WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Apesar de esforços de inclusão, aluno com deficiência avança menos

Em cada etapa da educação básica, diminui a participação de estudantes com deficiência; sem escolas ideais, muitas crianças abandonam os estudos; dados foram compilados pelo Movimento Todos Pela Educação

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2017 | 03h00

SÃO PAULO - A autônoma Leonilda Freitas, de 54 anos, fez o que pôde para manter o filho Murilo na escola. Com Síndrome de Down, o garoto sempre teve dificuldade em ser aceito nos colégios e atendido em suas necessidades. Os problemas começaram logo no início do ensino fundamental e se estenderam até o 9.º ano, quando a mãe decidiu tirá-lo da escola tradicional. “A sensação é de estar em uma ribanceira. Meu filho foi indo e, de repente, jogado ladeira abaixo. E não havia ninguém lá esperando por ele”, relata.

Como Murilo, alunos com deficiência têm avançado em menor proporção na “escada” do sistema educacional, apesar dos esforços de inclusão. O Censo da Educação Básica de 2016 mostra que a participação de estudantes com deficiência cai a cada etapa. Nos anos iniciais do ensino fundamental (1.º ao 5.º ano), 3% têm alguma deficiência – física e/ou intelectual. Nos finais, 2%. Já no ensino médio, essa taxa cai para 0,9%. Os dados foram compilados pelo Movimento Todos Pela Educação (TPE) e obtidos pelo Estado.

Especialistas afirmam que todos, não importa o tipo de deficiência, devem ter o direito de concluir estas etapas. Já no ensino superior, que não é obrigatório, há ainda menos alunos com deficiência: só 0,5% do total, segundo o Censo da Educação Superior mais recente, de 2015.

“Sempre fui pela bandeira da inclusão. Meu filho foi quase uma ‘cobaia’, porque estudou em escolas regulares desde o início”, diz Leonilda. Mas, apesar das tentativas, os professores diziam a ela que não tinham preparo para ensinar o garoto, que concluiu o fundamental sem saber formar uma frase sozinho.

No ensino médio, nenhuma escola dizia ter preparo para atendê-lo. E ele, agora com 16 anos, sabe escrever em um ditado, mas não junta as palavras. “Não há metodologia de ensino. Tentei dar autonomia, mas hoje ele não está na escola. Faz oficinas em escola especial.”

Inclusão. As dificuldades, em todas as etapas, passam principalmente pela falta de formação docente e de infraestrutura. “É importante que no Brasil haja debate mais aprofundado sobre formação docente para educação inclusiva”, diz Priscila Cruz, do Todos pela Educação.

Para ela, houve avanço no País desde a implementação da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva – quando as redes educacionais tiveram de matricular alunos com deficiência em salas regulares, não mais em escolas especiais, consideradas “segregadas” por especialistas.

Dados comprovam que a política se efetivou: em 2007, só metade dos alunos com deficiência estava em escolas regulares, 12% em classes especiais – salas adaptadas em colégios regulares – e 38% em escolas exclusivas. No ano passado, eram 96,3% em classes comuns.

A dona de casa Márcia Maria Batista, de 39 anos, enfrenta uma batalha para manter os filhos na sala de aula. Thamirys, de 9 anos, e Renan, de 11, têm paralisia cerebral. Ele foi para um colégio regular, mas não se adaptou. “Como tem baixa visão e audição, tentei colocá-lo em escola comum. Não deu certo. Ele é diferente, tem quadro mais grave.” Então ela optou pela escola especial, onde diz que há “atendimento melhor”.

Mesmo no caso de Thamirys, que conseguiu manter em escola municipal regular, há reclamações. “Tenho de brigar quase todo dia, pois ela tem dificuldade para comer e não dão comida na boca nem trocam fralda.”

Como a menina não fala nem escreve sozinha – alguém precisa segurar em sua mão – a maior queixa da escola, diz a mãe, é de que há poucos profissionais. “Ela é inteligente, faz lições de casa, sabe distinguir as coisas. Mas os professores têm dificuldade e não sabem ensinar.”

Poder público. A Secretaria Municipal de Educação diz que “não há registro de queixa da família” e que Thamirys tem “apoio de auxiliar de vida escolar para locomoção, higiene e alimentação”. Há 1.109 alunos na escola – 33 com deficiência.

O Ministério da Educação informa que tem programas para a inclusão, como formação continuada de docentes e recursos para adaptações arquitetônicas e tecnológicas em colégios. Em dezembro, os repasses contemplaram 4.265 novas escolas. Também investe, diz, na distribuição de livros e veículos de transporte escolar acessíveis.

Vários jeitos de aprender. Há baixa expectativa das escolas em relação ao aluno com deficiência, o que faz com que “desistam” dele antes de encontrarem áreas em que ele possa ter sucesso, afirma Rodrigo Hubner Mendes, superintendente do Instituto Rodrigo Mendes, especializado no assunto. 

“Isso pode ser mudado com uma pedagogia que dialogue com as particularidades de cada um, que personalize planos de aula e atividades didáticas.” Para Mendes, é preciso superar a ideia de que há uma forma única de aprender, já que todos os alunos, independentemente de ter ou não deficiência, enfrentam mais dificuldades em certas áreas. 

“Não é pensar que o aluno vai chegar no mesmo ponto que todos, mas garantir que esteja incluído nas atividades, ainda que saia dela com conhecimentos mais superficiais”, defende a fundadora do Movimento Down, Maria Antonia Goulart. 

Ela vê avanço nos últimos anos e diz que a geração que chega agora à escola terá mais facilidade em aprender. “Esses alunos que estão hoje no ensino médio e na graduação fazem parte de uma geração que foi muito alijada do direito à educação. Não existia educação inclusiva praticamente.” 

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Jovem superou paralisia cerebral e conseguiu se formar em Jornalismo

Ana Raquel Mangili sofreu com a falta de profissionais preparados na educação básica e precisou contratar especialistas

Luis Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2017 | 03h00

SÃO PAULO - A jornalista Ana Raquel Périco Mangili, de 22 anos, teve todos os motivos para abandonar os estudos. Mesmo em colégios particulares, ela sofreu com a falta de profissionais preparados e precisou contratar especialistas para tarefas básicas – o que deveria ser garantido pela própria escola, segundo a lei –, além de problemas de acesso. Ela tem distonia generalizada - distúrbio que afeta principalmente o movimento de seus braços - e  deficiência auditiva. Formou-se em 2016 em Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Uma das maiores dificuldades era encontrar escolas que atendessem às suas necessidades na pequena cidade de Barra Bonita, com 35 mil habitantes. “Só havia quatro escolas (particulares) de ensino médio na cidade”, diz.

Quando finalmente deu início ao ensino médio, a jovem era a única com deficiência em toda a escola. Isso fez com que, muitas vezes, suas demandas fossem ignoradas pela direção e professores. Em um dos casos, solicitou adaptação dos materiais audiovisuais usados em sala, com legendas específicas. Em alguns casos, os professores ajudavam depois com explicações sobre os vídeos.

“A escola não fornecia isso. Os professores passavam vídeos sem legendas e só me pediam desculpas. Quando eu ia reclamar, a direção falava que apenas eu era surda na escola inteira e que a demanda não justificava o trabalho. No começo, voltava chorando, porque via apenas as imagens e não entendia os áudios. Sempre foi algo angustiante”, relata.

Fundamental. No ensino fundamental não havia sido diferente. Os pais precisaram custear uma monitora dos 5 aos 13 anos. “O que (a escola) oferecia era uma ajuda das próprias serventes da escola na hora do intervalo. Pela minha pouca mobilidade dos braços, eu preciso de acompanhante em tempo integral. É comum que as escolas se neguem a oferecer este tipo de recurso.”

A situação começou a melhorar ao ingressar no ensino superior, em 2013. Na Unesp de Bauru, a 45 minutos da sua cidade, Ana Raquel conta que havia uma monitora que já a esperava no ponto de ônibus. “As questões de acessibilidade melhoraram muito. Na Unesp, há um grupo de estudos especializado para a produção de legendas. Eles legendavam praticamente todos os conteúdos passados em sala.” Ela também ganhou mesa e cadeira maiores.

Ana Raquel conseguiu até um monitor para um intercâmbio: estudou 21 dias na Universidade de Salamanca, na Espanha, com todas as despesas pagas.

O trabalho de conclusão de curso foi a produção de um site – dyskinesis.com – de notícias e informações para pessoas com distúrbios de movimento no Brasil e pesquisadores do tema.

“Os distúrbios de movimento, por si só, causam apenas algumas limitações no deslocamento e na movimentação necessária para atividades físicas. O potencial humano de cada um transcende essas barreiras, e, para isso, se faz necessário apoio social e de acessibilidade para termos mais igualdade de oportunidades e futuros plenos para todos”, escreve Ana Raquel, no texto de apresentação do seu site.

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