Interação entre escola e realidade. A responsabilidade social como meio de construção de conhecimento.

Interação entre escola e realidade. A responsabilidade social como meio de construção de conhecimento.

elvira

07 Agosto 2015 | 11h45

Como concretizar abordagens teóricas em ações práticas, reflexões em intervenções? Convivemos com uma nova dimensão da juventude. Sua disposição em comunicar-se intensamente, em se manifestar constantemente e a se fazer presente no mundo, incluindo-se na representação da realidade, tem sido um desafio constante para a integração entre eles e a escola.

Todo professor que se aproxima dos alunos percebe em seus desejos que a escola, ele mesmo e as aulas, sejam mais que um ambiente acadêmico. E os adolescentes demandam das instituições a parceria necessária para que adquiram ferramentas que os permitam interpretar e ressignificar a realidade que os cerca!  A escola, por sua vez, não deve furtar-se a essa papel.  Entregam-se as ferramentas? Promove-se a participação?

 Sob o perigo de que a simples apresentação dos instrumentos de análise, selecionados pela própria instituição promova recortes de realidade, ou ainda a reprodução de ações assistencialistas, vazias de significados tanto para quem as recebe passivamente, mas essencialmente para quem as promove, é necessário que sejam encontradas formas de atuação por novas veredas, onde os alunos se deparem, através de  múltiplas possibilidades, com espinhos, barreiras, atalhos, enfim… realidades.


FOTO 1

 Em célebre poesia, Paulo Leminski anunciou que “o mar não parou para ser olhado”.  É esse o ângulo necessário para a dinâmica de observação da realidade.  Um asilo, um orfanato, uma ação social, não são elementos estáticos.  São ondas desse mar em constante movimento, são ilhas que dialogam com o meio social do qual somos todos participantes.  A consciência da participação: eis o desafio!

Ao se reunirem às sextas-feiras no final da tarde, os alunos do primeiro e segundo anos do ensino médio (e alguns infiltrados do terceiro ano, que teimam em não abandonar…), que voluntariamente organizam junto aos professores os “encontros de responsabilidade social”, constituem um espaço de constante construção. Não se discute a realidade, mas o olhar. Não se discute apenas o problema, mas suas representações.

A busca pelo olhar “participante” passa pela dimensão estética, sem dúvida, mas em especial pela sensibilidade e pela crítica. Disparados por textos jornalísticos, por imagens, documentários ou textos acadêmicos, os jovens convidam – e são convidados – ao diálogo entre as imagens que cada um compõe, sem a intenção de que sejam abandonados seus sentimentos e suas opiniões, sem que o convencimento seja o objetivo da conversa, mas sim um exercício de acolhimento das diferenças existentes no interior do grupo. Assim, de lugares distintos, mas não excludentes, podem estabelecer uma reflexão criativa capaz de organizar as percepções e as convicções em co-sentimentos.

FOTO 2

Assim, as considerações sobre o envelhecimento da população ou sobre a desigualdade social, sobre a degradação do meio ambiente ou o exercício da cidadania são construídas, divididas, compartilhadas sob um código que naturalmente se constitui em dois princípios: a criação de uma relação de empatia e o cultivo ao olhar apreciativo.

Apreciar. Dar preço? Há múltiplos sentidos nas palavras como há nas realidades que elas representam! O sentido das intervenções promovidas pelos “encontros de responsabilidade social” eleva a palavra apreciar ao seu mais belo sentido. Gostar. As visitas realizadas pelos alunos ao meio real são fundadas nessa razão sensível, na capacidade da empatia, na possibilidade de se gostar do diferente, do outro, reconhecendo-o como parte da minha identidade com ser social!

Alunos, professores e os demais participantes, idosos, crianças, são colocados lado a lado, como partes de um todo, como múltiplos reflexos, possibilitando ações de intervenção que não sejam verticais, mas a ideia de que a ação deva surgir da própria dinâmica dos processos, abandonando a espera, a responsabilização exclusiva do outro ou do Estado pela ação.

Levar um grupo musical a uma tarde com idosos, dançar de olhos vendados junto a um grupo de bailarinos cegos, construir brincadeiras e não apenas brincar com crianças em situação de risco, dançar, apenas dançar com todos eles, dão clareza e leveza ao cenário que se deseja, trazendo a essência do outro para dentro de si e legando, enquanto outro, o prazer da interação!

FOTO 3

É em meio aos ensaios, às oficinas, à escolha de repertórios ou histórias no processo de planejamento das intervenções no meio real que são cristalizados os princípios da reflexão criativa e da razão sensível. Os “encontros de responsabilidade social” são um disseminador, por meio de seus participantes, de uma nova forma de olhar, interagir e participar, onde a “assistência” ofereça espaço à “interação” e o “eu” seja parte do “todos”.

 Júlio Augusto Farias
Coordenador Pedagógico do Ensino Médio