Carlos Lordelo/AE
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Alunos de Administração Pública da FGV conhecem realidade das favelas cariocas

Debate promovido pelo AfroReggae reuniu policiais e ex-líderes do tráfico em São Paulo

Carlos Lordelo, do Estadão.edu,

29 Agosto 2012 | 03h03

Imagine colocar na mesma sala ex-líderes das principais facções criminosas do Rio, além de um ex-miliciano, um sargento do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e um inspetor da Polícia Civil. O que anos atrás poderia acabar em tiroteio se transformou, pelas mãos da ONG AfroReggae, em uma série de debates itinerantes nos quais se discute do problema das drogas à relação entre políticos e traficantes. O projeto, batizado Comandos, teve sua primeira edição em São Paulo na tarde desta terça-feira, 28, na Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV).

 

Segundo o mediador dos encontros e coordenador executivo do AfroReggae, José Júnior, a ideia é apresentar ao público visões de mundo aparentemente opostas que agora estão unidas na luta pela transformação social. Os ex-traficantes e o ex-miliciano que estiveram em São Paulo cumprem (ou já cumpriram pena) e hoje trabalham na própria ONG ou em empresas conveniadas que lhes ofereceram uma porta de saída.

 

Diante da plateia, formada majoritariamente por alunos do 2.º semestre do curso de Administração Pública da FGV, a ex-líder do Comando Vermelho Roseli dos Santos Costa, a Rose Peituda, não hesitou em explicar, logo no início, que foi “dona de algumas favelas” e teria de voltar logo para o Rio, porque está presa em regime semiaberto e precisa dormir na cadeia. Só sai durante a semana, para trabalhar. “Para ser líder no tráfico não basta ter o respeito da comunidade. Você tem de se impor e ter disposição de cair para dentro”, disse. “Com o fuzil na mão eu achava que podia fazer tudo. Hoje me envergonho do meu passado. Não volto mais para o crime. Limpo até casa de madame se for preciso.”

 

Hoje João Paulo faz faculdade de Direito. Poucos colegas sabem de seu passado como líder da Amigos dos Amigos (ADA), uma das mais influentes organizações criminosas da capital fluminense. No Comandos, ele lembrou do ritual dos traficantes antes de iniciarem a tomada de bocas de fumo de facções concorrentes. “A gente fazia oração. Nossa maior gratificação era tomar a favela do inimigo”, afirmou. João Paulo começou a pensar em largar o tráfico quando o pai morreu e ele não pôde ir ao enterro, porque já era procurado pela polícia. Um de seus papéis no AfroReggae atualmente é negociar a rendição de traficantes da ADA.

 

A história de Washington Rimas, o Feijão, é igualmente complicada. Entrou na vida bandida aos 13 anos, fazendo pequenos favores aos líderes do tráfico. Em troca, ganhava balas e brinquedos. Um dia conheceu a geladeira duplex na qual a mulher do dono da boca guardava “uma porta inteira de iogurte”. “Meu sonho de consumo era ter uma geladeira igual àquela”, disse aos estudantes, arrancando risos meio constrangidos.

 

Aos 19 anos Feijão assumiu o controle da favela de Acari, na zona norte do Rio, após a morte do chefão do lugar, dominado pelo Terceiro Comando. Depois que foi preso, Feijão entrou para o AfroReggae e virou ator. Foi um dos protagonistas do filme Cinco Vezes Favela – Agora Por Nós Mesmos, escrito e dirigido por jovens de comunidades, com direção de Cacá Diegues. Tirou de letra o papel de traficante de drogas poderoso. “O Estado foi omisso para caramba durante cinco, seis décadas. E não foram só os bandidos que tocaram o terror na cidade, a polícia também fez isso”, afirmou. “As corregedorias precisam trabalhar forte para banir a promiscuidade dos policiais. Já teve denúncia de abuso de poder minutos após a polícia tomar o Morro do Alemão.”

 

UPP

 

A instalação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em favelas cariocas dominou parte da discussão. Para o sargento do Bope Sérgio Dantas, que participou da incursão em algumas favelas, a polícia tem de aproveitar o momento para se aproximar das comunidades. “Não é só tiro, porrada e bomba. A polícia precisa aproveitar a oportunidade dada pelo filme (Tropa de Elite) e pela pacificação.”

 

O inspetor da Polícia Civil José Magalhães disse que o objetivo das UPPs não é acabar com o tráfico ou a droga, mas com o poder bélico dos criminosos. “O grande problema do Rio é a arma”, afirmou. “O que falta é a presença do poder público nas comunidades.”

 

As UPPs ainda têm pouco efeito sobre outro problema do Rio, as milícias formadas por policiais corruptos que expulsam traficantes de algumas comunidades e impõem leis próprias. Ex-miliciano, o ex-policial militar Robson Holmes passou quatro anos preso. “O miliciano é um devorador de mundos. Ele só vai para a comunidade para sugar tudo que ela tem. Não cria vínculo algum”, disse. “Na época de eleição, político que quisesse fazer corpo a corpo na comunidade tinha de apoiar a gente, não a comunidade.”

 

Robson, Roseli, Washington e João Paulo foram beneficiados pelo projeto Empregabilidade, que encaminha presos que ainda cumprem pena e ex-detentos ao mercado de trabalho. Criado há quatro anos pelo AfroReggae, já tirou mais de 2 mil pessoas do tráfico, segundo José Júnior. Negros e ex-criminosos têm prioridade na recolocação profissional. “O preso não tem perspectiva. Perto da necessidade, o AfroReggae é apenas uma vírgula em um livro de 1 milhão de páginas”, disse o coordenador executivo da ONG.

 

Troca

 

De acordo com o professor Fernando Luiz Abrucio, coordenador do curso de Administração Pública da FGV, já passou a hora de São Paulo pensar na ressocialização da população carcerária. “Depois da queda do número de homicídios e do inchaço das cadeias, é preciso pensar em como trazer uma parcela da população de volta à vida em sociedade. Se o Estado não fizer isso, teremos uma bomba-relógio.”

 

Para ele, o AfroReggae tem muito a ensinar. “Eles estão integrando uma cidade em guerra. É um tipo de tecnologia social que precisa ser conhecida”, afirmou. Segundo Abrucio, o encontro foi importante para os alunos saberem da importância da sociedade civil nas ações sociais. “Muda a percepção deles. Eles passam a enxergar a violência como uma questão de ordem social mais ampla.”

 

O aluno João Otávio Figueiredo, de 20 anos, avaliou como “engrandecedora” a experiência de conhecer pessoalmente ex-integrantes de facções criminosas que estão conseguindo voltar à vida em sociedade. Durante o encontro, ele levou números sobre a população carcerária para basear suas perguntas. “O AfroReggae mostra ao Estado que há uma luz no fim do túnel da recuperação de pessoas. Esta foi a melhor aula que tivemos no curso até agora.”

 

Michael Cerqueira, de 18, concorda. “É muito fácil legislar de um palácio. Se você não conhece a realidade, como vai criar políticas públicas?”, questionou, após elogiar a iniciativa da FGV. “A academia tem de se desencastelar e conhecer mais de perto os problemas do País.”

 

O jogo político nas comunidades em época de eleições e a história de Roseli chamaram a atenção de Marina Liberman, Laura Abreu e Lúcia Andreatta, de 18. “Passei a me interessar ainda mais pela ideia da cadeia como um espaço para reformar as pessoas, com respaldo social. Não estas incubadoras de bandidos grandes que vemos hoje”, disse Lúcia. “O projeto Empregabilidade precisa ser expandido para todo o País. Tem bandido que é assim por falta de oportunidade”, completou Laura. “Integrar Estado e sociedade civil dá resultados positivos”, concluiu Marina.

 

Na avaliação de José Júnior, o encontro serviu para aguçar a consciência crítica dos estudantes. “Quem sabe essa garotada, futuros administradores públicos e CEOs de empresas, possa ter um olhar mais apurado, baixar um pouco a guarda e permitir que certos preconceitos possam ser resolvidos de maneira mais pacífica e sem traumas.”

 

O coordenador executivo do AfroReggae, no entanto, disse que o debate deve ser encarado apenas como um “prato de entrada”. No fim do evento, convidou os estudantes a conhecer comunidades pacificadas e o presídio Bangu, no Rio. Daqui para janeiro os detalhes da viagem serão acertados com a coordenação do curso.

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