Gabreila Bilo/Estadão
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Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Quando foi aprovado no vestibular da Fuvest, o estudante de História da Universidade de São Paulo (USP) Gilmar Luiz Brito, de 24 anos, se sentiu deslocado. Negro, de baixa renda e egresso de escola pública, logo percebeu que sua presença era exceção em meio aos outros. "Olhava para a universidade, para o meu curso, e via que os alunos vinham de escola particular. E eu, que estudei na rede pública, não estava habituado com a carga de leitura. Foi uma transição mais difícil", conta.

Um em cada três ingressantes da USP (36,9%) já vem da rede pública; e 19,3% são pretos, pardos ou indígenas (PPI). O avanço foi significativo. Há dez anos, as taxas eram de 22,8% e 12,9%, respectivamente. E uma nova geração de alunos que entrará nos próximos anos na universidade deverá mudar ainda mais esse quadro. Até 2021, a instituição deverá ter 50% de seus ingressantes vindos de escola pública, 37% deles PPI - número proporcional a essa parcela da população no Estado de São Paulo.

"Trabalhei desde o ensino médio para juntar dinheiro para o cursinho. Demorei três anos para chegar aqui", afirma Brito, hoje no 4.º ano de seu curso. O universitário diz que teve sim de se esforçar mais do que os colegas para conseguir bom desempenho. "Foram necessárias horas a mais de estudo", lembra.

A reserva de vagas por meio das cotas, tema historicamente polêmico na instituição, ganhou espaço conforme faculdades como Direito e Medicina adotaram notas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como forma de ingresso. Uma das primeiras tentativas de aumentar a inclusão se deu há dez anos, com a criação de um bônus no vestibular para alunos da rede pública. Mas apenas no dia 4 de julho deste ano o Conselho Universitário da USP aprovou o uso de cotas em todas as suas unidades.

O modelo ainda enfrenta resistência, embora especialistas e pesquisas de diferentes instituições apontem que a prática não leva à redução de qualidade no ensino. "Cotistas e não cotistas entram na universidade de forma competitiva", diz o sociólogo e ex-presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) Simon Schwartzman, um dos maiores especialistas em educação no País. 

A diretora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP Leste (Each), Maria Cristina Motta de Toledo, conta que a experiência única de sua unidade - hoje a USP Leste tem mais de 50% de seus alunos saídos da rede pública - mostra que o ingresso de estudantes com esse perfil não afeta o desempenho acadêmico. E a Each ainda não utiliza cotas, apenas o bônus na nota dos candidatos. "Com o tempo, o aproveitamento deles é bastante semelhante. E, quando há uma dificuldade, ela pode ser superada. Temos muitos alunos que tiveram nota baixa no ingresso, mas conseguiram se superar. Muitos hoje são até professores universitários."

O  Estado solicitou entrevista com o reitor Marco Antonio Zago durante uma semana, mas não obteve retorno.

Resistência

Apesar dos avanços, estudantes relatam resistência de colegas. Brito lembra de um episódio logo na primeira festa da faculdade, quando um rapaz se recusou a dividir um copo de bebida. "Ele disse que, além de eu tirar vaga dos outros, queria tirar o copo dele. Para quem é negro, ouvir isso é extremamente humilhante." Cenas semelhantes acontecem dentro da sala, diz Lucas Mateus Lima, de 22 anos, no 1.º ano de História. Ele afirma que ouviu de um colega, durante um seminário sobre o livro Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, comentários maldosos sobre cotas. "O sangue subiu e eu saí da sala batendo a porta."

A sensação, para muitos, é de estar em um lugar que não é seu. "Foi um choque total entrar aqui", diz a estudante Fernanda da Silva Sampaio, de 19 anos, que cursa o 1.º ano de Ciências Sociais. Moradora de São Mateus, na zona leste, ela estudou na rede pública e foi a primeira da família a entrar em uma universidade pública. Assim que chegou à Cidade Universitária, tudo o que conseguia fazer era olhar e se espantar. "Tive uma sensação de imensidão. Nós, pobres, somos acostumados com pouco. Mas agora eu vejo que esse espaço também é meu."

Para Ariane de Jesus Santos, de 23 anos, do 4.º ano de Engenharia Elétrica, o estranhamento estava por toda parte. "Os alunos chegavam de carro, com roupas diferentes, comiam em outros lugares. Até o jeito era diferente", lembra a estudante, filha de uma costureira que sempre estudou na rede pública. 

O estudante Ivo Lopes Yonamine, de 38 anos, que hoje cursa Letras e estudou Direito em 1998, relata as diferenças. "Sentia antes uma homogeneidade das elites, um grande padrão de alunos vindos de colégios caros." Na primeira graduação, havia apenas uma aluna negra, "mas adotada por uma família branca de dois médicos de classe média alt", e outra de escola pública, "mas diferenciada por vir de uma escola modelo". "Hoje o movimento negro está muito mais forte, tanto em Letras quanto no Direito. Há vivências distintas, houve uma fissura."

Mas para a estudante do 5.º ano de Medicina Luiza Ribeiro, de 31 anos, que está na segunda graduação - estudou Relações Internacionais em 2004 -, ainda falta muito para a universidade se tornar mais diversa. "Penso nos poucos alunos e nos pouquíssimos professores negros. É preciso melhorar."

Moradia subsidiada é um dos desafio

Uma das questões inerentes à chegada de alunos com menos condições é como alojá-los. No câmpus Butantã houve 3.832 inscritos para concorrer a uma bolsa de moradia neste ano, o dobro em relação a 2013. Mas o número de vagas na Cidade Universitária caiu: passou de 206, em 2013, para 165, em 2017.

Segundo Anuário Estatístico da USP, em 2016, 16,4% dos ingressantes tinham renda familiar mensal de até três salários mínimos. O governo estuda repasse extra de R$ 260 milhões para moradia e alimentação.

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Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Para realizar o sonho de se formar em uma universidade, o estudante Lucas Gandolfi, de 25 anos, e sua família saíram de uma casa em Francisco Morato, na região metropolitana de São Paulo, para viver em uma favela da capital, a Canta Galo, na região de Pirituba, na zona norte. Seus pais, uma empregada doméstica e um marceneiro, já trabalhavam na cidade e decidiram que a mudança poderia garantir um futuro melhor para os filhos - a irmã de Gandolfi havia sido aprovada na instituição um ano antes.

Hoje cursando o 4.º ano de Medicina, Gandolfi prestou seis vezes o vestibular - estudou por quatro anos no cursinho da Poli - até ser aprovado. "Por mais que houvesse algum tipo de bonificação para quem vem da escola pública, a defasagem era muito grande", diz.

Por causa da baixa renda de sua família, o estudante poderia pedir uma vaga na moradia estudantil da Faculdade de Medicina da USP (Fmusp), mas preferiu levar os R$ 400 do auxílio oferecido pela universidade para ajudar em casa. Como o curso é em tempo integral, ele não consegue trabalhar. "Viemos para cá em uma condição muito deficitária."

Foi com base nessa experiência de vida que o estudante criou, com ajuda de outros colegas de realidade semelhante, o projeto Semeando Educação, que oferece palestras em escolas públicas para mostrar as possibilidades e oportunidades de se cursar uma universidade gratuita. "Existem muitas pessoas que nem sequer conhecem o vestibular e as oportunidades que uma faculdade pode oferecer", diz Gandolfi.

Quando fazem a peregrinação por escolas, os alunos contam como funciona a vida universitária, dão dicas de como passar no vestibular e apontam possibilidades para estimular quem ainda está no ensino médio. "Uma pessoa da periferia pode se destacar em uma área que ela gosta, adquirir técnica e depois voltar para a comunidade de onde veio para praticar esse conhecimento. Ninguém melhor do que ela para saber os problemas reais dessa comunidade", diz o estudante. O grupo também mantém uma página no Facebook e um blog sobre vestibular.

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Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2017 | 03h00

SÃO PAULO O novo perfil de estudante da USP tem muito a contribuir para a diversidade dos debates em sala de aula, ainda que traga dificuldades iniciais de aprendizagem por problemas de formação básica. É o que apontam professores ouvidos pelo Estado. "Em minha primeira experiência na sala de aula havia apenas alunos brancos e vindos de escola de elite, como Santa Cruz e Rio Branco", diz o professor Marcus Orione, do Direito, há 16 anos na instituição. 

Hoje, ainda que de maneira tímida, diz ele, isso se diversificou. "Percebo que há um deslocamento do interesse dos estudantes no tipo de pesquisa. Tenho, por exemplo, uma aluna interessada em pesquisar a discriminação racial, tema que não interessava no passado, pois ninguém sofria desse problema. Uma universidade está muito mais próxima do conceito de popular se tiver mais alunos negros e provenientes de escola pública. Os discursos de diversidade passam a fazer parte do cotidiano dos alunos", diz. "Se hoje um professor fala uma expressão homofóbica ou racista, há logo uma comoção entre os estudantes."

Professor de Medicina na USP há mais de 30 anos, Paulo Saldiva lembra dos tempos de estudante, no começo da década de 1970, quando, ao contrário de hoje, a escola pública ainda levava boa parte de seus estudantes para a universidade. "Essa concentração de egressos de escolas particulares começou a partir dos anos 1990. Então, na minha época, ainda tinha muito aluno de escola pública. E isso me fez muito bem. Eu era um 'almofadinha' e o convívio com alunos de outras classes sociais me fez evoluir muito", brinca.

Inclusão

Como naquele tempo, o professor vê essa diversidade com bons olhos. "Não concordo com a ideia de que a qualidade pode cair com a inclusão. Um sujeito que veio de Guaianases e estudou sempre em escola pública, para passar em uma universidade, precisa ser muito bom", diz Saldiva.

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Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

06 Agosto 2017 | 13h06

SÃO PAULO - Embora atrasada em relação às outras universidades, a USP deverá ganhar em qualidade e diversidade com a aprovação das cotas em todas as suas unidades a partir do ano que vem. Mas tal inclusão deverá vir ancorada em um amplo apoio da instituição aos alunos, não só de monitoramento da política, mas também financeiro. É o que aponta a professora e pesquisadora de políticas afirmativas do Departamento de Sociologia da USP, Márcia Lima.

“Hoje a manutenção dos alunos mais pobres na USP já é um problema. A universidade terá de pensar isso e assumir esse compromisso, pois a inclusão não termina com o ingresso. Em outras palavras, a universidade vai ter de gerir a diversidade que criou. Não se pode desistir de um projeto deste tamanho por causa de uma crise econômica”, aponta a especialista.

Dados do Anuário Estatístico da USP de 2016 apontam que 16,4% dos ingressantes tinham renda familiar mensal de até três salários mínimos. Em 2008 eles representavam 10,8% do total. Alunos nesta faixa de renda e na primeira graduação podem solicitar auxílio moradia. Ao mesmo tempo, estudantes reclamam que tem crescido o número de bolsas canceladas - a USP diz que ampliou o auxílio à permanência e que o processo seletivo das bolsas é feito anualmente.

A estudante do 2º ano de Pedagogia em Ribeirão Preto Isabela Casquer, de 20 anos, conta que perdeu a bolsa de R$ 400 que recebia para bancar o quarto em uma república no município - a família dela mora em São José do Rio Preto, a 180 quilômetros da universidade.  Foi assim que decidiu buscar um estágio fora da área em que estuda para se manter. "Não tinha como me sustentar na cidade", reclama.

Bianca Arruda, de 21 anos, aluna de Ciências Sociais, conta que não conseguiu vaga na moradia estudantil (Crusp) e nem auxílio financeiro e, por isso, tem de ir e voltar para São Bernardo do Campo diariamente. "É bem difícil. Gasto até três horas para chegar e às vezes perco aula", reclama. "Muita gente desiste do curso porque não consegue nenhum tipo de apoio", diz.

Somente os alunos com menor renda têm acesso a uma vaga na residências estudantis, enquanto outros podem obter o auxílio em dinheiro, de R$ 400. Mas nem todos são contemplados.

Dados obtidos pelo Estado por meio da Lei de Acesso à Informação comprovam o desafio da universidade: só no campus Butantã houve 3.832 inscritos para concorrer a uma bolsa de moradia neste ano, o dobro em relação a 2013. Mas o número de vagas no Crusp, a moradia estudantil da Cidade Universitária, caiu. Só 165 vagas foram abertas, ante 206 em 2013. O número de apoio moradia em dinheiro, uma bolsa que se mantém em R$ 400 ao menos desde 2011, também não aumentou.

“A USP precisa criar uma comissão de acompanhamento e acolhimento desses alunos. É uma questão não só de disponibilidade econômica, mas também política”, diz a professora.  Ela ressalta, no entanto, que existe um “exagero” no receio de que essa nova geração de alunos vindos de escolas públicas e mais pobres não tenham o mesmo desempenho dos demais. “O que temos visto em diversas experiências em universidades públicas de qualidade é que esses alunos conseguem superar essas dificuldades ao longo do tempo."

Recursos. O vice-governador e secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação, Márcio França, disse ao Estado que o governador Geraldo Alckmin (PSDB) estuda um repasse extra de até R$ 260 milhões anuais para custeio das bolsas de moradia e alimentação dos estudantes. As instituições teriam de trocar os atuais restaurantes universitários, que têm servidores públicos nas cozinhas, por unidades da Rede Bom Prato, cujo produto é mais barato. Promessa semelhante havia sido feita por ele em 2015, mas não saiu do papel.

“Tivemos uma reunião há dez dias com o conselho dos reitores das três universidades estaduais (Cruesp) e disse a eles que havia uma simpatia do governador pelo subsídio a essas permanências. Mas o valor precisaria ser o mesmo por aluno nas três universidades”, disse ele, que alegou que cada instituição ofereceu uma bolsa diferente aos seus estudantes. “Teria de ser uma coisa unificada. O Cruesp ficou de preparar esse estudo unitário”, disse.

França projetou que o repasse às três universidades estaduais ficaria em torno de R$ 320 milhões se mantidos os atuais  restaurantes, valor que deve diminuir com adesão ao Bom Prato. “Nosso Bom Prato custa ⅓ do valor que elas (universidades) pagam. Paga-se de R$ 15 a R$ 17 por refeição, enquanto nós pagamos só R$ 5 e o munícipe só paga R$ 1 pelo prato”.

França destacou que não há chance de aumento no repasse que as universidades recebem do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), hoje fixado em 9,57%.“Isso não vai acontecer. O que podemos fazer é assumir esse subsídio (de permanência estudantil), porque entendemos  que não é uma obrigação da universidade”.

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