a toda a família. Queriam que ele fosse a uma escola de educação especial, longe de casa, e já pensamos se teríamos condição.” A solução veio em uma mudança de bairro, quando teve de trocar de colégio. A essa altura já havia ganho um laudo da UBS dizendo que ele tinha condição de frequentar uma escola comum. Desde então, avançou em estudo e socialização – recebe elogios em matemática e faz caratê. “A professora liga para ver se li o caderno dele, para ajudar na escrita. O que mudou entre um colégio e outro foi o cuidado para avaliar meu filho.”

Nos seis anos em que trabalhou nas UBSs da Sé, República e Bom Retiro, o fonoaudiólogo Jean Camargo Longhi viu muitas situações como essa. “Eram crianças que ainda não tinham aprendido todos os sons do português, e enviavam para o fono ‘consertar’, como se tivessem problema na língua ou garganta. Mas toda visita médica desnecessária gera um impacto, uma opressão. Emocionalmente, não é saudável”, diz. “Estamos falando da questão da patologização da infância, com o adicional de que se trata de um imigrante, muitas vezes há pouco tempo no País, ainda absorvendo tantas mudanças e sem capacidade total, linguística, de se expressar. É preciso cuidado redobrado.”

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Diversidade curricular cria acolhida

Trabalhar projetos que expõem várias culturas estabelece o clima de diálogo

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Vitor Hugo Brandalise

19 Março 2017 | 05h00

Em comum entre as escolas da rede pública de São Paulo que fazem um bom trabalho de acolhida está a valorização das diferenças culturais – o entendimento de que a condição do imigrante, longe de ser defeito, pode enriquecer a vida escolar, dos alunos aos professores e funcionários.

“Deve-se criar um clima de diálogo entre os estudantes de diferentes nacionalidades, para que um não se sinta estrangeiro diante do outro”, diz a educadora Adriana de Carvalho, ex-coordenadora do núcleo étnico-racial da Secretaria Municipal de Educação. Ela pesquisa boas práticas de integração na rede para seu doutorado e já concluiu que escolas com histórico de combate ao racismo ou homofobia, por exemplo, têm meio caminho andado para acolher o imigrante. “Quando já há uma cultura de respeito à diversidade, basta incluir nos projetos desenvolvidos o eixo da migração e do combate à xenofobia, e os alunos entendem sem problemas.”

Um bom exemplo da rede é o da Escola Municipal João Domingues Sampaio, na Vila Maria, zona norte de São Paulo. Dos 750 estudantes, 135 (18% do total) são imigrantes, a maioria da Bolívia – de onde vêm a maior parte dos alunos estrangeiros nas redes municipal e estadual. A escola desenvolve dois projetos de contraturno que tratam de imigração e estimula professores a falar do assunto nas aulas. “No ano passado, todas as séries tiveram como trabalho final de alguma disciplina a temática do refúgio. Todas as turmas falarem disso cria uma cultura geral, institucional, de respeito e combate à xenofobia”, diz a coordenadora pedagógica, Elisângela Janoni.

Um dos projetos da escola prevê leituras de textos em português e em espanhol, pelos alunos, em todas as salas. “Ajuda a acostumar o ouvido ao idioma que se escuta no pátio, nas panelinhas dos intervalos. A ideia é ajudar a romper os grupinhos”, explica a professora de geografia Maria Cristina Novaes, responsável pelos projetos. O outro programa é o Diversidades, cujo ponto central é passar adiante o saber que os alunos trazem de casa de forma divertida: música, culinária (a “pedagogia do estômago”), cinema e teatro, por meio dos diferentes costumes.

Participar do Diversidades – projeto apresentado em cursos de formação como exemplo para replicação na rede – estimulou a estudante boliviana Karen Cruz Mercado, de 12 anos, a querer mergulhar em sua própria cultura e dividir com os colegas. “Uma das atividades do projeto era visitar a aldeia de índios lá em Parelheiros (extremo sul de São Paulo). Foi tão legal conhecer a cultura deles, e o jeito que eles apresentaram, que eu quis fazer o mesmo com a minha”, explica a aluna. Por conta própria, ela preparou uma apresentação sobre as cidades de seus pais, La Paz e Sucre, e bateu de sala em sala, explicando suas origens.

A dentista boliviana Verônica Yujra, criadora do Si, Yo Puedo, coletivo que promove educação e orientação profissional a imigrantes, ressalta a importância de falar dos direitos da população migrante desde a infância. “Falar de migração e refúgio é falar de humanidade. No ambiente em que se chama, pejorativamente, um estudante de ‘Bolívia’, chama-se um outro de ‘Bahia’, ou de ‘Paraíba’. Tratar disso é combater os preconceitos de maneira geral”, diz a ativista, que visitou a escola na Vila Maria no ano passado.

O colégio também promove encontros entre professores e coordenadores pedagógicos sobre como lidar com a leva de imigrantes. Trocas como essas são importantes em um momento de estresse na rede por causa do aumento no número desses alunos, afirma a psicóloga Sylvia Dantas, do Instituto de Estudos Avançados da USP. “É preciso levar em conta que o momento é de angústia também para as instituições e professores, que têm de adquirir conhecimento sobre os impactos que o deslocamento gera, os estranhamentos entre os grupos, as dificuldades linguísticas. As conversas entre os profissionais são essenciais, em um momento que pede aprendizado”, diz. “Quando o professor troca o olhar de desconforto pelo de compreensão, a criança percebe, pois ela acaba de se mudar, está muito sensível à forma como olham para ela. E então o olhar do professor passa a acalmá-la. O professor também se acalma com isso, e o clima emocional se torna outro. Na sala de aula toda, passa a ser de acolhida.”

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