WikiLeaks na USP?

Estadão

08 Dezembro 2010 | 11h34

Na semana em que estourava a polêmica do site WikiLeaks, no qual o australiano Julian Assange passou a vazar o conteúdo de quase 250 mil telegramas confidenciais de embaixadas americanas espalhadas pelo mundo, os alunos do segundo semestre de Jornalismo da USP estavam envolvidos na construção de um outro site: o JorWiki.

Apesar do nome semelhante, nossa preocupação não era divulgar documentos secretos da reitoria ou coisas do tipo, mas o trabalho consistia na elaboração de um artigo interativo, valendo-se da ferramenta Wiki.

O Wiki é uma plataforma virtual que constitui uma coleção de documentos em “hipertexto”, na qual os artigos deixam de ser um simples texto impresso e passam a ganhar a interatividade, já que é possível estabelecer links entre as palavras do artigo com outros sites, vídeos, músicas e imagens (mais ou menos como funciona a também polêmica Wikipédia).

Sendo assim, a partir das aulas da disciplina “Ciências da Linguagem” e seu conteúdo que englobava a Análise do Discurso, os elementos do processo narrativo e da reportagem, a questão do documentário, da entrevista e a análise do telejornal como gênero televisual, cada aluno devia escolher um ou mais temas para direcionar o seu artigo.

Eu, por exemplo, optei pela questão da “construção das narrativas” para discutir como o ambiente midiático que envolveu a épica trajetória dos 33 mineiros soterrados no Chile costurou as narrativas e como esse processo levou a consolidação dos mineiros ao status de heróis. Como o material de pesquisa era muito amplo, optei por ressaltar os aspectos narrativos das reportagens veiculadas que, de alguma maneira, se assemelhavam às jornadas dos heróis que conhecemos, desde Super-Homem, Popeye, Harry Potter até Chapeuzinho Vermelho.

Para tanto comecei a juntar todo o material que os meios impressos e a TV divulgavam sobre o episódio, fossem reportagens, matérias ou análises. O resultado foi uma pilha de papéis e sites nos quais mergulhei durante um mês com a tarefa de sintetizá-los em um artigo. Aquela pilha era a minha própria “mina do Chile” e o meu resgate só ocorreu no último domingo quando o artigo Estavam realmente ‘bien en el refugio, los 33’? ficou pronto.

Uma vantagem, graças ao “hipertexto”, foi o estabelecimento de links entre as frases do texto com as próprias reportagens dos jornais e vídeos para contextualizar o que era dito. Além disso, fiz links com outros trabalhos da classe que também dialogavam com a questão das narrativas e dos heróis.

Essa experiência de interminável e coletiva construção constatou a seguinte frase de Eni P. Orlandi: “A palavra discurso, etimologicamente, tem em si a ideia de curso, de percurso, de correr por, de movimento”

Leandro é aluno do 1º ano de Jornalismo da ECA-USP