WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Luz, câmera e ação: ficção do cinema vira realidade na escola

Ideia é unir História, Geografia, Português, Redação e até Ciências em projetos audiovisuais que aumentem interesse dos alunos

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2015 | 03h00

SÃO PAULO - Curta-metragens, documentários e técnicas de cinema têm sido usados por colégios particulares de São Paulo para atrair alunos às disciplinas tradicionais. A estratégia é unir História, Geografia, Português, Redação e até Ciências em projetos audiovisuais que levem os estudantes do ensino fundamental a usar o que viram nos livros na prática. 

Embora nem sempre o objetivo seja torná-los jovens cineastas, a lição é completa: assistem aos clássicos, aprendem a fazer roteiros, entrevistas, filmagem e até edição. No Colégio Santo Américo, no Jardim Colombo, na zona oeste de São Paulo, o 9.º ano do ensino fundamental realiza um projeto anual obrigatório que unifica as disciplinas em um documentário que tem por objetivo discutir os problemas da cidade de São Paulo. 

Veja documentário do Colégio Santo Américo:

Os alunos, divididos em grupos de até oito pessoas, precisam escolher um tema polêmico e atual – neste ano, por exemplo, estão trabalhando com o fechamento do Elevado Costa e Silva (Minhocão), a discussão sobre a criação do Parque Augusta, ambos na região central, o lazer da juventude e a diversidade.

A fusão de disciplinas tem início logo na discussão do tema. “Em Geografia e História, eles têm o trabalho de levantar as discussões sobre a cidade, a origem dos problemas”, explicou o coordenador pedagógico do ensino fundamental 2 do Santo Américo, José Ruy Lozano. Português e Redação são os responsáveis por dar forma ao trabalho. “É nessas disciplinas que eles vão ter o trabalho de elaboração do roteiro, escolher que tese vão defender em relação ao problema.”

Para introduzir os estudantes à linguagem audiovisual, são exibidos diversos documentários ao longo do ano. A filmagem é feita com equipamentos dos próprios alunos, seja com câmeras digitais ou até smartphones. Já a parte de edição é feita em um estúdio do colégio. 

A vantagem, explica Lozano, é a transversalidade do trabalho. “Trabalhar com cinema é trabalhar com as múltiplas inteligências. Aprende não só o aluno que gosta de pesquisa, mas o que prefere a escrita, a linguagem audiovisual”, disse. A nota do documentário compõe uma das avaliações das disciplinas envolvidas, além de realização das provas comuns. “Estamos diante de um problema concreto, não só de algo teórico. O aluno percebe o problema que o aflige na cidade, não só de maneira abstrata.”

Fusão de conteúdos. Para incentivar os estudantes a criar conexões práticas entre os conteúdos das disciplinas, o Colégio Bandeirantes, na zona sul, também implementou, em 2013, seu projeto de cinema. Em um ano, são produzidos dois curta-metragens que duram cerca de 10 minutos cada, totalmente produzidos por alunos do 9.º ano. É feito um por semestre: no primeiro, o tema é livre, para que os alunos se habituem à produção.

No segundo, o desafio é maior, há temas definidos e precisam conectar fatos históricos e produção científica. “Eles precisam analisar um tema da época que estão estudando em História, como a 2.ª Guerra Mundial, e ligar aos inventos dos cientistas que estudaram nas aulas de Ciências”, explicou o professor de Artes do Bandeirantes, Pedro Cardoso Leão.

A avaliação do trabalho é feita separadamente. “Em Artes, analisamos figurino, filmagem e edição; nas outras, o conteúdo. O aluno pode ir mal em uma parte e bem na outra”, explicou Leão. Apesar de a proposta ser focada nas disciplinas, o professor destaca que os estudantes começam a tomar gosto pelo cinema. Ao longo do ano, eles têm contato com quatro obras: Tempos Modernos (Charlie Chaplin); 2001, Uma Odisseia No Espaço (Stanley Kubrick); Sonhos (Akira Kurasawa) e Romeu e Julieta (Franco Zeffirelli). “Explicamos a eles que existe uma diferença de linguagem entre esses filmes e o que os alunos assistem hoje, com cenas mais rápidas e curtas.”

Acesso ao mundo.  O contato mais próximo com a cidade e com a produção dos trabalhos fez os alunos terem mais interesse em assistir às aulas. “Conseguimos ter mais acesso ao mundo real, não ficamos fechados só na matéria”, comentou a estudante do Santo Américo Mariana Cordeiro, de 14 anos. O documentário da aluna, ainda em produção, vai abordar a violência em festas e baladas de jovens na capital. “É uma realidade que está próxima da gente”, disse. 

A ligação com a arte também ajudou o aluno Gustavo Arruda, de 14, do mesmo colégio, a melhorar a escrita. Ele está ajudando a produzir o roteiro. “Eu não tenho muita facilidade para escrever. Se tenho dúvidas, consulto os professores. Está me ajudando bastante, porque é um tema presente na nossa cidade”, disse o aluno, que contou ter gostado de realizar pesquisas para o trabalho e pensa em seguir carreira em alguma área com esse tipo de atividade. 
Ligações. Diego Zancaneli, também de 14 anos, do Colégio Bandeirantes, afirmou que a produção do documentário o ajudou a compreender os temas mais a fundo. Ele e seu grupo produziram um documentário que exigia a criação de um elo entre o cientista Michael Faraday, a 2.ª Guerra Mundial e o filósofo Aristóteles. 
Cientista do século 19 e um dos pioneiros no estudo do eletromagnetismo, Faraday foi usado pelos alunos para explicar como, mais tarde, se daria a criação do rádio. E como o instrumento de comunicação foi amplamente utilizado durante a 2.ª Guerra. Aristóteles, bem mais distante na linha histórica, foi usado como um “narrador” dos fatos, sob sua visão. “Você tem de estudar mais sobre o assunto, se aprofundar e, principalmente, aprender a relacionar as coisas”, disse Zancaneli.
Além de ajudar a escrever o roteiro, o estudante também participou da atuação. “Foi bastante útil para aprender a trabalhar em equipe. Vi que por trás de um projeto, que parece simples, há uma grande produção e muito estudo”, explicou. 
Ana Carolina Haddad, de 15 anos, também do Bandeirantes, disse que o fundo “artístico” do projeto criou mais interesse pela pesquisa. “É muito mais legal do que fazer uma pesquisa para entregar um trabalho qualquer para o professor. Geralmente temos de produzir texto, PowerPoint (slides), coisas mais burocráticas, e aqui é diferente, temos de ser criativos.” 
A aluna acredita também que a união das disciplinas intensificou a carga de estudos. “Nós precisamos ter conhecimento aprofundado do assunto”, explicou. “É uma experiência rica e diferente de outras coisas que estamos acostumados a fazer na escola.”

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