Por que Psicomotricidade na escola?

Por que Psicomotricidade na escola?

Colégio Vital Brazil

13 Junho 2016 | 12h41

Uma criança anda, corre e salta pelo pátio do colégio. Chuta algumas bolas, primeiro com a perna direita, depois com a esquerda. Em outro momento, rola pelo chão e rasteja sob mesas dispostas como um túnel estreito e de teto baixo. Mais tarde, em sala, rabisca folhas de cartolina com giz de cera, ao som de músicas alternadamente rápidas e lentas. Faz desenhos em parceria com colegas, rasga papéis coloridos, produz uma colagem.

Poderiam ser aulas de Educação Física ou de Artes, mas são aulas de Psicomotricidade, em que o professor observa a criança com um olhar interessado nos seus movimentos e, principalmente, na percepção dela sobre os próprios movimentos. O foco não está em fazer o aluno melhorar sua destreza física ou exercitar suas habilidades manuais e sensibilidade estética. O objetivo é mais básico e fundamental: fazê-lo tomar consciência de que está chutando e de que está desenhando. Se parte do desenvolvimento da criança é a ampliação de seu repertório de ações e sentimentos, esse é o momento em que a criança descobre que pode agir e sentir.

psicomotricidade

Não é uma distinção de fácil entendimento, como admite o professor Carlos Rossi, que dá aulas de Educação Psicomotora para alunos do Maternal ao 1º ano do Ensino Fundamental no Colégio Vital Brazil. Com formação em Educação Física, Rossi tem especialização em Psicomotricidade pelo Instituto Superior de Psicomotricidade e Educação – Grupo de Atividades Especializadas, ISPE-GAE (Brasil), com título internacional pelo Institut Supérieur de Rééducation PsychomotriceOrganisation Internationale de Psychomotricité et de Relaxation, ISRP-OIPR (França). Ele traz para o Colégio esse olhar diferenciado que sua área aplica à Educação Infantil.


Cada gesto tem um significado

Conforme explica o professor Rossi, tanto a Educação Física quanto a Psicomotricidade trabalham com a aquisição de controle sobre o corpo. Porém a primeira tem objetivos mais concretos, como o aperfeiçoamento de atividades físicas, por meio da prática e do treino, e o despertar do prazer para a promoção da saúde e do bem-estar. Já a Psicomotricidade adota uma perspectiva mais ampla, anterior e posterior à atividade em si.

“A Educação Física ajuda a fortalecer o tônus e trabalha o equilíbrio; a Psicomotricidade atua para que a criança tome consciência dessa tonicidade, perceba quando seus músculos estão contraídos ou relaxados, para controlá-los e ajustá-los posturalmente. É o começo, a base de tudo”, exemplifica Rossi.

psicomotricidade 1

Trata-se também de uma abordagem preocupada com impactos mais à frente no desenvolvimento da criança. “Cada gesto tem um significado para além do gesto”, diz Rossi. “É o que faz uma atividade na quadra de esportes contribuir para aprendizados fora da quadra, como a aquisição da escrita, por exemplo”.

Para compreender isso é preciso entender que o corpo é a primeira ferramenta pedagógica à disposição da criança. É pelo corpo que ela adquire noções fundamentais para perceber o mundo, localizar-se e atuar no universo. Noções como “dentro” e “fora”, “direita” e “esquerda”, “à frente”, “ao lado” e “atrás”, “em cima” e “embaixo” só são compreendidas pela criança quando aplicadas a si mesma, à sua posição no espaço.

Assim, por mais distantes que possam parecer, atividades físicas que promovam a orientação espacial, a lateralidade, a tonicidade e a motricidade fina da criança vão fazer diferença mais adiante, quando ela tiver de escrever suas primeiras frases da esquerda para a direita, dentro das linhas do caderno, segurando o lápis com precisão e força suficientes para riscar o papel.

Tirar o aluno da zona de conforto

São sete os fatores da Psicomotricidade, os quais, por meio de vivências práticas, o professor trabalha para estimular em seus alunos um desenvolvimento completo e equilibrado:

– Tonicidade: função de atenção e alerta, pois é por meio da percepção dos estados do corpo (contraído, relaxado) que se controlam as demais atividades motoras;

– Equilibração: questões posturais, capacidade de manter-se em equilíbrio estático (parado) ou dinâmico (em movimento), condição básica da organização psicomotora;

– Esquema e imagem corporal: percepção objetiva do corpo e de seus segmentos (cabeça, tronco, membros), a imagem corporal, a avaliação subjetiva que a criança faz de si em relação às demais;

– Orientação espaço-temporal: compreensão do mundo estruturado em espaço e tempo, compreensão do aqui e do agora, definidos em oposição ao ali, ao antes e ao depois, e a capacidade de organizar-se no espaço e no tempo para assumir o controle das tarefas da vida diária;

– Lateralização: subdividida em lateralidade, que é a consciência dos dois lados do corpo e do mundo que o cerca, e dominância lateral, que é a preferência por um lado do corpo para executar atividades motoras (escrever, arremessar, chutar) com mais qualidade, força, precisão, velocidade e coordenação, o que diferencia o destro do canhoto;

– Praxia global: coordenação de movimentos harmônicos, precisos e econômicos para a execução intencional e consciente de tarefas que envolvam o corpo integralmente, como andar, correr e saltar;

– Praxia fina: semelhante à praxia global, porém direcionada a tarefas que envolvam maior controle visual e menor quantidade de grupos musculares, como picotar, pinçar, escrever.

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A atuação do professor de Educação Psicomotora tem, assim, o objetivo de despertar a consciência do aluno para cada um desses campos, de forma que ele descubra-se capaz de controlar suas ações e agir com propósito. Para isso, a aula segue estratégias que “quebram o automatismo” e tiram o aluno da zona de conforto, mostrando a ele novas possibilidades, fazendo-o perceber e refletir sobre outro ponto de vista.

Mas as aulas, ressalta o professor Rossi, não se restringem a atividades físicas nem a quadras esportivas, envolvendo também situações que exercitam a interação social e a sensibilidade. “Qualquer ambiente pode ser significativo: a quadra, a brinquedoteca, a horta, a sala de aula. O aprendizado geral é de caráter cognitivo, afetivo e motor. Se bem-sucedido, o aluno sai com mais autonomia e autoconfiança sobre o que sabe fazer, o que pode fazer e o que quer fazer”.