Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Alunos relatam experiência de cursar a USP

Concorrência média é de 15,5 candidatos/vaga; 172 mil se inscreveram no último vestibular

Marina Azaredo e Paulo Saldaña, O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2014 | 03h00

Muito antes de imaginar que um dia estaria na faculdade, Matheus Kallio de Sá Pereira já pensava que a USP seria um bom lugar. "Quando era novo, ela era uma coisa de TV para mim, sempre ouvia no jornal sobre pesquisas da universidade. Devia ser um bom lugar para estar, de gente inteligente, eu pensava."

Aos 18 anos, ele passou pela peneira da Fuvest e chegou lá. Foi aprovado em Engenharia no ano passado. "Ainda fico maravilhado com o lugar onde estou, realizado por ter conseguido chegar aqui."

O estudante é o primeiro da família a cursar o ensino superior. Filho de pais nordestinos, morador da zona leste, Matheus se acostumou a ser o primeiro da turma nas escolas públicas pelas quais passou até a 6.ª série. A partir do ano seguinte, conseguiu uma bolsa do Instituto Social para Motivar, Apoiar e Reconhecer Talentos (Ismart). A USP surgiu como uma possibilidade real no Colégio Bandeirantes, onde ficou até o 3.º ano do ensino médio.

"Antes eu não conhecia ninguém que tinha entrado na USP", conta ele, que arranja tempo entre os estudos, as aulas de alemão e a iniciação científica para fazer remo na raia olímpica da Cidade Universitária. No futuro, quer atuar no mercado financeiro, área povoada por engenheiros.

Concorrência. A universidade ofereceu 11.057 vagas para 2014 e, com 172 mil inscritos no vestibular, a concorrência média foi de 15,5 candidatos por vaga - em carreiras mais concorridas, como Medicina, passa de 60.

A maior expansão dos últimos anos ocorreu com a USP Leste, a partir de 2005. Com dez graduações, a unidade passou a oferecer 1,02 mil vagas a cada ano (mais informações na página 4). Os dados mais recentes, de 2012, mostram que praticamente metade dos ingressantes da USP Leste vinha de escola pública.

Mas a situação não se repete no geral. No último ano, 28% dos matriculados na USP eram da rede pública - porcentual menor do que o de 2012.

Meta. A USP estipulou no ano passado a meta de ter 50% de seus alunos, por curso, vindos de escola pública até 2018. A instituição descartou a adoção de cotas - como já ocorre nas instituições federais de ensino superior - e apostou no aumento do bônus na pontuação do vestibular, com acréscimo maior para candidatos autodeclarados pretos, pardos e indígenas.

Para o professor Marcus Orione, da Faculdade de Direito, a universidade terá de rever as regras. "A USP não tem como ficar indiferente ao que ocorre nas federais", diz.

Pioneira em território masculino

Em 1933, Aida Bortolai Libonati, então com 19 anos, decidiu fugir do destino quase certo das mulheres da época: casar, ter filhos, cuidar da casa. Primogênita de uma família de imigrantes italianos, ela decidiu realizar o sonho do pai mecânico, que queria um filho médico. Depois de um curso preparatório para o exame de ingresso na universidade - espécie de vestibular da época -, ela foi aprovada e se tornou uma das quatro mulheres da turma de 81 alunos que se formou em Medicina na USP em 1940.

"Eles (colegas de classe) eram muito delicados, não eram como os homens de hoje, que são tão grosseiros. Tínhamos uma convivência muito boa", lembra Aida, que faz 100 anos em outubro. Depois de formada, a médica encarou jornada dupla, expediente raro para as mulheres da época.

O consultório de Aida ficava na casa da família no Ipiranga, zona sul de São Paulo. Clínica geral, ela dividia o lugar com o marido, o cirurgião João Raphael Libonati, morto em 2001. Os dois se conheceram no curso preparatório para o ingresso na USP e começaram a namorar durante a faculdade. "Imagina, eram quatro mulheres para todos aqueles homens. Ela era bonita, acabou ficando com um deles", brinca o médico Sérgio Libonati, de 70 anos, um dos dois filhos de Aida. "Éramos uma família de classe média, e os dois tinham de trabalhar. Mas ela foi uma mãe muito zelosa", diz.

Sem preconceito. Na década de 1940, a USP era um território predominantemente masculino também em outras unidades. No Direito, por exemplo, dos 207 formados em 1940, apenas sete eram mulheres. Hoje, elas representam 48% dos alunos em toda a universidade. Mas Aida afirma não ter enfrentado preconceito. "Todos os colegas foram boníssimos comigo. Tínhamos de estudar muito, mas foi um tempo ótimo."

Nas primeiras décadas, somente filhos de classe média e classe média alta tinham acesso à universidade. "Era um ambiente de intelectuais. As aulas eram como palestras. O curso de Direito era conceitual e humanístico. Discutíamos questões do homem e do Direito, e não a prática forense. Hoje, o advogado não é mais um intelectual, é um homem de escritório", diz o diretor de teatro e cinema Emilio Fontana, que também estudou na Escola de Arte Dramática.

"Meu pai estudou na USP, então tive influência dele para entrar na São Francisco", conta a advogada Maria Cecília Prestes Yirula, que frequentou o curso de Direito de 1967 a 1971. "Foi um período ótimo e uma das coisas que mudaram a minha vida." / COLABOROU VICTOR VIEIRA

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