Análise: Metas ambiciosas impõem agora um choque de realidade

Diretor executivo e coordenador de projetos da Fundação Lemann

Denis Mizne e Ernesto Martins Faria, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2014 | 03h00

Alcançar o Ideb projetado para 2021 nunca pareceu tão difícil para o Brasil. Enquanto as metas ficam mais ambiciosas, o indicador avança pouco no ensino fundamental e permanece estagnado no ensino médio. Os avanços já eram pequenos em 2011, mas ao não bater as metas estabelecidas em duas das três etapas, enfrentamos agora o choque de realidade. 

Destrinchando um pouco o indicador e olhando para os seus dois componentes - taxas de aprovação e aprendizagem - vemos ainda que as metas não batidas se devem ao fato de que a maioria dos alunos não está aprendendo (a aprovação melhorou; são as notas na Prova Brasil que caíram ou não melhoraram). 

Um ponto merece atenção na análise dos resultados: o desempenho dos alunos nos anos iniciais, como regra, tem sido o teto para o desempenho nas etapas seguintes. Nosso sistema educacional não tem mecanismos estruturados para garantir que os alunos que não aprenderam Português e Matemática no início da vida escolar consigam superar essa defasagem e seguir com sucesso seu percurso. 

Os dados refletem um cenário onde temos, reconhecidamente, muito esforço - mas ainda pouco foco na aprendizagem e no que acontece em sala de aula. Boa parte do debate público educacional recente foi centrado no porcentual do Produto Interno Bruto (PIB) ou nos recursos do pré-sal que seriam destinados à educação - ambos os casos discutidos no Congresso Nacional. Não existe o mesmo engajamento e mobilização para discutir as práticas escolares e as reformas estruturantes que fazem a diferença para o aluno efetivamente aprender. 

Temos agora a oportunidade - e o desafio - de usar estes resultados para acelerar as mudanças necessárias. Uma prioridade é avançar na definição do que é essencial que os alunos aprendam, construindo uma Base Nacional Comum de altas expectativas, que seja clara e concisa, e ajude a alinhar e organizar o sistema educacional. 

Uma segunda mudança urgente é conseguir preparar os nossos professores para garantir o aprendizado dos alunos. Para isso, os cursos de formação inicial e continuada precisam se voltar mais para a prática e o desenvolvimento desses profissionais terá de incluir mais apoio contínuo e orientação. Por fim, é necessário criar mecanismos para que as redes e escolas com mais dificuldades também consigam avançar. Por exemplo, incentivando a troca com aqueles que estão conseguindo bons resultados e destinando mais recursos para os que mais precisam. 

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