FELIPE RAU/ESTADÃO
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Escolas incentivam estudantes a trocar cartas ‘à moda antiga’

Colégios adotam prática para estimular escrita e trabalhar cultura e sociabilidade; em mundo tecnológico, projeto traz novo aprendizado

Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo

11 Maio 2015 | 03h00

SÃO PAULO - Para uma geração que só havia mandado cartas para o Papai Noel e só viu contas chegarem em casa como correspondência, se comunicar por cartas não parecia nem uma opção viável. No entanto, escolas particulares de vários Estados montaram no último ano projetos de correspondência “à moda antiga”, o que despertou o interesse dos alunos. A troca de cartas ocorre entre turmas de diferentes cidades, Estados e até países.

No Colégio Bandeirantes, de São Paulo, os alunos de 8.º ano do ensino fundamental trocam cartas com estudantes de uma escola de Macau, na China, que tem o Português como a primeira língua. “Nossos alunos mandaram as cartas e, quando receberam as respostas, parecia que tinham ganhado um presente de tão felizes e empolgados que ficaram. Eles descobriram o quanto uma carta carrega a personalidade e o capricho de quem escreve”, contou Lenira Buscato, professora responsável pelo projeto.

Com e-mail e conta em redes sociais desde os 10 anos, Isabela Castro Libonati, de 14 anos, ficou ansiosa pela demora de mais de dois meses para receber a resposta de sua carta. “A gente está acostumado a conversar com os amigos por WhatsApp, que é imediato. Esperar dois meses é uma eternidade, não sei como as pessoas aguentavam esperar por uma resposta antigamente”, disse.

A rede de ensino Poliedro tem neste ano 20 escolas, com cerca de 3 mil alunos com idades entre 2 e 10 anos, participando do projeto Cartas Pelo Brasil. São unidades de São Paulo, Minas, Amazonas e Goiás. 

João Puglisi, gerente editorial da Poliedro, disse que o projeto foi criado como uma complementação do conteúdo das aulas e para incentivar a escrita. No entanto, ganhou proporções maiores, por causa da troca de experiências entre os alunos e, principalmente, por ter despertado um interesse cultural e social. “Os estudantes ficaram empolgados de ter um amigo de outro Estado, com outra rotina, com outra realidade e com quem pudessem aprender”, contou.

Estudante do Colégio Floresta, de São Paulo, Rafaela Garcia de Sousa, de 10 anos, trocou cartas no ano passado com uma garota de Poços de Caldas, em Minas Gerais, e ficou surpresa em saber que lá as crianças brincam bastante na rua. “Aqui em São Paulo, eu brinco mais em casa ou no parque. Ela também disse que a cidade dela é pequena e não tem nem shopping”, disse.

No Colégio Peretz, na zona sul de São Paulo, para cada faixa etária foi desenvolvido um projeto de troca de cartas. Para os alunos de 1.º e 2.º anos do ensino fundamental, a correspondência é feita com atendidos pela Instituição Lar das Crianças, que atende jovens em situação de vulnerabilidade. Em outubro, um encontro está marcado para que eles se conheçam pessoalmente.

Já as turmas de 3.º e 4.º anos visitam uma escola da zona rural e depois se correspondem com os novos colegas. No ano passado, conheceram uma instituição de Porto Feliz, na região de Sorocaba. “Ficaram muito surpresos em saber que as crianças de lá ajudam os pais a plantar alimentos, andam de trator. Mas os estudantes ficaram desapontados em saber que a escola não tinha uma biblioteca, uma realidade muito diferente da existente no Peretz”, disse a diretora do colégio, Lígia Fleury. Os alunos então promoveram uma campanha que arrecadou cerca de 700 livros, que foram enviados para Porto Feliz.

Para o 5.º ano, o projeto deste ano é que se correspondam com um colégio da rede estadual. “Queremos que nossos alunos exponham os problemas de suas vidas, mas também conheçam os problemas vividos pelos estudantes de outra realidade. É um exercício de empatia e amplia a visão de mundo”, afirmou Lígia.

Ação social. Ela observou ainda que, como os estudantes do colégio ficaram muito sensibilizados com o terremoto no Nepal, foi criada uma campanha para que escrevessem cartas em português, inglês e hebraico (as três línguas ensinadas na escola) de apoio aos sobreviventes. “Ficaram muito interessados, mas estavam preocupados que só as cartas não seriam o suficiente. Por isso, os próprios alunos propuseram que mandássemos alimentos e roupas para o Nepal e, agora, estamos montando uma campanha de arrecadação.”

'Alunos podem ter outras perspectivas’

Para a professora Luciene Tognetta, do Departamento de Psicologia da Educação da Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho (Unesp), a troca de cartas entre alunos nas séries do ensino fundamental é uma prática antiga. No entanto, para os dias atuais, em que os alunos vivem cercados pela tecnologia, essa troca traz novos aprendizados. 

“Com a carta, o aluno consegue ver a necessidade de ser claro, de saber se expressar pela forma escrita. Para esse novo aluno tecnológico, a carta é uma nova forma de comunicação que trabalha com um sofrimento da espera, da ansiedade”, disse Luciene. 

Ângela Soligo, professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), observa que a expectativa da resposta faz com que o aluno seja mais caprichoso e consciente do que escreve e do que apresenta em sua carta. “Ele sabe que o colega também vai esperar muito pela carta. Por isso, tem um cuidado maior do que teria ao escrever em uma rede social, em que a escrita é reduzida e pouco refletida”, disse.

Visão de mundo. Para Ângela, a iniciativa dos projetos de troca de cartas também faz com que os alunos tenham contato com experiências que dificilmente teriam se ficassem apenas conectados nas redes sociais. “A internet é excelente ferramenta de conexão, mas na maioria das vezes ficamos presos ao que já conhecemos, conversando com quem já temos contato. Com esses projetos, os alunos podem ter outras perspectivas de mundo.” 

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