Renata Jubran/AE - 6/4/2009
Renata Jubran/AE - 6/4/2009

Alberto Dines: 'Já houve inovações tecnológicas que pareciam catastróficas e foram absorvidas'

Jornalistas não conhecem a história da imprensa no Brasil, que será tema de disciplina em pós

Sergio Pompeu, Estadão.edu

30 Novembro 2010 | 12h50

Alberto Dines

A gente está fazendo uma matéria sobre o novo curso de Jornalismo da ESPM. Você vai cuidar da disciplina História do Jornalismo. Do que pretende tratar nas aulas?

Foi o nosso “reitor” Eugênio Bucci que escolheu essa disciplina. São poucas horas, 15 horas, que não é muita coisa. Eu preferi não fazer uma coisa cronológica, porque o tempo é insuficiente. Mas escolhi alguns tópicos que sirvam para contar algo do passado e tenham algum valor prospectivo. Quero falar sobre algumas transformações tecnológicas, o que é importante para tentar explicar às pessoas assustadas com o futuro do jornalismo que esse tipo de questionamento já ocorreu no passado. Surgiram outras inovações tecnológicas que pareciam catastróficas e acabaram sendo absorvidas. Vou usar isso e coisas muito específicas da nossa historiografia, inclusive historiografia política. Por que o Brasil demorou 300 anos para ter uma imprensa, aliás, 308 anos? Outros países tiveram tipografia e jornais muito antes do Brasil. Mesmo na América Latina, que também teve Inquisição e tudo.

 

E qual a causa do nosso delay?

Justamente pelo caráter – já escrevi sobre isso – diferente da Inquisição espanhola e da portuguesa. A Inquisição portuguesa foi muito centralizadora, a espanhola foi mais descentralizada. Tanto que você teve inquisições do México, em Lima, Cartagena da Colômbia. Essas autoridades inquisitoriais perceberam que tinham que autorizar algumas coisas, inclusive livros religiosos. E aí você tem uma tipografia funcionando, já fica mais fácil você ter um jornal funcionando. Então, digamos, essa é a diferença fundamental, por que o Brasil chegou tão tarde.

 

Aí você mistura isso com escravidão e analfabetismo e se tem esse mercado leitor nosso, que é relativamente pequeno, até um pouco frustrante de se trabalhar.

Aí evidentemente que tenho que me deter um pouquinho mais na figura que eu acho que é o nosso patrono, que não pode ser esquecido, um modelo de grande jornalista, mesmo hoje, Hipólito da Costa. Ele foi nosso primeiro jornalista livre, um crítico de imprensa, um historiador de imprensa. Foi um cara preocupadíssimo com o desenvolvimento brasileiro, tem cartas dele propondo que o Brasil produzisse ginseng, porque tinha um preço fantástico no mercado mundial e o Brasil tinha condições de produzir. Veja a cabeça dele, isso no início do século 19. Foi coisa pessoal dele. Ele fez uma viagem aos Estados Unidos, o que abriu muito a cabeça dele. Ele se interessava por tudo, o que, aliás, era típico da época. Tinha uma cabeça aberta. Era jornalista, mas também se interessava por ciência, por isso, aquilo. Mas era antes de tudo um jornalista, antes de tudo um crítico da imprensa. Tive o privilégio de reeditá-lo aqui no Brasil, porque a edição é muita rara, caríssima, na época o (empresário e bibliófilo José) Mindlin tinha. A gente editou a versão completa com mais dois volumes de apoio e eu fiquei fascinado com ele. Quer dizer, já era fascinado antes com essa figura, então eu vou dar uma atençãozinha no curso. Porque é o nosso primeiro jornalista – o governo Lula, meses atrás, o considerou herói nacional, ele e o padre Anchieta. Vou tratar também da imprensa na Independência, porque é um capítulo também pouco cuidado: foi o primeiro fato histórico brasileiro com testemunhos da imprensa. Como não há experiência neste sentido, todo mundo fica em cima da documentação oficial. Que é importante, claro. Mas, quando foi dado o famoso brado (do Ipiranga) retumbante, já tinha cinco jornais que cobriram e não deram nada sobre o brado...

 

Já li sobre isso. As menções ao episódio do Grito do Ipiranga só vão aparecer anos depois.

Fiz um programa sobre isso. Chamamos de historiadores e tal, e ficou comprovado – por eles, não por mim – que o Gritos do Ipiranga é uma invenção, é marketing, tipicamente marketing de (José) Bonifácio. Porque não aconteceu, o grande fato foi 12 de outubro, quando o imperador foi coroado.

 

Não se recorreu à imprensa para perceber esta mistificação?

É, mas não foi uma mistificação intencional, não.

 

Foi construída ao longo do tempo...

Exatamente. E acabou colando. Mas é que, passados tantos anos, ninguém consultou os registros da imprensa da época. Por falta de hábito. A imprensa estava muito engajada na independência e ela acompanhou tudo, só que nenhum dos grandes jornais que existiam na época falou do Grito do Ipiranga. Mencionou até a viagem de D. Pedro I a São Paulo. Ele veio em missão política para conseguir o apoio das, digamos, elites paulistas para a emancipação, disso não há dúvida. Mas o Grito... O rompimento com o pai se deu em agosto ainda, as cartas são conhecidas. E a imprensa da época noticiou isso. Então, é muito interessante isto. É a primeira grande cobertura política da imprensa brasileira e os historiadores comeram mosca, porque não estavam acostumados a consultar os jornais, só ultimamente há algumas historiadoras acompanhando isso...

 

Durante um bom tempo a comemoração da Independência ficou marcada pelo Dia do Fico ou o da coroação.

Mas é a Independência, 7 de setembro, que tomou, digamos, uma ressonância maior . O Dia do Fico é muito antes. A coroação é que foi realmente o fato programado para mostrar o Brasil independente.

 

De qualquer forma, a ignorância sobre a história do jornalismo no Brasil é grande...

É por isso que resolvi mergulhar nisso. Quando eu tive que sair do Brasil – em 1976 eu saí do Jornal do Brasil e não tinha emprego – recebi um convite para ser professor visitante em Columbia. Tinha de umas conferências, essas coisas. Falei: “Vou estudar a história da imprensa brasileira.” Eu conhecia por alto e levei alguns livros, e outros tinha na biblioteca deles, formidável, em português inclusive. É impossível ser um bom jornalista sem conhecer a sua profissão, saber de onde você vem e para onde você vai.

 

Já que falou em para onde o jornalismo vai, você disse que tem uma parte do curso sobre perspectivas. O que pretende abordar?

São essas transformações tecnológicas e sociológicas da sociedade. O jornalista passa a ter funções mais marcantes na sociedade e aqui, na tentativa de motivar, porque os alunos todos ocupam posições de comando nas redações, quero motivá-los. Apesar de aquela besta do Gilmar Mendes dizer que jornalista é como chefe de cozinha, essa é uma profissão muito importante, chave. Basta ver o número de jornalistas assassinados na Rússia, por exemplo, são as únicas pessoas que ousam enfrentar o arbítrio do Vladimir Putin. Por coincidência são mulheres jornalistas, são repórteres, que vão lá, contam a história toda e são mortas. Então o jornalismo tem um papel e ele pe cada vez mais importante. Não é só ficar fazendo twitter, mas fazendo trabalho de investigação, gastando sola de sapato.

 

Qual é a sua formação?

Nenhuma. Fiz o científico e parei. Nunca mais. Mas quando completei dez anos de profissão eu já estava no JB tinha um ano, fui convidado por acaso pela PUC-Rio, que era a segunda escola de Jornalismo do Rio. A PUC estava montando o curso e perguntaram se eu não podia dar uma cadeira. Aí eu inventei uma cadeira que colou, fiquei lá nove, dez anos nessa cadeira, que era Jornalismo Comparado. Como eu tinha tido uma experiência variada, tinha trabalhado em vespertino, no matutino – naquela época existiam diferenças entre jornalismo matutino e vespertino –, em revista, então eu fiz essa cadeira. Foi muito bom. Pagava uma miséria, mas eu achava que tinha que sistematizar o meu conhecimento da experiência e foi muito importante. Tenho as anotações que fiz, para a época são muito boas.

 

Mas hoje, essa questão de como formar o jornalista: depois da queda do diploma, você teve cursos bons como o da Facamp, do (economista Luiz Gonzaga) Belluzzo e do João Manuel (Cardoso de Mello, também economista) fechando e na contra mão a ESPM lançando um curso de graduação e outro de pós. Como fica essa questão do modelo? Tem lugar para quem faz os quatro anos de Jornalismo e tem um lugar para quem cursou Economia e depois fez uma pós em Jornalismo.

Acho que tem, essa visão geral quem pode dar muito melhor é o Eugênio Bucci (diretor da pós da ESPM), que desenhou todo o currículo. O que acho importante destacar, não sei se ele falou pra você, é que a Abril é uma “learning organisation”, uma organização de aprendizado, está sempre provocando o aprendizado para, com isso, crescer. Quando cheguei lá eles só tinham apenas a experiência da Veja. Antes de lançar a Veja eles fizeram um curso e escolheram os melhores. Isso foi em 1968, eu cheguei lá em 1982. O Roberto (Civita) me deu algumas tarefas, e uma delas era organizar um curso anual, que continua até hoje. Fiz durante oito anos. Todo fim de ano os melhores alunos das escolas de Jornalismo são escolhidos pela Abril e fazem um curso – na época era teórico mesmo, agora eles estão fazendo um pouco mais prático, muito voltado para revista. Passavam por lá grandes jornalistas que estavam começando e os que se destacavam eram indicados para estágio. Veja escolhia, tinha prioridade, escolhia um ou dois, depois vinha a Exame. Cada uma pegava seu estagiário. Muitos fizeram carreira e se transformaram em grandes jornalistas. Foi uma experiência boa, e simultaneamente fizemos um negócio, a Abril com a Gazeta Mercantil – que naquela época estava na sua fase de ouro. Fizemos um curso para professores de Jornalismo, conseguimos recursos do governo, do Ministério da Educação que permitiram pagar passagens e hospedagens, e trouxemos gente do Acre ao Chuí, professores de toda parte do Brasil.

 

O curso é voltado para o jornalista entre 35 e 40 anos, que já está num cargo de chefia, sendo preparado para assumir tarefas maiores. O que você acha que falta para esse sujeito, o que você diria para quem que está nessa etapa da carreira? Outra questão é como você vê o estágio do jornalismo brasileiro numa comparação internacional em termos de qualidade. Eu sei que é uma pergunta bem ampla...

Essa é pra me derrubar. Bom a primeira parte é fácil responder pelo seguinte: o jornalista de hoje sai da escola e faz um curso. O da Abril proliferou, a Folha passou a fazer, o Estadão fez, O Globo, todo mundo faz. Mas, mesmo assim, são coisas muito segmentadas. O bom do curso da ESPM é que ele tenta dar uma visão mais ampla, de situar no mundo. Então tem noções de economia, organização empresarial. Essa coisa de escolher a história da imprensa achei extremamente louvável, porque situa o trabalho num contexto maior. Não só são fechadores de páginas, não, é uma função social da impressa que vem de alguns séculos. Esse background não é oferecido. E o próprio jornalista não tem tempo, está ali no corre-corre, fechando, fechando, chega férias ele vai viajar e não quer nem saber. Depois volta e vai ficando pra traz, lê de vez em quando, mal lê o seu próprio jornal – ou quando lê é só pra ver erros –, mas não tem uma visão, uma reflexão sobre a sua profissão e seu papel dentro da sociedade. O jornalismo está em evolução. O texto está mudando. O lead já foi uma coisa, hoje não é. Agora tem o chamado jornalismo literário, que é realmente é uma ponte entre jornalismo e literatura. Então tem um processo evolutivo que a academia não faz, porque virou uma indústria de diploma. Então o curso é uma coisa extremamente positiva. Espero que o projeto continue e possa desenvolver outros cursos.

A ideia do Roberto Civita é a de criar não um curso, mas um núcleo. Numa segunda etapa ele admite abrir um curso preparatório, voltado, por exemplo, para passar fundamentos a médicos, engenheiros e economistas que querem migrar para o jornalismo, ou ter uma atividade jornalística paralela.

Bom, e quanto à segunda pergunta, sobre a qualidade da nossa imprensa na comparação internacional. É o seguinte: há um processo de desqualificação da vida em geral, da cultura em geral. Você pega uma música erudita que se fazia no século 19 e no 20 e a que se faz hoje, há uma diferença. No jornalismo também se nota, e as vezes no próprio jornal. Você pega um New York Times, pega o dias de hoje e o de 30 anos atrás. Você vê que era um jornal mais denso, mais amplo no seu escopo, na sua pauta. Então esse processo é inevitável. Alguns jornais lutam para não se desqualificar. Acompanho, não todo dia, mas quatro vezes por semana – porque a grana não dá, é muito caro o El País. Vejo que é um jornal que se esforça. Também comete lá seus deslizes, suas simplificações. Mas é um jornal que dá ao seu leitor, e portanto ao seu jornalista, a oportunidade de abrir a cabeça e se situar no mundo, olhar melhor as coisas. É uma exceção, como é o jornalismo alemão. São grandes jornais que apostam em densidade, não dão colher de chá, não simplificam.

Achei interessante o livro de Mathias Molina (ex-diretor da Gazeta Mercantil) que pega os grandes jornais. Os jornais de língua alemã, por exemplo, fazem pouquísimas concessões

É porque eles levam a sério. Não é à toa que a Alemanha é hoje o país que é. Fico fascinado. Custei muito a ir à Alemanha por razões obvias (judeu, Dines já estudou a Inquisição). Mas quando eu fui, falei: “Pô, isso aqui voltou ao tempo de Goethe, é impressionante como o país está imerso em cultura.”

Quando você fala de entender o papel do jornalista na sociedade, acho que no jornalismo impresso, principalmente, muitas vezes a gente perde de vista essa perspectiva, esse processo de influenciar a formação de opinião. Porque na televisão me parece meio claro, ninguém tem muita dúvida em relação a isso, é uma coisa tão direta e abrangente. O profissional do impresso parece não saber bem o que está fazendo ali, para quem está falando. Acho que é uma coisa que, por exemplo, me faria trabalhar melhor, pensar como se dá a formação de opinião pública. Os jornalistas não leem editoriais.

Não leem editorial, não leem os artigos maiores, dão uma olhada na página que tiveram de fechar ou nos títulos e chamada, e subtítulos de destaque, feitos para o jornal ficar mais bonito. Porque o jornalista, hoje em dia, é jornalista e ao mesmo tempo público. Quer dizer, ele sofre duas vezes, ele sofre como metalúrgico, ali no torno, ferramenteiro. E sofre também como usuário. Então é um círculo vicioso que leva para baixo, não há estímulos para dizer: “Você é um intelectual, você é um agente cultural, é um descendente direto do Samuel Johnson, do Hipólito da Costa ou sei lá de quem.” Isso ninguém diz, está faltando. Não sonhava ser jornalista. Virei jornalista por um certo acaso, mas, a partir do momento em que eu descobri o que tinha na profissão, falei é por aí que eu vou, e é isso que eu acho que falta fazer. A profissão tem um papel importantíssimo na sociedade, justamente por causa dessa sociedade globalizada, fragmentada, em que o jornalista tem que costurar e oferecer no dia seguinte – ou 12 horas depois ou 2 horas depois – uma coisa acabada para que as pessoas sintam que fazem parte da vida. Porque a fragmentação da internet não oferece nada, o sujeito se agarra a uma frase, não se agarra ao fato mais ou menos fechado, não é? Essa função do jornalista ela é melhor explicitada pela palavra em espanhol, que é periodismo. É uma coisa periódica, isso é a característica de nossa função. A gente não escreve livros que só podem sair depois de um ou dois anos. Então tem princípio, meio e fim, o nosso ciclo, o nosso relógio. A gente tem obrigação de fechar o dia e ao fazer isso tem que amarrar, fazer o leitor dizer “Ah, entendi, em tal período aconteceu isso, é coisa da maior importância. Sobretudo porque cada vez mais você tem informação e a informação precisa ser amarrada. Senão elas ficam circulando por aí, soltas e malucas, e sendo deterioradas, pelo mau uso e porque entra gente que distorce. Põe duas mentiras, e não sei o quê. É uma função social, sabe, é uma âncora mesmo da vida intelectual. Assim vejo o jornalismo hoje.

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