Apesar da adesão majoritária, alunos e docentes se dizem prejudicados pela greve

Indefinição do calendário e repetição de aulas estão entre principais problemas apontados

Cristiane Nascimento, especial para Estadão.edu,

06 Junho 2012 | 22h46

Rodrigo Emrich Braz, de 19 anos, é aluno de Economia da Universidade de Brasília (UnB). No dia 18 de junho, o estudante deve embarcar para o Reino Unido, onde fará um curso de verão na London School of Economics. Seus planos, entretanto, foram abalados pela greve das federais, que completou 20 dias nesta quarta-feira. No caso da UnB, especificamente, a paralisação teve início no dia 21 de maio.

Na última semana, o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) da instituição suspendeu as datas finais do calendário acadêmico e garantiu a reposição integral das aulas aos alunos grevistas após findada a paralisação. Rodrigo, no entanto, não pode esperar. Das sete cadeiras que cursa neste semestre, apenas três não tiveram as aulas suspendidas. O jovem tenta agora negociar avaliações antecipadas com os professores, para que consiga viajar sem deixar pendências para trás."Na pior das hipóteses, trancarei as matérias, pois não posso perder uma oportunidade como esta", diz. Segundo o jovem, já está tudo acertado e pago.

Assim como Rodrigo, seu colega Felipe Carneiro Bicalho, de 20, continua frequentando a universidade. Das cinco matérias que cursa, apenas uma foi suspensa. Atualmente, em dois dias da semana, o estudante  se desloca até o câmpus para assistir a uma aula apenas. A seu ver, o contexto torna a rotina "complicada e ineficiente". "Quando a greve acabar, terei ainda de repor as aulas que não estão sendo dadas e não terei tempo para descansar e viajar", reclama.

Felipe acredita que os professores federais merecem uma atenção maior do governo, mas discorda da forma como isso tem sido colocado em jogo. "A greve não deveria, em hipótese alguma, ser a primeira medida a ser tomada pelos docentes, ainda mais no meio de um semestre letivo", diz.

Opinião semelhante tem Myriam Lucía Arango, do departamento de Letras da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Para a professora, contrária à realização de greves no campo da educação, o diálogo deve prevalecer até o último momento. "Até mesmo porque são sempre os estudantes os mais prejudicados nesses casos", afirma.

Apesar de permanecer dando aulas, Myriam diz que a frequência de alunos tem sido cada vez menor, pois estudantes têm pressionado colegas e professores para que adiram à greve. Com isso, ela trabalha hoje com cerca de 50% de suas turmas - um problema, na sua opinião. "O pior disso tudo é que poucos realmente têm consciência da luta que existe por trás do movimento", diz. Segundo ela, alguns de seus alunos passaram a apoiar a greve, coincidentemente, às vésperas de uma avaliação. Sobre a possibilidade de ter de repetir o conteúdo dado aos grevistas, Myriam reconhece que isso pode transformar-se em um fato, mas confessa não saber como lidar com a situação pelo seu "ineditismo".

Roberto Elleri Júnior, professor de Macroeconomia da UnB, também discorda da decisão tomada pela maioria dos sindicatos de docentes federais do País. Para ele, a paralisação foi precipitada. "Anunciar uma greve quando se tinha uma negociação em aberto com o governo e quando este já havia se sensibilizado diante das nossas reivindicações, é algo que não me entra na cabeça", diz.

Por discordar da paralisação, Elleri diz sentir-se constrangido pelos colegas, como se tivesse a obrigação de apoiar a greve. Ainda assim, o professor continua ministrando suas aulas normalmente. A decisão por parar ou não, no entanto, foi entregue a seus alunos. "Não quero prejudicar os estudantes, mas enquanto a maioria optar por ter aulas, eu as darei", afirma.

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