Estudar, um verbo para a vida

Estudar, um verbo para a vida

Colégio Vital Brazil

26 Setembro 2017 | 14h13

“Educação não é uma questão de falar e ouvir, mas um processo ativo e construtivo”.
(John Dewey)

A associação entre estudar e aprender, para muitos uma relação simples de causa e efeito, requer exame periódico. Em determinadas circunstâncias, é possível que um aluno dedique horas de seu dia aos estudos sem, efetivamente, concretizar sua aprendizagem. A depender das estratégias e técnicas utilizadas, e do perfil do aluno, nem sempre a rotina de estudos atenderá à necessidade da dúvida. Quando isso acontece, amplia-se a angústia, e o aluno se depara com um abismo que vai entender como uma “dificuldade” pessoal sua, nesta ou naquela disciplina. O abismo pode paralisar.

É nesse sentido que, como propõe DEMO (1993, p. 244), a escola precisa desempenhar um papel mais específico, “ultrapassando a figura da complementação da família, ou da sociedade de normas e valores, para assumir a condição de lugar da formação de um tipo essencial de competência frente à formação da cidadania”. É sobre essa competência essencial que tratamos aqui. Em resumo, para que o aluno aprenda ao estudar, é preciso que ele aprenda a estudar – e tudo o que esse verbo significa.

Refugiar-se em um ambiente do lar, estudar incansavelmente por horas, dedicar toda essa maratona a uma disciplina específica, nada disso garante o sucesso. O primeiro e mais evidente indicador de que o processo precisa ser revisto são as notas. O baixo desempenho em avaliações indica que há lacunas a serem preenchidas. Vale frisar, porém, que é preciso evitar o erro de tomar notas como unidades de medida universais e saber interpretá-las à luz do histórico individual de cada aluno. Um velocista que reduz sua marca nos 100 metros rasos de 11 para 10,50 segundos obteve grande vitória pessoal, mesmo que o primeiro lugar tenha feito 9,58. Sua rotina de treinos está dando frutos, fazendo-o evoluir. O mesmo pode ser dito do aluno cuja média suba de 5 para 6.

Mas há outro indicador – menos objetivo do que as notas, mas não menos concreto – que temos para avaliar se o processo de estudo e aprendizagem tem condições de ser bem-sucedido. Trata-se da atitude com que o aluno se dispõe a aprender, da percepção de valor que ele dá ao estudo e às obrigações relativas ao estudo, para sua vida. Antes de diagnosticar deficiências nos métodos do estudante, é preciso verificar se ele assumiu, integralmente, uma postura de estudante.

Muitas são as técnicas e estratégias que a escola pode compartilhar com o aluno para ajudá-lo a organizar sua rotina, planejar seus estudos e alcançar bons desempenhos. Porém, qual provocação a escola faz para que ele percorra toda essa trajetória? É fundamental que o processo de escolarização desenvolva no aluno o interesse de ir além das dificuldades. Porque o que faz o velocista correr ou o aluno aprender, ao final das contas, é a atitude de, ao se deparar com desafios, querer vencê-los. “Educar para compreender a Matemática ou uma disciplina determinada é uma coisa; educar para a compreensão humana é outra” (MORIN, 2002, p. 93).

É preciso ajudar o aluno enxergar os frutos do seu esforço, o que está além da linha de chegada. Segundo DEMO (1994, p. 27-28), “uma instituição […] que não sinaliza, desenha e provoca o futuro encalhou no passado”. O ambiente escolar deve ser desafiador, ousado, transformador. Sua finalidade deve estar na possibilidade de criar sonhos e continuamente conjugar o verbo futurar.

Isso não significa negar a existência dos desafios. Estudar demanda renúncia, disciplina, dedicação. Mas isso deve ser encarado como parte natural da vida. É difícil orientar um jovem estudante a tomar tais atitudes, numa época repleta de descobertas e apelos midiáticos sobre prazeres e deleites? Sem dúvida, mas a chave não é lutar contra esses apelos, e sim proporcionar um ambiente que torne possível ao aluno refletir sobre eles, questioná-los, não os absorver como verdades absolutas.

A experiência escolar não pode ser reduzida a uma relação mercantilista na qual se compra um futuro rápido, eficaz e indolor. Aprender, necessariamente, envolve desafios, provoca conflitos, e o enfrentamento é o caminho para o amadurecimento, para a aquisição daquela competência essencial que continuará essencial para toda a vida, mesmo depois de concluída a escola. A competência de projetar objetivos, de enxergar os desafios, de avaliar o que é necessário para vencê-los e de buscar, por meio do estudo, o que nos falta. Isto é aprender.

Como diz Nóvoa, “o que define a aprendizagem não é saber muito, é compreender bem aquilo que se sabe. É preciso desenvolver nos alunos a capacidade de estudar, de procurar, de pesquisar, de selecionar, de comunicar”.

André Rebelo

Coordenador pedagógico do Ensino Médio.

Referências bibliográficas:

DEMO, P.. Desafios modernos da educação, 4a ed. Editora Vozes: Rio de Janeiro, 1993.

DEMO, P.. Educação e qualidade. Papirus: Campinas, 1994.

MEZOMO, J. C.. Gestão de qualidade na escola: princípios básicos. Terra: São Paulo, 1994.

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 2a ed. Cortez: São Paulo; Unesco: Brasília, DF. 2002.

NÓVOA, A.. Aprendizagem não é saber muito. Disponível em: http://www.cartaeducacao.com.br/entrevistas/antonio-novoa-aprendizagem-nao-e-saber-muito/ Acesso em: 30/08/2017.