ALEX SILVA/ESTADÃO
ALEX SILVA/ESTADÃO

Alunos de escola pública retribuem ajuda nos estudos

Estudantes bolsistas na cidade de São Paulo têm a oportunidade de ajudar os mais novos e, para isso, enfrentam até jornada integral

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

21 Setembro 2015 | 03h00

SÃO PAULO - De aluno de uma escola estadual em Campo Limpo, na periferia da zona sul de São Paulo, a tutor em sala de aula do Colégio Santo Américo, na zona oeste. Contemplado com uma bolsa integral do Instituto Social para Motivar, Apoiar e Reconhecer Talentos (Ismart), o aluno do 1.º ano do ensino médio Ryan Rodrigues, de 14 anos, decidiu retribuir a conquista se tornando auxiliar de estudos dos colegas.

Desde que entrou no colégio, Ryan passou a participar de tutorias para estudantes bolsistas mais novos e até se ofereceu para dar aula de História em um curso de férias. Como ele, outros alunos contemplados pelo Ismart são incentivados a participar dessas atividades. A proposta é adaptá-los ao novo ambiente e às dificuldades com as disciplinas.

O programa do Ismart se divide em duas partes: depois de aprovado em um processo seletivo próprio, o aluno faz um cursinho de dois anos em uma escola privada, onde atualiza qualquer defasagem que tiver em relação ao conteúdo. 

É nessa etapa em que os estudantes mais velhos – do segundo ano – ajudam aqueles que acabaram de entrar. Durante esse período, eles ainda estão vinculados à escola anterior e precisam frequentar as classes normalmente, o que torna a jornada de estudos integral. “No começo, eu fiquei um pouco desconfiado sobre toda essa carga horária que ia enfrentar”, relatou o jovem.

Depois que se tornam alunos do colégio, no ensino médio, os bolsistas têm a opção de continuar a tutoria, desta vez como professores de um curso de férias para os que ainda não foram aprovados. “Eu já pensava em ser professor do cursinho mesmo antes de entrar no ensino médio”, contou Ryan.

“Foi uma ótima experiência. Perdi o nervosismo de falar em público, aprimorei meu vocabulário. A gente tem um dia quase como o de um professor”, contou. Segundo Rodrigues, ensinar aos colegas também o deixou mais próximo dos conteúdos. “Eu tive de pesquisar mais, ficar bem informado sobre os assuntos de que falaria.”

Retribuição.Também bolsistas do Ismart, os estudantes João Vitor Araújo Costa, de 18 anos, e Gustavo Torres, também de 18, decidiram retribuir o apoio que tiveram no ensino médio. Ambos vindos de escola pública – em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, e Capão Redondo, na zona sul, respectivamente – e estudantes do Santo Américo, eles criaram em 2013 o projeto Descobrindo o Sonho Jovem (DSJ).

O trabalho é composto de dez workshops distribuídos ao longo de cerca de três meses, realizados para incentivar alunos da região do Capão Redondo a estudar e perseguir seus objetivos de vida. “São encontros semanais em que eles fazem atividades sobre autoconhecimento, inspiração e ação”, afirmou João Vitor.

Hoje ele é o principal responsável pelo programa, já que o colega conseguiu uma bolsa de estudos na Universidade de Stanford, na Califórnia, uma das mais respeitadas do mundo. 

A inspiração veio da história de vida dos colegas. “Nós percebemos o seguinte: se o Gustavo, que tem origem humilde, foi para os Estados Unidos, então tudo é possível. Queríamos passar essa mensagem a outros estudantes”, contou. 

Uma série de palestras sobre empreendedorismo social também ajudaram Ryan a construir o projeto. “Fiquei muito empolgado para colocar em prática aquelas ideias que aprendia nas palestras. E aí nós decidimos unir as coisas”, afirmou. Em dois anos, de acordo com ele, pelo menos 70 jovens já passaram pelo Descobrindo o Sonho Jovem. T

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