Análise: uma nova forma de aprender

De volta aos bancos da universidade após 25 anos da primeira graduação, Jairo Bouer conta experiência

Jairo Bouer, O Estado de S. Paulo

17 Outubro 2014 | 23h00

 Em março de 1984, começavam minhas primeiras aulas na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Um salto no tempo e, 25 anos depois, em 2009, voltava às salas para assistir às aulas iniciais da minha segunda graduação, em Biologia, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que espero estar em vias de acabar!

Para minha surpresa, o imenso intervalo de tempo não revelou nenhuma grande mudança na forma de se dar aula e de se tentar transmitir conhecimento. Um mundo que deu tantas voltas nesse quarto de século, principalmente em termos de tecnologia e na forma de o jovem se relacionar com a informação, não conseguiu chacoalhar a universidade brasileira.

Essa distância entre a forma que o professor ensina e a maneira que o aluno absorve conteúdos é hoje, a meu ver, uma das principais causas da monotonia que impera nas salas.

Quem dá aula hoje na universidade, por mais que carregue doutorados e pós-doutorados nas costas, sabe da dificuldade que é atrair e manter a atenção dos jovens alunos em formação. Lógico que há honrosas exceções, mas elas não são a regra.

Aqueles que não dormem mergulham na internet em seus celulares, tablets e notebooks. Alguns até usam o tempo de aula para finalizar trabalhos ou estudar para provas, via de regra, de outras disciplinas. Mas a esmagadora maioria navega sem rumo, em papos intermináveis ou trocas de mensagens e posts nas redes sociais. São raríssimos os que realmente interagem com o professor ou que usam a rede para pesquisar assuntos que tenham a ver com o que se discute na classe.

O professor segue atônito, despejando conteúdo, que depois é colocado à disposição para os alunos em algum tipo de ambiente virtual, onde realmente é acessado. O quadro negro foi aposentado, os cadernos são relíquias e os livros passam muito mais tempo na biblioteca do que na casa dos estudantes. Vivemos a ditadura do datashow e PowerPoint (ou de análogos mais moderninhos), que tentam ilustrar melhor os conteúdos e cativar uma plateia desatenta. Mas nem eles seguram os alunos nas aulas. Classes vazias, altos índices de evasão (mesmo nas universidades públicas) e retenção de conhecimento no mínimo questionável fazem pensar se estamos mesmo fazendo a coisa certa. Os planos de ensino são extensos, os currículos, engessados, e mudanças enfrentam resistências. 

Algumas universidades de ponta no mundo resolveram inovar. Para começar, permitem uma mobilidade muito maior do aluno pelo universo acadêmico. Muitas vezes, ele próprio vai moldando seu currículo, a partir de seus interesses e necessidades.

A sacralidade da aula convencional também foi posta em xeque. Houve uma redução importante do tempo que o aluno passa dentro da sala. Menos tempo em aula para que ele possa se dedicar mais a estudar, pesquisar, investigar, buscar e criar soluções (comportamentos e atitudes que ele está muito mais habituado a ter na rede).

O professor exerce um papel mais de tutor do que da figura clássica que passa o dia na frente da sala, despejando conhecimentos pouco absorvidos. Ele coloca à disposição conteúdos e bibliografia, sugere alternativas, propõe desafios, discute obstáculos e resultados e estimula os alunos a desenvolver ferramentas e habilidades para a solução de problemas.

A informação é compartilhada de forma mais horizontal do que no modelo tradicional de ensino. Mais experimentos, mais aulas práticas, mais saídas de campo, mais contato com a realidade, mais estágios, mais “hands on” (mão na massa, em livre tradução). Enfim, uma atitude mais participativa e menos contemplativa. Com isso, o aluno passa menos tempo sentado, olhando para as paredes. Ele deixa de ser um receptor passivo da informação. 

Nesse novo modelo, as próprias provas (sim, aquelas que fazem com que o aluno estude horas a fio, madrugadas adentro, sempre na véspera) perdem espaço. O conhecimento que parece desaparecer depois do primeiro banho ganha, talvez, uma perenidade maior quando adquirido no processo de construção de soluções, na resolução concreta de problemas.

Mas será que o estudante que sai hoje do ensino médio brasileiro está pronto para se adaptar a uma nova universidade, que funcione com outro modelo de aprendizado? O desafio e a necessidade podem criar a oportunidade para que o jovem se transforme, supere-se e saia de uma posição confortável e acomodada. A mudança pode, sim, fazer toda a diferença!

*Jairo Bouer é psiquiatra

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