Artigo: A USP trabalhando

Na segunda-feira fui, pela manhã e à noite, à USP, no Butantã. Já aposentado, novamente fui convidado a falar a estudantes do primeiro ano do curso de Economia, sobre a relação entre a educação universitária e as ocupações exercidas no mercado de trabalho.   Mesmo com o noticiário recente sobre a greve na USP e escaramuças entre policiais e grupos de estudantes e funcionários desse câmpus, imaginava que a Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, conhecida como FEA, aonde iria, estaria a funcionar normalmente. Isso porque nela estudei e lecionei por quase três décadas e conheço sua disposição de manter portas abertas e suas atividades em momentos como este.   Não errei. Encontrei-a funcionando normalmente e salas cheias, pois minha tarefa integrava a carga horária de duas turmas grandes, uma no diurno e outra no noturno. Não ouvi falar de greve e pelo que sei esta não teve maior alcance na maioria das unidades da USP.   Seria apenas mais uma greve desse tipo, exceto pela presença da Polícia Militar (PM) no câmpus, como resultado da ação de integrantes do movimento grevista, que chegaram a ocupar instalações da universidade e a impedir o trabalho nelas.   A presença da PM é realmente lamentável. É também insólita e, como tal, atrai a atenção da mídia, que sabe do interesse que assuntos ligados à USP e às ações policiais despertam na sua clientela, particularmente se em combinação. Essa cobertura, contudo, tem um viés, pois foca na greve e no que gira em torno dela, deixando de lado o que segue normalmente na universidade e que deveria merecer igual atenção. Assim, nos últimos dias foram mais presentes as reportagens que cobriram a greve e ouviram predominantemente ativistas do movimento.   Em particular, notei um desequilíbrio no que se afirmava sobre a reitora da universidade, Suely Vilela, muito criticada a pretexto de que teria causado a presença da PM no câmpus, como resultado de seu pedido de reintegração de posse de instalações da universidade. Teria sido um erro, pois na sequência houve acirramento de ânimos por parte dos inconformados.   Quando houve a escolha dessa reitora, confesso que, se ainda não fosse aposentado, ela não seria minha candidata. Entendo também que há dois anos, quando houve a ocupação da Reitoria por um período bem mais longo, levando a sérios prejuízos para a USP, agiu mal ao insistir por muito tempo em negociar com grupos que atuavam dessa forma.   Agora, com a experiência adquirida, agiu pronta e corretamente, e quem a critica o faz por não estar na sua pele nem ter idênticas responsabilidades. Diante de gente que atropela princípios básicos da boa convivência humana, como o direito de ir vir e o cerceamento ao trabalho, consagrados pela nossa Constituição, fazer o quê? Portanto, deve ficar claro que quem levou à vinda da PM foram os que deixaram de cumprir esses preceitos, impondo a força. Em que outros países e universidades do mundo civilizado não haveria a mesma reação defensiva tomada pela reitora?   Quanto aos que pedem a sua renúncia ou dão destaque exagerado a notícias em torno disso, revelam um enorme desconhecimento de como funciona a USP e de qual é o apoio relevante para sua reitora neste momento. Primeiro, como já foi dito, o alcance do movimento é muito limitado. Segundo, e o mais importante, ela conta com o apoio da maioria das unidades da USP, inclusive as mais conhecidas e de maior tamanho, conforme expresso pelo manifesto que 38 de 46 desses dirigentes subscreveram no início desta semana.   Entre os que assinaram estão os diretores das Faculdades de Direito, de Medicina (de São Paulo e de Ribeirão Preto), de Arquitetura, da Escola Politécnica, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz e da FEA.   É bom lembrar que não o fariam na ausência de apoio em suas unidades, em particular de suas congregações. Isso explica, entre outros casos, a ausência de assinaturas de diretores de unidades como a Escola de Comunicação e Artes e a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas de São Paulo, onde há maior presença de professores simpáticos a movimentos como o atual. Não sem alguma razão, alguns são também mais alérgicos à presença da PM no câmpus.   Quanto às reivindicações salariais, a USP já opera além dos limites com que deveria gerir sua folha de pessoal, e em taxas anuais é defensável e aceitável um reajuste de 6,05% para uma inflação rodando os 4,5%, em particular dada a crise econômica, que prejudica também a arrecadação estadual de ICMS, da qual vem o grosso dos recursos da universidade. Deseja-se também a recontratação de um ex-funcionário, ainda ativo no movimento sindical. Se tem direito a isso, deveria, como o fez, recorrer à Justiça. Mas, já em instância superior, o Tribunal Regional do Trabalho, seu pleito foi negado no último dia 15.   Surpreendente mesmo é o pleito de dar fim à Universidade Virtual do Estado de São Paulo, da qual participa a USP e que deverá criar, nos próximos quatro anos, 6,6 mil vagas de nível superior e 110 mil de pós-graduação. Em sintonia com os enormes avanços tecnológicos que trouxeram um grande salto às tecnologias de informação e comunicação nas duas últimas décadas, a educação a distância sofreu um impulso correspondente, abrindo mais espaços também para essa forma de ensino superior, hoje no Brasil dominada por instituições privadas.   Trata-se de impedir que no ensino superior público paulista haja esse esforço de democratizá-lo. É verbo muito alardeado pelos integrantes do movimento, mas com geografia, sujeitos e objetos limitados apenas aos de sua conveniência.   * Roberto Macedo, é economista (USP e Harvard), professor associado à Faap, foi professor titular, chefe do Departamento de Economia e diretor da FEA-USP, membro do Conselho Universitário e presidente da Comissão de Orçamento da universidade.

Roberto Macedo*,

18 Junho 2009 | 14h31

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