Outras inteligências

Outras inteligências

Colégio Vital Brazil

29 Maio 2017 | 09h59

Cada vez mais valorizadas, as competências socioemocionais são trabalhadas desde os primeiros anos de escola.

Daqui a 17 anos, quando uma criança hoje no 1º ano do Fundamental se formar no curso de Engenharia Civil, suas habilidades de trabalho em equipe, organização e inovação serão tão importantes quanto o domínio da tecnologia existente. Talvez até mais. O futuro médico terá de ser tão criativo e apto a resolver problemas quanto conhecedor de sua especialidade. Além de apurar e escrever bem, o bom jornalista terá de ser proativo e aberto a desafios.

Há algum tempo, especialistas em Educação são unânimes em afirmar que as competências socioemocionais cumprem papel central na formação das próximas gerações. Com um detalhe: se é difícil prever quais serão as tecnologias e o conhecimento científico das próximas décadas – isso para não falar de como será a economia e o mercado de trabalho –, é certo que habilidades como autonomia, responsabilidade, criatividade e resiliência seguirão valendo. E a escola não só é capaz de atuar no desenvolvimento dessas habilidades como pode fazê-lo desde cedo.

“Trabalhar as dimensões cognitiva e socioemocional na escola faz com que uma fortaleça a outra”, diz a diretora pedagógica do Vital Brazil, Suely Nercessian. “O desenvolvimento global do aluno é comprovadamente melhor”. Ela cita documentos como o Relatório Delors, da Unesco1 , que em 1999 definiu quatro pilares da Educação para o século XXI: aprender a conhecer, a fazer, a conviver e a ser – conceitos que claramente ultrapassam a dimensão cognitiva do desenvolvimento humano. E cita pesquisas como a do Instituto Ayrton Senna e da OCDE2 , que buscam medir, de forma quantificável, a influência mútua entre componentes cognitivos e não cognitivos do aprendizado. Por exemplo, que alunos responsáveis e organizados aprenderiam um terço a mais do conteúdo de Matemática em um ano letivo, enquanto alunos autônomos e abertos a novas experiências aprenderiam um terço a mais de Português.

Ao contrário de Matemática ou Português, porém, não há no currículo de uma escola disciplinas especificamente voltadas para o ensino da autonomia, da organização ou da curiosidade. Mas é possível para o educador ter olhar atento e promover tais competências ao longo de toda a Educação Básica. “A chave é ser intencional”, diz Suely.

Trilhas de desenvolvimento

Brincadeira na pré-escola é coisa séria. Ou, como diria a coordenadora assistente da Educação Infantil, Renata Weffort, em linguagem mais adequada a uma pedagoga: “A Educação Infantil tem o lúdico como mediador do desenvolvimento”. Isso diz respeito também às competências socioemocionais.

Quem empurra quem: aprendendo a negociar vontades e a cooperar desde criança

Entre duas crianças que brincam, diz Renata, pode-se verificar uma dinâmica de negociação de vontades (“Vamos brincar de quê? De casinha ou de trânsito?”), de cooperação (“Quem vai ser a mamãe? Quem vai empurrar a motoca?”) e de administração de frustrações (“Eu queria brincar de outra coisa”), sobre a qual o educador pode atuar. “Os jogos simbólicos, de faz de conta, também são tentativas de entender o mundo adulto e de se colocar no lugar de outros”, diz Renata.

Se na pré-escola as professoras falam de “atitudes favoráveis ao convívio social” – com rodas de conversa sobre sentimentos, mediação de conflitos e leituras focadas na aceitação da diversidade –, no Fundamental I o Vital já usa o termo bullying em projetos sobre o tema (antes disso, não se pode falar de bullying, que é uma intimidação mais consciente e sistemática). Uma das ações envolve a confecção de bonecos de pano com características que costumam motivar preconceitos (uso de óculos, muletas, aparelhos auditivos, etc.), que se tornam “amigos” dos alunos do 2º ano. “Mesmo sendo um boneco, ele ajuda a gente a aprender que cada um tem suas formas diferentes de ser”, relata uma aluna, hoje no 3º ano, ela própria alvo de “comentários que não tinham nada a ver, que chateavam as pessoas”. Com o projeto, diz ela, “nunca mais ouvi esses comentários”.

Representantes de classe: o desafio de administrar e defender os interesses do grupo

Outra trilha de desenvolvimento socioemocional refere-se à organização e à autonomia nos estudos. Os mesmos alunos que, nos primeiros anos de vida escolar, tinham responsabilidades simples como guardar as mochilas nos armários da sala de aula, mais tarde são cobrados por maiores compromissos. Coordenadora assistente do Fundamental II, Maria Cristina Campos cita dois materiais que o Vital dá aos alunos para ajudá-los nesse ponto. O primeiro, no 6º ano, é um guia de planejamento, organização e método de estudos chamado EU AMO APRENDER, com dicas como anotar na agenda prazos e tarefas; usar um caderno por disciplina e escrever com clareza (“caderno é material de estudo; se não for organizado, é inútil”); ou estudar por etapas (pré-leitura, leitura, resumo, exercícios, etc.).

O segundo material vai além na autonomia do aluno e foi criado este ano. Mais que um guia genérico para todos, a partir do 7º ano os alunos respondem a questionários trimestrais que os ajudarão a identificar suas forças e dificuldades pessoais e a assumir a responsabilidade sobre seu aprendizado. “É uma ferramenta de autorregulação que os faz pensar: ‘Por que eu tirei esta nota? Meus erros são de estudo ou atitudinais? Como eu posso fazer para melhorar? Que métodos funcionam para mim?’”, diz Maria Cristina.

Voluntários acadêmicos: ajudando os colegas com dificuldades a superá-las

A evolução dos alunos é evidente. Quando chegam ao fim do Ensino Médio, eles se mostram responsáveis (consciência), capazes de tomar as rédeas da própria vida (protagonismo), de superar tropeços (estabilidade emocional), de respeitar e de cooperar com os colegas (amabilidade) – haja vista os projetos de representantes de classe e de voluntários acadêmicos –, além de questionadores, curiosos e habilidosos em solucionar problemas, de natureza intelectual ou não.