Análise: Nossas instituições insistem na formação ‘bitolada’

'Nos países onde há iniciativas governamentais ou associações para buscar a excelência, os efeitos se fazem notar'

Leandro Tessler, O Estado de S. Paulo

03 Dezembro 2014 | 19h54

O Times Higher Education BRICS & Emerging Economies Rankings 2015 que acaba de ser lançado não apresenta novidades importantes para o Brasil, exceto talvez pelo efeito psicológico da USP ter entrado nas top 10 (ano passado era 11). As mudanças nas posições das demais estão dentro da precisão da avaliação do ranking, que usa exatamente os mesmos parâmetros e pesos do THE World University Ranking, com suas virtudes e limitações. 

Os parâmetros utilizados estão sujeitos a flutuações e a cada ano é impossível determinar com precisão a posição de uma universidade de forma que pequenas flutuações como as experimentadas pelas universidades brasileiras não têm grande significado. Ruim para o Brasil é continuarmos com apenas quatro instituições entre as top 100. 

Países onde há iniciativas governamentais ou de associações de universidades para buscar a excelência os efeitos se fazem notar. É o caso da China com 27 universidades entre as top 100. Os projetos 211 e 985, que consistem em injetar quantias importantes para financiar as melhores (não todas) as instituições do país, além de buscar atrair pesquisadores e professores de classe mundial foram fundamentais. A Liga C9, que congrega as 9 melhores universidades do país, atua como um bloco em busca de parcerias internacionais qualificadas. Isso é muito mais que enviar massivamente estudantes para o estrangeiro. É importante também notar a entrada do inglês como língua de instrução nas melhores universidades chinesas, o que contribui fortemente para atrair gente qualificada do mundo todo.

Talvez parte do segredo de estar no topo da lista esteja guardado na frase dita por Enge Wang, reitor da Peking University ao receber a honraria hoje em Moscou: “...liberdade irrestrita de exploração intelectual nas questões fundamentalmente importantes na ciência e na humanidade. A Peking University acredita que uma educação liberal nas artes, humanidades e ciências sociais é indispensável, e que uma educação geral e integrada em ciência é essencial para os futuros líderes”. 

Infelizmente no Brasil as melhores universidades insistem na formação temática bitolada, estanque e com excesso de aulas expositivas na formação de seus alunos. Precisamos aprender com as melhores práticas.

Leandro Tessler é professor do Instituto de Física da Unicamp e especialista em ensino superior

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