Análise: O que dizem os números do Times Higher Education

Especialista detalha dados divulgados nesta semana que colocam o Brasil com seis universidades a menos na lista de 1000 melhores do mundo

Renato Pedrosa*, O Estado de S.Paulo

07 Setembro 2017 | 14h08

Os resultados do ranking mundial de universidades THE 2017-18, publicados no dia 5/9, receberam atenção da mídia, que enfatizou o fato de que o número de instituições brasileiras entre as 1000 melhores do mundo caiu de 27 para 21, em relação ao ranking do ano anterior. Apesar de ser um ponto importante, há outros aspectos da participação brasileira que merecem comentário.

Primeiramente, o ranking anterior (THE 2016-2017) listava 981 instituições, o corrente inclui 1.102. O número total de universidades brasileiras subiu de 27 para 32, um aumento de participação de 2,8% para 3,0% do total.

Como comparação, o número de universidades chinesas passou de 52 para 63 (de 5,3% para 5,7% do total), e o número delas entre as 1000 primeiras passou de 52 para 60, indicando que o sistema chinês ampliou sua competitividade, enquanto o do Brasil o perdeu, por esse critério. Olhando o grupo das 500 primeiras classificadas, o Brasil passou de 2 (USP e Unicamp) para 3 universidades (Unifesp a mais). A China, em comparação, tem 22 universidades nesse grupo (eram 21 no ano anterior). Mas o maior contraste está no grupo de elite, as 200 primeiras. Ali, o Brasil não tem nenhuma instituição, a China coloca 7, sendo 2 entre as 50 primeiras (U. Peking, 27a, e U. Tsinghua, 30a). A Coreia do Sul, outro país asiático, tinha 25 universidades no ano passado e agora inclui 27. Entretanto, coloca 4 entre as top200 e 2 entre as 100 primeiras. Entre as 500 primeiras, são 11 universidades, nos dois últimos rankings, mostrando um desempenho muito superior ao do Brasil.

Observando o grupo brasileiro em mais detalhes, destacam-se a ascensão da Unifesp, que subiu de faixa, da 601-800 para a 501-600, com escore final passando de 27,5 para 30,9, a queda da UFPr, do grupo 601-800 para o 1000+, com queda no escore final de 19,0 para 12,6 pontos, e a eliminação da UFBa (que estava no grupo >800 com escore 13,1). Como é impossível que uma instituição apresente variações reais muito significativas entre dois anos, parte das variações se deve a mudanças na forma como as universidades passam as informações para os órgãos que desenvolvem os rankings. Esse deve ser o caso da UFPr e da UFBa.

Hoje, na China, na Coreia do Sul e mesmo em países europeus nos EUA, há órgãos internos nas universidades cuja finalidade é coletar, organizar e transferir informações para órgãos de governo e outros, como os publicam os rankings. Isso ainda é incipiente no Brasil, mas os dados desses dois últimos anos do THE mostram que, com poucas exceções, todas as universidades melhoraram seus escores finais, algumas significativamente, além da Unifesp: Unesp (+3,4), UFSCar (+3,4), UFABC (+2,9), UEL (+2,8), UFCe (+2,7), UFPe (+2,6) e UFOP (+2,5). As que apresentaram queda no escore final foram: USP (-0,8), UERJ (-1,7), UFLavras (-2,4) e a UFPr (-6,4). A tabela geral com escores nos dois anos, classificações no ranking e no grupo, e variação entre escores, está a seguir.

 

 

Class 2017-8

Class 2016-7

Instituição

THE 2016-7

THE 2017-8

Score2016-7

Score2017-8

Variação

1

1

USP

251—300

251–300

46,0

45,2

-0,8

2

2

Unicamp

401—500

401–500

36,7

37,7

1,0

3

3

Unifesp

601—800

501–600

27,5

30,9

3,4

4

4

PUC-RJ

601—800

601–800

26,7

27,1

0,5

5

5

UFMG

601—800

601–800

23,7

25,1

1,4

6

6

UFRJ

601—800

601–800

23,2

25,1

1,9

7

8

UFABC

601—800

601–800

21,6

24,5

2,9

8

11

Unesp

601—800

601–800

19,5

22,9

3,4

9

7

UFRGS

601—800

601–800

22,1

22,8

0,7

10

-

UFItajuba

 

601–800

 

22,5

 

11

9

PUC-RS

601—800

801–1000

21,1

21,3

0,2

12

10

UFSC

601—800

801–1000

20,5

20,7

0,2

13

-

UFPel

 

801–1000

 

19,9

 

14

-

UNB

 

801–1000

 

19,6

 

15

15

PUC-PR

> 800

801–1000

16,4

18,6

2,2

16

16

UFSCar

> 800

801–1000

15,2

18,5

3,3

17

17

UFCe

> 800

801–1000

14,8

17,5

2,7

18

-

UEPGrossa

 

801–1000

 

17,3

 

19

19

UFPe

> 800

801–1000

14,2

16,8

2,6

20

18

UFRN

> 800

801–1000

14,4

15,8

1,4

21

14

UERJ

> 800

801–1000

17,4

15,7

-1,7

22

21

UFV

> 800

1001+

13,6

15,3

1,6

23

24

UEL

> 800

1001+

12,3

15,2

2,8

24

13

UFLav

> 800

1001+

17,6

15,1

-2,4

25

-

UVSinos

 

1001+

 

14,4

 

26

25

UFOP

> 800

1001+

11,8

14,3

2,5

27

23

UFF

> 800

1001+

13,0

14,2

1,2

28

20

UFG

> 800

1001+

13,8

14,0

0,2

29

26

UFSM

> 800

1001+

11,7

13,0

1,4

30

12

UFPr

601—800

1001+

19,0

12,6

-6,4

31

27

UEM

> 800

1001+

11,4

12,2

0,8

32

-

Unioeste

 

1001+

 

10,6

 

-

22

UFBA

> 800

 

13,1

 

 

 

Um comentário final: muitos questionaram como a Unicamp poderia ter sido a 1a colocada no ranking THE Latin America e agora aprece atrás da USP no ranking mundial. A resposta está em como os indicadores estão construídos. Tanto o de ensino quando o de pesquisa levam em conta pesquisas de reputação, sendo que, no caso do THE LaTam, os pesquisados são pessoas da AL. No caso do THE internacional, são pessoas de todo mundo. A USP seria mais reconhecida no contexto mais amplo do que no contexto restrito, em relação à Unicamp, resultando na inversão da classificação.

*É pesquisador do Laboratório de Estudos em Educação Superior da Unicamp

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