Análise: Ler com crianças

Há uma grande diferença entre dizer que as crianças pequenas podem viver muitas coisas interessantes na experiência da leitura e que têm de ler para se fazerem inteiras. Crianças podem muito bem crescer sadias, felizes e inteligentes sem vivenciar por um bom tempo (pelo menos até os 4 anos) nenhuma experiência com o texto escrito. Não há imperativo psicológico ou pedagógico que estabeleça a necessidade de a criança pequena ter de ler para o bom desenvolvimento cognitivo e afetivo. Sabemos que as crianças crescem e se desenvolvem em função das formas como estabelecem as relações de interação com o outro humano; sabemos também que, neste processo, ela se põe inteira e experimenta e utiliza toda a potência de seu corpo. “Na criança enfrentam-se e se implicam mutuamente fatores de origem biológica e social”, ensina Henri Wallon. 

Luiz Percival Leme Britto, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2017 | 05h00

Em seu primeiro ano de vida, a criança realiza um gigantesco trabalho de auto-organização, em que a percepção do espaço e o desenvolvimento das bases da linguagem são essenciais. Ela não fala e não compreende a fala, especialmente do modo como o adulto a realiza e a compreende. Desde cedo, tratará, em parte pelo dinamismo de seu organismo, em parte pela informação que vem do outro que a acolhe, a operar com as formas da língua. O som da voz humana é matéria primordial para sua descoberta, e isso se faz nas conversações que o adulto tem com ela, com as cantigas, os ninares, os cantos e contos. Há que reconhecer que ler para a criança no ventre e em seu primeiro ano não é ler no sentido convencional. O conteúdo que recebe é outro, relacionado com o afeto e não com os sentidos referenciais. Importa a interação focada e intensa, o que pode ser feito com o livro, histórias, cantigas, conversas. 

O mais significativo para a criança é a diversidade e a intensidade de experiências. Crianças com possibilidade de experimentar-se na vida sem a violência do silenciamento, que brincam e mexem com as coisas, que ouvem história e cantorias, e que interagem com diversidade de registros orais desenvolvem-se com a mesma intensidade que “crianças leitoras”. A leitura – é justo que se diga –, mesmo quando intensa e com textos criativos, é uma possibilidade, mais que uma necessidade. Uma ótima possibilidade, mas, ainda assim, uma possibilidade.

Por outro lado, é mister observar que ler com a criança, especialmente quando se faz dessa atividade um momento de estar juntos, instaura um espaço privilegiado de intersubjetividade, de efeito recíproco, com claras repercussões na constituição da personalidade e no desenvolvimento integral.

A leitura e a circunstância que se cria com ela instauram um vínculo que permite elaborar tensões psíquicas, de projeções de desejos e ansiedades, e de produção de memória de um fazer comum em que se exploram lugares, pessoas, coisas reais e imaginárias.

O texto, a história e o livro são, nesse sentido, objetos da experiência conjunta, mediadores materiais (culturais e físicos) do vínculo. Daí a importância da rotina: a na repetição criativa e prazerosa (não é só o prazer do texto, é o prazer de estar fazendo junto a leitura) torna-se um forte elo entre o adulto e a criança, elo que repercutirá por toda a vida. Essa dinâmica, é verdade, pode ser instaurada de outras formas e com outros objetos, e é bom que assim seja. A diversidade das experiências apenas enriquece a vivência com as coisas do mundo, a intersubjetividade e o afeto. A particularidade da leitura está exatamente na especificidade do objetivo e na dimensão projetiva para fora de si e para o mundo da cultura, bem como no tipo de investimento intelectual e cognitivo que ela implica.

* Doutor em Línguistica, é professor da pós-graduação da Universidade Federal do Oeste do Pará. 

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